Um dia passado no cenário catastrófico nos concelhos de Leiria e Marinha Grande permite perguntar ao resto do país: lembram-se do apagão? Dias às escuras, sem água, e com uma vasta calamidade.
Um avião que sobreviveu à 2.ª Guerra Mundial, mas não à depressão Kristin. Um fornecedor da Jean-Paul Gaultier que ficou com uma linha de produção de 2,5 milhões de euros à mercê da chuva, após o desabamento do telhado. Um autarca que teve de ir ao concelho vizinho para apanhar um governante e explicar o drama que se vivia na sua terra. Pinhais resistentes como gressinos. Um autarca que pede para se racionar comida. E dezenas de milhares de cidadãos na escuridão, torneiras sem água, a presidente de uma IPSS que chora perante o repórter pelos idosos sem comida, e o autarca que agradece por a comunicação social reportar aquilo que Lisboa não tem interesse em olhar.

Kristin invadiu Portugal, devastou o centro do país, mostrou à saciedade a lentidão de procedimentos oficiais e a incapacidade de aprender com o apagão de há meses, ou os incêndios de anos consecutivos. O ECO/Local Online passou o dia de quinta-feira em Leiria e Marinha Grande e, quando regressou à capital, deixou atrás de si uma população à espera que um milagre volte a pôr tudo no lugar.
Conduzindo de sul para norte, a caminho de Leiria, pela autoestrada do Oeste, A8, o efeito da depressão começa a ser evidente apenas passada a Nazaré. Na área de serviço da A8 a sul de Pataias, uma fila de carros entra pela autoestrada dentro, fazendo adivinhar que nas vizinhas Marinha Grande e Leiria haveria falta de combustível.
A ladear a via começam a ver-se centenas de pinheiros caídos, ou cortados pelo meio como se de um gressino de restaurante italiano se tratassem. “Das árvores de grande porte na cidade, 80% foram abaixo”, diz-nos uma técnica da autarquia com quem deparamos à entrada de Leiria.

Adiante, paramos para a passagem de uma caravana de ambulâncias de bombeiros do Alentejo. Elvas, Torrão, Ferreira do Alentejo, Cercal do Alentejo, Alandroal, Ponte de Sôr. Gonçalo Lopes, bombeiro da corporação de Arraiolos, explica-nos que vêm para “fazer o serviço de emergência que estes bombeiros daqui não podem fazer, porque estão empenhados” nos efeitos de Kristin.
Como percebêramos na A8, o combustível é um bem escasso. Galp e Repsol estão encerradas, a Moeve tem combustível e longa fila à entrada da bomba. Também a comida em cafés e restaurantes é inexistente e as grandes empresas de retalho por que passamos estão encerradas.
Desde o início que disse que era necessário racionar alimentos. Vamos ter vários dias sem eletricidade. Em alguns sítios sem água. Quando vier a eletricidade, será por fases. Vão ter que se adaptar a esta forma de viver
“Desde o início que disse que era necessário racionar alimentos. Vamos ter vários dias sem eletricidade. Em alguns sítios sem água. Quando vier a eletricidade, será por fases. Vão ter que se adaptar a esta forma de viver”, alerta o presidente da Câmara, apelando ao controlo do stress perante estes dias invulgares.
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Estragos provocados pela tempestade Kristin no centro da cidade de LeiriaHugo Amaral/ECO -

Estragos provocados pela tempestade Kristin no centro da cidade de LeiriaHugo Amaral/ECO -

Estragos provocados pela tempestade Kristin no centro da cidade de LeiriaHugo Amaral/ECO -

Estragos provocados pela tempestade Kristin no centro da cidade de LeiriaHugo Amaral/ECO -

Estragos provocados pela tempestade Kristin no centro da cidade de LeiriaHugo Amaral/ECO -

Estragos provocados pela tempestade Kristin no centro da cidade de LeiriaHugo Amaral/ECO -

Estragos provocados pela tempestade Kristin no centro da cidade de LeiriaHugo Amaral/ECO -

