As universidades portuguesas já usam IA de forma generalizada, mas faltam orientações para que instituições e alunos não andem a “ritmos e velocidades diferentes”. Num contexto de “mudança permanente”, é necessário dar o “passo seguinte” e “definir estratégias”, diz o CNIPES.
O Centro Nacional para a Inovação Pedagógica no Ensino Superior (CNIPES) concluiu que o uso de inteligência artificial (IA) já se generalizou nas universidades. As primeiras recomendações do estudo sobre IA no ensino superior vão ser apresentadas ao Governo no dia 9 de abril.
O JPN falou com Sandra Soares, coordenadora do Grupo de Trabalho “Digital e IA na Educação”, do CNIPES, e vice-reitora da Universidade de Aveiro (UA). A investigadora disse que “já há uma exploração muito intensa [de IA] na área do Ensino”, mas, no entanto, “falta governação com intenção”.
O CNIPES foi constituído em outubro de 2024, ao abrigo do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), e tem o objetivo de promover a inovação pedagógica e melhorar a qualidade do ensino, através de “recomendações à tutela para elaborar guiões que sirvam de farol para as IES”, explicou Sandra Soares. “Estas orientações são fundamentais para não termos instituições e estudantes a ritmos e velocidades diferentes”, sublinhou.
“Há muita exploração, mas é necessário dar o passo seguinte: definir estratégias e começar a embeber essas estratégias nas diferentes áreas de missão das instituições de ensino superior (IES)”, declarou a investigadora.
Num cenário que está em “mudança permanente”, não é possível apresentar orientações muito rígidas. “Não podemos ter princípios explícitos e que não sejam dinâmicos”, avançou a vice-reitora da UA ao JPN, referindo que, apesar de a experimentação ser “muito útil nesta fase”, é importante definir “orientações para o sistema, nomeadamente o que é, ou não, permitido num contexto de ensino e de aprendizagem”.
“Oportunidade” para estudantes
O CNIPES vê na IA “uma oportunidade para chegar aos estudantes com diferentes ritmos e com diferentes formatos de aprendizagem”. Sandra Soares considera que as ferramentas de IA permitem aos estudantes ter “tutores” que os acompanhem de forma mais personalizada, mas alerta que “é necessário saber usá-las da melhor forma e providenciar as melhores orientações para quem as coloca em prática no ensino”.
“Vejo [na IA] um potencial que tem risco associado”, comentou a académica, lembrando que “a IA não vai parar de existir” e, nesse sentido, proibi-la “nunca seria uma solução saudável e benéfica para o sistema”. Mas é importante que a adoção desta tecnologia seja feita de forma “ética e responsável”, sobretudo no contexto académico, e isso passa por desenvolver a “literacia em IA”.
“A forma como os estudantes usam a IA – muitas vezes por não terem literacia relativamente à forma de funcionamento destas ferramentas – prejudica algumas funções cognitivas, nomeadamente a memória, a atenção ou o pensamento crítico”, adverte a especialista.
Para além de promover a literacia digital, é importante que as IES não abandonem os métodos de ensino tradicionais. “Ensinar e aprender sem IA é fundamental, porque à medida que a tecnologia vai tendo mais expressão, as competências humanas são cada vez mais relevantes e, portanto, o ensino superior tem um papel fundamental em garantir que a IA seja uma espécie de copiloto e não o piloto das aprendizagens dos estudantes”, declarou ao JPN.
Papel do docente e estudante “precisam de mudar”
Para a investigadora do CNIPES, a IA “abre uma janela de foco” para a inovação pedagógica: “A aprendizagem precisa de ser centrada no estudante, focada nas competências, no processo de aprendizagem e não tanto no produto”.
Sandra Soares acredita que a IA veio expor “a necessidade de avaliar de forma diferente” e isso significa que “o papel do docente e do estudante precisam de mudar”, tal como a avaliação, que, nota, deve “ser ajustada ao mundo atual”.
“Cada vez mais o papel do docente vai ser o do arquiteto da aprendizagem”, afirmou a pesquisadora, garantindo que “as IES, como um todo, têm dado um salto tremendo do ponto de vista da inovação pedagógica” e a criação do CNIPES é um “sinal político muito positivo”.
Um estudo recente, coordenado a nível europeu, descobriu que Portugal está entre os países da Europa onde os jovens usam mais ferramentas de IA e que os alunos de estratos sociais mais elevados tendem a fazer um uso mais intensivo dessas ferramentas.
Nesse plano, “a IA pode amplificar” as desigualdades no acesso ao conhecimento, mas a investigadora recorda que o CNIPES está focado “na educação como um todo e não apenas no ensino superior”. Assim, é crucial que, “desde muito cedo, se dissipem essas desigualdades”, porque se “isso não for trabalhado antes”, os estudantes chegam às universidades sem que “esse equilíbrio esteja mantido”.
“É fundamental que ninguém fique para trás e que este tipo de ferramenta possa democratizar e apoiar aqueles que são mais vulneráveis ou que tenham algum tipo de dificuldade adicional pela potencialidade que representam e nunca o inverso”, concretizou.
Entre as recomendações que vão ser apresentadas ao Governo no início de abril, Sandra Soares adiantou que o CNIPES vai propor a criação de “uma plataforma associada à inovação pedagógica e ao uso de IA na educação”, porque ainda “não há evidência científica relativamente ao que melhor funciona em termos de aprendizagem”.
“É importante monitorizar o que está a acontecer, que impacto está a ter e, em função disso, fazer recomendações ajustadas àquilo que vamos percebendo que é a realidade”, concluiu.
Com Jpn.up.pt//Editado por Inês Bulcão






