Dois terços dos doentes oncológicos já não morrem da doença, mas a ideia de uma vacina universal “é um disparate”. A tese é defendida pelo prestigiado investigador Manuel Sobrinho Simões, que sublinha que o foco deve centrar-se no rastreio, na prevenção e no controlo da patologia.
O patologista e Prémio Pessoa (2002) falava à Lusa a propósito da quinta edição do ciclo “Tratar o Cancro por Tu”, iniciativa do IPATIMUP (Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto) que arranca na próxima terça-feira.
Controlo em vez de cura “Todos os anos, o número de diagnósticos aumenta no mundo, mas o número de mortes não acompanha essa subida. Isto significa que estamos a melhorar a taxa de controlo”, explica o diretor do IPATIMUP. Para Sobrinho Simões, o objetivo passa por transformar, tanto quanto possível, o cancro numa doença crónica. “Cada doente e cada cancro têm uma especificidade. Não é a mesma coisa que uma vacina”, nota, reforçando que a linguagem acessível é a chave para desmistificar o medo que a palavra ainda gera em Portugal.
Genética vs. Hereditariedade O investigador esclarece um ponto fundamental: embora o cancro seja uma doença genética — as células malignas apresentam alterações nos genes — 90% dos casos não são herdados dos pais. “As alterações genéticas são frequentemente secundárias a hábitos como o tabaco. O tabaco induz mutações, mas estas não são hereditárias”, destaca.
Atualmente, o rastreio permite antecipar cerca de 40% dos casos, sendo que nos restantes 60% a medicina de precisão tem sido vital para garantir a sobrevivência e a qualidade de vida dos doentes. Um exemplo paradigmático é o cancro da mama, onde 70% das mulheres já sobrevivem à doença.
O Ciclo “Tratar o Cancro por Tu” Com mais de 3.500 participantes em edições anteriores, o ciclo percorrerá seis cidades portuguesas até 12 de março, contando com a presença de Elisabete Weiderpass, diretora da Agência Internacional de Investigação sobre o Cancro (IARC). O roteiro das sessões focar-se-á nos seguintes temas:
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Matosinhos: Deteção precoce e impacto dos rastreios.
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Guarda (22 jan): Medicina de precisão e acesso a fármacos inovadores.
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Évora (12 fev): O papel da hereditariedade e estudos genéticos.
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Viana do Castelo (19 fev): Ambiente e comportamento na prevenção.
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Guimarães (5 mar): Do diagnóstico à decisão clínica.
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Angra do Heroísmo (12 mar): Principais fatores de risco.
Para a responsável da IARC, esta iniciativa é essencial para “quebrar tabus e promover o acesso à informação”, permitindo uma estratégia mais eficaz no combate global à doença.
Redação com diariocoimbra.