Estragos provocados pela tempestade Kristin no centro da cidade de LeiriaHugo Amaral/ECO
Ouvem-se motoserras que o olhar não avista. Nada de inusual se estivéssemos no Pinhal de Leiria mandado plantar por D. Dinis, mas este barulho intenso ressoa pelas ruas da cidade do Lis – rio que corre cheio de força e com forte caudal.
Frente ao tribunal, o som do martelo judicial foi igualmente substituído por motosserras. O serviço judicial está suspenso, assim como as aulas na Escola Secundária Domingos Sequeira e em tantas outras do concelho.
“Sem comunicações é muito difícil”
Margarida Silveirinha, funcionária administrativa, explica que dentro da escola cai água vinda do teto de vidro desabado durante a noite. Esta semana, os alunos desfrutam de uma interrupção letiva, mas não se sabe quando voltará a haver aulas. “O telhado voou. Há um corredor ali dentro em que o teto é em vidro, está a chover dentro da escola”. A funcionária, que só ficou a saber que a escola está danificada após se dirigir a esta e constatar que os portões estão fechados, diz que “sem comunicações é muito difícil. Há muitos poucos sítios onde temos rede”.
Margarida não sabe sequer se conseguirá contactar os colegas, pelo que envia uma mensagem no grupo de whatsapp, na esperança de chegar a eles. “Neste momento, tenho 15% de bateria”, nota. Tal como não há rede de telefone, na cidade não havia luz até ao início da noite, quando começou lentamente a regressar.
Minutos antes, conseguíramos falar para fora de Leiria, aproveitando rede móvel existente nos Bombeiros Sapadores. Ali, o primeiro-ministro, que na véspera tinha negado decretar estado imediato de calamidade, apesar do apelo contundente do presidente da Câmara, apareceu finalmente, quando o relógio se aproximou das 12 horas numa comitiva de automóveis vinda de Lisboa.

