O cérebro humano não serve apenas para nos orientar no espaço; funciona, ele próprio, como um sofisticado sistema de navegação. Esta é a premissa de Christian Doeller, neurocientista do Instituto Max Planck, que acaba de ser distinguido com o prestigiado Prémio Leibniz, recebendo uma dotação de 2,5 milhões de euros para prosseguir as suas investigações.
O jogo como ferramenta científica: No Instituto Max Planck de Ciências Cognitivas e Cerebrais Humanas, em Leipzig, Doeller utiliza videojogos para mapear o funcionamento cerebral. Nestes testes, os voluntários utilizam um teclado para navegar em ambientes virtuais, enquanto a sua atividade cerebral é monitorizada em tempo real. “Pedimos-lhes, por exemplo, que atuem como taxistas e transportem alguém do ponto A ao ponto B”, explica o investigador. O objetivo é identificar os princípios de codificação que tornam possível o pensamento humano.
A equipa observou que os participantes com melhor desempenho — aqueles que encontram invariavelmente o caminho mais curto na cidade virtual — apresentam uma atividade cerebral mais elevada nas áreas responsáveis pela navegação.

Do espaço físico ao pensamento abstrato: A grande descoberta de Doeller é que este sistema não se limita à geografia. O cérebro utiliza mecanismos espaciais para organizar a memória, a aprendizagem e o conhecimento. “Tal como as fichas escolares eram organizadas fisicamente para ordenar conceitos, o espaço é um meio fantástico para visualizar a proximidade ou distância entre ideias, baseando-se na sua semelhança ou diferença”, afirma.
Esta teoria remete para o método do sociólogo Niklas Luhmann, que organizava as suas 90 mil notas manuscritas numa caixa — um sistema que o próprio considerava um reflexo do seu cérebro e que continua a ser estudado na Universidade de Bielefeld. Para Doeller, sempre que utilizamos uma estratégia espacial para ordenar informação — como organizar artigos de jornal em diferentes pontos de uma secretária — este sistema de navegação está ativo.
Das células em grelha à inteligência social: A carreira de Doeller ficou marcada em 2010 pela demonstração das “células em grelha” (grid cells) em humanos, um mecanismo já conhecido em roedores. Através de ressonância magnética funcional, o investigador provou que os seres humanos representam a posição espacial de forma muito semelhante à dos ratos.
Agora, com o financiamento do Prémio Leibniz, o foco vira-se para a interação social. Doeller pretende investigar como o cérebro processa a aprendizagem conjunta entre dois indivíduos. “É um desafio técnico enorme, pois exige a sincronização de dois scanners em simultâneo enquanto as cobaias resolvem uma tarefa interativa”, revela.
Além da investigação fundamental, o Instituto Max Planck desenvolve estudos clínicos aplicados a patologias como a doença de Alzheimer e a “Covid-19 longa”, cujos resultados deverão ser publicados em breve.
Com euronews.com






