O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), José Ornelas, considerou, este sábado, não ser “eticamente aceitável” que compensações atribuídas às vítimas de abuso sexual na Igreja Católica sejam tributadas pelo Estado. A declaração surge na mesma semana em que foi noticiado que a CEP ignorou as recomendações da comissão de fixação de compensação e cortou nos valores das indemnizações.
Depois de a Igreja Católica ter cortado no valor das indemnizações às vítimas de abuso sexual sugeridas pela comissão de fixação de compensação, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) mostrou-se este sábado indignado com a possibilidade de o Estado tributar estas indemnizações, considerando não ser “eticamente aceitável”. Em entrevista à agência Lusa, José Ornelas defendeu um novo tribunal de Nuremberga para julgar políticos que invocam valores cristãos para justificarem discursos de ódio e exclusão.
“Eu não estou a ver que seja eticamente aceitável que o Estado, apesar de toda a legislação, fosse a um esforço que se faz de ir ao encontro das vítimas e as tirasse [as indemnizações]. Não me parece uma coisa aceitável”, afirmou ontem José Ornelas aos jornalistas, em Fátima, à margem do V Encontro Nacional das Comissões Diocesanas de Proteção de Menores e Adultos Vulneráveis.
A revista “Sábado” noticiou que o Fisco vai taxar as vítimas de abusos sexuais na Igreja, referindo que os 1,6 milhões de euros pagos como reparação pelos abusos não estão isentos de impostos e que, “em alguns casos, a compensação financeira pode cair para metade do valor comunicado”. Ornelas declarou que a CEP está a “tratar do assunto”, defendendo que “qualquer pessoa de bom senso diria o contrário [a não tributação]”. “Eu não quero mal ao Estado, toda a gente paga impostos, agora de pessoas que já sofreram ir sobrecarregá-las ainda, ulteriormente, com um peso fiscal”, comentou o também bispo de Leiria-Fátima, alegando que esta é uma “situação extraordinária”.
A 26 de março, a CEP anunciou que 57 vítimas de abuso sexual, cujo pedido de compensação foi aprovado, vão receber entre nove mil e 45 mil euros, num total de 1,6 milhões de euros. A 7 de abril, o semanário “Expresso” noticiou que a Igreja cortou nas indemnizações sugeridas pela comissão de fixação de compensação. Os elementos que compõem a comissão entenderam que o seu trabalho foi desconsiderado e não querem estar associados aos valores finais entregues às vítimas.
“Contra os vivos”
Em entrevista à agência Lusa, ontem publicada, o presidente da CEP defendeu a existência de um novo tribunal de Nuremberga para os políticos que invocam valores cristãos para defenderem discursos de ódio e exclusão. Hoje ouve-se “um discurso de responsáveis políticos que deveriam estar nas barras do Tribunal de Nuremberga”, porque o que “propõem está completamente fora daquilo que é a razão, a racionalidade do ser humano e da fé” cristã, declarou o bispo de Leiria-Fátima.
No final do segundo mandato como presidente da CEP, Ornelas criticou aqueles que são “contra o aborto e contra os vivos”, afirmando que não cabe à Igreja julgar as “difíceis decisões pessoais”. “Uma pessoa que diz que é contra o aborto, mas que depois, aos vivos, deixa-os na miséria” ou “aceita que se bombardeiem os hospitais onde estão as mamãs com os bebés nas incubadoras”, “não é um cristão”, considerou.
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Mudanças na Igreja
O presidente da CEP considerou que o debate interno sobre as alterações na Igreja terá de terminar com decisões do Papa. “A diversidade não é inimiga da unidade” e “a Igreja não é um albergue onde cabe tudo, mas onde todos, todos, todos são convidados e onde participam à medida do seu caminho”, disse José Ornelas. O sínodo, processo de auscultação das bases sobre temas como a ordenação de mulheres ou o celibato dos padres, foi iniciado por Francisco, cabendo agora a Leão XIV.
Visita Papal
José Ornelas disse ainda esperar a visita do Papa Leão XIV a Fátima em 2027, por ocasião dos 110 anos do que a Igreja diz serem as aparições marianas na Cova da Iria.
JN.PT