Luís Montenegro visitou as instalações dos Sapadores e os jornalistas foram convocados para a garagem, junto dos camiões de socorro e com som de fundo composto por geradores de eletricidade. O primeiro-ministro destaca que este é “o concelho cujo impacto foi, de forma mais generalizado, sentido”.
“Temos uma noção agora ainda mais próxima da dificuldade que muitas famílias e muitos concidadãos nossos estão a sentir, fruto da inacessibilidade em termos de comunicação com quem quer que seja”, afirmou o chefe do Governo, mais de 24 horas passadas da madrugada de terror vivida nesta zona do país, onde a força do vento se constata em vigas de ferro de pavilhões industriais e torres de energia de alta tensão vergadas como plasticina.
“Uma palavra para a forma como os portugueses têm encarado com uma situação de revolta, indignação face a um fenómeno meteorológico que é raro, de alguma maneira não se podia prever com muita antecedência”, afirmou Luís Montenegro, deixando depois a nota das dificuldades de comunicação que o próprio vinha sentindo desde que entrou na zona de maior impacto de Kristin – um constrangimento que qualquer cidadão sentia ali.
Uma palavra para a forma como os portugueses têm encarado com uma situação de revolta, indignação face a um fenómeno meteorológico que é raro, de alguma maneira não se podia prever com muita antecedência
Terminada a visita, a comitiva do primeiro-ministro arrancou em direção a Coimbra, para mais visitas in loco aos locais do desastre natural.
Já o presidente da Câmara de Leiria, Gonçalo Lopes, aproveita os microfones da comunicação social para lançar o apelo ao país para doação de comida e lonas para cobrir alguns dos muitos telhados com cobertura atingida pelo vento inclemente. Sem querer arriscar valores para a reconstrução, diz que “a tarefa poderá demorar o resto do mandato na reconstrução”. Estruturas que necessitam de reabilitação profunda têm de passar pelos procedimentos habituais, designadamente concursos públicos, e isso “em algumas situações poderá demorar mais de um ano”, explica.
Assistimos a um fenómeno que tem impactos de tal maneira gigantescos que equiparo a um período de pós-catástrofe associado a uma guerra. O sistema colapsou. Basta dar um exemplo: os bombeiros servem para proteger; o quartel dos bombeiros foi abaixo
Quartel dos bombeiros “foi abaixo”
“Assistimos a um fenómeno que tem impactos de tal maneira gigantescos que equiparo a um período de pós-catástrofe associado a uma guerra. O sistema colapsou. Basta dar um exemplo: os bombeiros servem para proteger; o quartel dos bombeiros foi abaixo”, realçou o presidente da autarquia, que já avisou os presidentes de Junta para não esperarem por funcionários da câmara para ações que podem eles próprios executar com as suas populações.
O edifício dos bombeiros voluntários, já para lá do perímetro da cidade, é, de facto, exemplo da devastação. Assim como, não muito longe, o da Topcoat Embal, uma empresa de lacagem de plásticos, designadamente tampas de perfumes e cosméticos de marcas de luxo, como Jean-Paul Gaultier e Paco Rabanne, ou até a Zara. O impacto do fenómeno extremo impressiona.
Manuel Calva, responsável da empresa, descreve um cenário arrepiante. Da equipa de 56 funcionários a trabalhar por turnos, os que asseguravam a laboração na madrugada de dia 29 foram surpreendidos por um forte vendaval, eram cerca das quatro horas. “Deram-se conta de que havia um portão que estava a abanar muito. Quando foram ver, foi o portão, foi tudo. Só tiveram tempo de se refugiar na cozinha. Deixaram tudo o resto. Um quarto de hora de violência extrema que originou isto que estão a ver”.
Visível logo desde a rua, a queda de tetos e de grande parte das paredes de dois pavilhões, num deles com as vigas de aço vergadas. O prejuízo, só em estrutura, poderá chegar a meio milhão de euros. “Preocupa-me mais a paragem de produção, porque implica perder alguns projetos que temos com o estrangeiro, onde temos prazos de entrega muito estritos”. Nesse caso, estará mais meio milhão de euros de faturação em causa.
Por isso, Manuel já está em contacto com empresas de fora da região, não afetadas pela depressão, para tentar acelerar a reconstrução.
A viagem do ECO/Local Online prossegue e cruza-se com estradas municipais obstruídas por enormes árvores tombadas, postes e cabos de telecomunicações a obrigar a gincanas na estrada e, visível à esquerda da EN109, mais uma grande árvore tombada, desta feita sobre a linha do Oeste.
A partir da estrada que passa pela base aérea de Monte Real, onde dois F16 foram afetados por quedas de infraestruturas, vemos militares em esforços para debelar os efeitos da depressão. A depressão teve especial atenção para com o espólio aeronáutico de Leiria. No designado jardim do avião, renomeado pelo povo em alusão ao reluzente avião da Segunda Guerra Mundial que ali “aterrou”, o arvoredo cedeu, e um dos grandes exemplares de pinheiros esmagou, impiedosamente, o bimotor Beechcraft canadiano. No seu tempo, atingia 346 km/h, subia até 6.000 metros e tinha uma autonomia de 1.600 km. Estacionado num parque de Leiria em 1977, foi deslocado para ali em 2006, “de modo a ter outra visibilidade”, explica a placa colocada pela autarquia. Não parece ter capacidade para voltar a reluzir.
Em Monte Real, um cidadão vende telhas num recinto na beira da estrada onde a queda de árvores não conseguiu destruir todo o seu stock. “Mais tivesse, mais vendia”, ouvimo-lo a dizer a um dos vários clientes que ali param o carro e ali se aviam de telhas de vários feitios.
A viagem prossegue, com passagem por um café de beira da estrada onde apenas se servem cervejas que ainda resistem frias. Cerveja de pressão e café não há, porque a eletricidade partiu com Kristin.
A situação ontem [quarta-feira] foi dramática. Estávamos completamente isolados. A situação está muito difícil, como puderam ver. Estamos num ambiente de guerra, de catástrofe, e ontem quase entrávamos em pânico, porque ninguém nos socorria
Praia completamente destruída
Em Vieira de Leiria, já em território da Marinha Grande, deparamo-nos com trânsito parado a perder de vista. A razão, percebe-se adiante, a espera por vez na bomba de uma cadeia de supermercados. Passado o congestionamento, rumo à praia, e com dezenas de carros encostados na berma contrária numa longa fila para a bomba, chegamos ao cenário de destruição dos bares de praia.
Âncora, Sun 7, duvida-se que algo se salve dos escombros. No areal vemos restos de árvores. Se o cenário é de guerra, como vários dizem, Kristin parece ter aparecido na praia de Vieira de Leiria para um remake do desembarque na Normandia.
“A praia da Vieira está completamente destruída”, salientou o presidente da Câmara da Marinha Grande, quando, num cenário de grande azáfama no edifício da Câmara envolto em escuridão, recebeu o ECO/Local Online, à hora a que saía, discreto, António José Seguro (o candidato presidencial, sozinho, sem assessores a acompanhá-lo, preferiu não prestar declarações: “podem dizer que cá estive, mas não vou falar”, explicou, enquanto saía do edifício para a escuridão da noite), e entrava, igualmente discreta e também sem querer prestar declarações, a ministra da Cultura, Margarida Balseiro Lopes, que é natural da Marinha Grande – “mandei-lhe uma mensagem, para nos acudir”, diz o presidente da Câmara.
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O rasto de destruição em Vieira de Leiria, junto à estrada marginal.Hugo Amaral/ECO -

O rasto de destruição em Vieira de Leiria, junto à estrada marginal.Hugo Amaral/ECO -

O rasto de destruição em Vieira de Leiria, junto à estrada marginal.Hugo Amaral/ECO -

O rasto de destruição em Vieira de Leiria, junto à estrada marginal.Hugo Amaral/ECO -

O rasto de destruição em Vieira de Leiria, junto à estrada marginal.Hugo Amaral/ECO -

O rasto de destruição em Vieira de Leiria, junto à estrada marginal.Hugo Amaral/ECO -

O rasto de destruição em Vieira de Leiria, junto à estrada marginal.Hugo Amaral/ECO
Numa secretária no hall da Câmara, três pessoas falam debruçadas sobre umas folhas de papel. Ali estão escritos nomes e moradas de alguns dos 40 mil cidadãos da Marinha Grande. Familiares de outras paragens, sem conseguirem fazer a ligação para os seus que vivem na Marinha Grande, contactam a Câmara, que tem em ação uma equipa itinerante a visitar estes seus munícipes, de modo a verificar se estão em segurança.
Não conseguimos dar assistência aos nossos utentes a nível da alimentação. As nossas funcionárias estão a ir a casa deles à mesma fazer a higiene básica. Já encontrámos vários idosos caídos em casa, completamente sujos, mas não conseguimos fazer mais que isso
Liliana Prior sabe o que é andar a bater de porta em porta. Presidente de uma IPSS, a Associação Social Cultural e Desportiva de Casal Galego, com 25 colaboradoras e prestação de apoio a mais de 100 idosos, diz ao ECO/Local Online ter “câmaras frigoríficas enormes cheias de comida a estragar-se. Não conseguimos dar assistência aos nossos utentes a nível da alimentação. As nossas funcionárias estão a ir a casa deles à mesma fazer a higiene básica. Já encontrámos vários idosos caídos em casa, completamente sujos, mas não conseguimos fazer mais que isso. Alguns não têm familiares, não têm a família de retaguarda, então, hoje dirigi-me aqui ao município para pedir ajuda, para ver se, pelo menos com um gerador, conseguimos dar alimentação aos nossos idosos e não estragar o que temos nas câmaras frigoríficas”.
Destes idosos, “muitos não têm o que comer”, e a IPSS não consegue fornecer um alimento tão básico quanto sopa, por nem sequer dispor de água para a confecionar. Em termos de telecomunicações, diz serem inexistentes, até para pedir socorro – no seu caso particular, tenta, há mais de um dia, contactar para o seu local de trabalho, em Torres Novas.
À porta da Câmara da Marinha Grande, dezenas de pessoas conversam, praticamente no breu. Uma espécie de Agora da antiguidade clássica replicada nos tempos modernos à boleia da quebra de energia. Junto à porta de entrada, papéis manuscritos dão nota de que há pontos de eletricidade para carregar telemóveis e rede wifi, mas só até às 18 horas.

“A situação ontem [quarta-feira] foi dramática”, diz Paulo Vicente, presidente da Câmara da Marinha Grande. “Estávamos completamente isolados. A situação está muito difícil, como puderam ver. Estamos num ambiente de guerra, de catástrofe, e ontem quase entrávamos em pânico, porque ninguém nos socorria”.
Na zona industrial, por onde passamos de regresso a Lisboa, constatamos a destruição de edifícios, tal como nos tinha relatado o autarca. “As instalações que não foram destruídas estão com limitações, porque não têm energia”, diz Paulo Vicente. Não só a eletricidade falha. Os combustíveis escasseiam. Os carros da autarquia estavam a recorrer à área de serviço da A8, a sul de Pataias, onde na manhã desta quinta-feira vimos a longa fila a entrar pela autoestrada, mas ao final da tarde já não havia aí combustível.
“Está a vir um autotanque de Lisboa, para abastecer os jerrycans, para levar aos geradores, para as nossas viaturas, e para as máquinas que andam no terreno, que são nossas, além das do exército, duas ou três”. De fora estão a chegar também geradores e mais de 3.000 metros quadrados de lonas para cobrir telhados afetados pelo vendaval.
Ao final da noite de quinta-feira, minutos após as 22 horas, na antena da SIC Notícias, António Leitão Amaro, ministro da Presidência, depois de dar uma explicação aos telespetadores sobre ciclogénese explosiva, assegurou que “as mulheres e homens que foram para o terreno, foram no momento certo, isto é, logo”.
O presidente da Câmara da Marinha Grande explicara ao ECO/Local Online que só após se deslocar à vizinha Leiria, para aproveitar a presença ali de dois secretários de Estado na quarta-feira ao final da tarde, conseguiu sensibilizar o Governo.
Na quarta-feira “à noite, quando tivemos notícia, através de órgãos de comunicação, que os secretários de Estado vinham ali a Leiria, fomos a Leiria expor a nossa situação. Foi a partir daí, até com entrevistas que tive com a comunicação social para relatar a situação da Marinha Grande, que se abriram portas a este desenvolvimento que hoje estamos a sentir”.
Paulo Vicente refere-se, por exemplo, a um contingente da PSP, “reforços para fazer vigilância à cidade, no centro de acolhimento de desalojados”, diz. “Hoje [quinta-feira] temos já reforços da escola de polícia”, acentua, apontando agentes vindos de Torres Vedras e Lisboa, por exemplo. “Temos também exército e força aérea com maquinaria, a retirar todos os destroços, árvores, que estão nas vias de comunicação”.
Prova da solidariedade regional, Matosinhos, Santa Comba Dão e a Cruz Vermelha enviaram geradores para dar energia aos equipamentos de fornecimento de água, ao centro de saúde e farmácias.
Acho que o Governo foi confrontado com uma realidade no terreno eventualmente diferente daquela que tinha imaginado no início. Por isso chamei a atenção que o Governo viesse ao terreno
Leitão Amaro afirmou ainda na sua aparição na televisão, na quinta-feira à noite: “ontem [quarta-feira], às 7, 8, 9 da manhã, estávamos ao telefone com vários autarcas de vários sítios do país”.
Leiria, pelo que conta o autarca ao ECO/Local Online, não terá sido um deles. Gonçalo Lopes, presidente da Cãmara, assegura que o contacto com o Governo aconteceu apenas após o próprio autarca tomar a iniciativa.
A comunicação entre São Bento e os autarcas não parece estar a funcionar igualmente no concelho da Marinha Grande, onde o autarca não fora informado, já passava das 19 horas desta quinta-feira, se o seu território está, ou não, abrangido pelos 60 concelhos do estado de calamidade decidido pelo Governo.
“Acho que o Governo foi confrontado com uma realidade no terreno eventualmente diferente daquela que tinha imaginado no início. Por isso chamei a atenção que o Governo viesse ao terreno. Deu um sinal ao país, sobretudo às zonas afetadas, que está empenhado em resolver os problemas”, diz o presidente da Câmara de Leiria. E alerta: “à medida que o tempo vai passando, vamos ter que concretizar essas medidas. A presença do Governo é importante para perceber a dimensão dos estragos. Uma pessoa, quando vê, é diferente do que aquilo que ouviu dizer”.
O autarca de Leiria diz acreditar que com “os passos que têm de ser dados a seguir é que se vai perceber se o Governo está ou não sobejamente preparado para esta intervenção”.
A vastidão dos danos no centro do país comporta um apelo à memória dos milhões de cidadãos que viveram o apagão entre o final da manhã e o início da noite de 28 de abril de 2025. Aqui, no centro, não são umas horas, mas dias, sem água e luz. E, ao contrário do sucedido naquele dia, o regresso da energia não vai deixar tudo bem.





