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Lança petição após namorado morrer por vício no jogo. 20 mil já assinaram

O namorado de Inês tirou a própria vida após gastar milhares de euros em jogos online. Para que isso não continue a acontecer, a jovem decidiu criar uma petição a pedir a “proibição da publicidade a jogos e apostas online”. O documento já foi assinado por mais de 20 mil pessoas.

0% dos rapazes portugueses e 43% das raparigas admitem já ter jogado online a dinheiro. E 28% admite mesmo ter problemas com o jogo, mais 6% do que a média europeia, segundo o relatório do European School Survey Project on Alcohol and Other Drugs.

Apesar disso, este vício ainda conta com muitos mitos ao seu redor. É visto por muitos como um ‘mal menor’, algo exclusivo à classe alta e até com alguma piada, com menos resultados negativos do que a dependência em álcool e/ou drogas. E a publicidade associada a estes conteúdos ajuda a menorizar os efeitos adversos que os mesmos realmente têm.

Inês Gaspar, de 27 anos, viveu na pele as consequências do vício no jogo.

O namorado, de 25, sempre mostrou um comportamento suspeito em relação aos jogos online, como contou a jovem ao jornal Público. No entanto, quando o confrontava, este que o garantia que se tratava apenas de entretenimento e que o fazia “com moderação”.

Só quando quiseram comprar casa é que Inês se apercebeu que podia realmente haver um problema, uma vez que este não tinha dinheiro para a entrada do imóvel. O jovem acabou por admitir que tinha gasto 20 mil euros em jogo, mas pediu-lhe para “não contar a ninguém” e continuou a assegurar-lhe que não era viciado.

Nove meses depois e após ter feito um crédito de 35 mil euros e ter retirado 10 mil da empresa de família e perdido tudo a jogar, suicidou-se.

Mais de 20 mil assinam contra “publicidade a jogos e apostas online”

Apesar de Inês Gaspar ter tentado ajudar o namorado de diversas formas, “é muito difícil ajudar quem não tem noção de que é viciado” e o desfecho, para eles, foi o pior que podia ter acontecido.

No entanto, a jovem está a tentar transformar a morte do namorado em algo que ajude a evitar mais tragédias. Criou uma petição pública que tem como objetivo pedir ao Parlamento que proíba “a publicidade a jogos e apostas online”.

Em pouco mais de um mês, mais de 20 mil pessoas já assinaram o documento.

Na petição, Inês explica que “nos últimos anos, a publicidade a jogos e apostas online tornou-se cada vez mais presente em Portugal. Seja na televisão, nas redes sociais, em eventos desportivos e até em conteúdos dirigidos a públicos jovens. Esta presença constante não é neutra e tem consequências reais na saúde das população”.

E sublinha: “A perturbação do jogo é uma doença com um impacto significativo na população portuguesa, e está classificada internacionalmente como um comportamento aditivo, com características semelhantes a outras dependências, como o álcool ou o tabaco”.

“Sabemos, à luz da evidência atual, que exposição à publicidade de apostas está associada a maior probabilidade de iniciar o jogo, aumentar o valor apostado e desenvolver comportamentos problemáticos. Existe também um efeito cumulativo: quanto maior a exposição à publicidade, maior o risco. Além disso, a publicidade pode desencadear recaídas em pessoas que já tiveram problemas com o jogo”, diz, lembrando que “este impacto é particularmente preocupante em jovens e grupos mais vulneráveis, que são mais sensíveis a mensagens de recompensa rápida, normalização social e validação através do ganho”.

Apesar de existir legislação que regula a publicidade ao jogo em Portugal, Inês realça que “esta continua a ser amplamente permitida”. “Atualmente, as regras proíbem, por exemplo, publicidade dirigida a menores ou que prometa ganhos fáceis. No entanto, na prática, a exposição permanece elevada, especialmente em plataformas digitais e no contexto desportivo, e o controlo é limitado”, salienta ainda.

A jovem pretende, assim, que o jogo seja enquadrado da mesma forma do tabaco, “como uma questão de saúde pública, e não apenas de escolha individual”. Defende que “a publicidade a jogos e apostas online em todos os meios de comunicação, incluindo televisão, rádio, plataformas digitais e redes sociais” deve ser proibida, tal como  os “patrocínios e associações entre casas de apostas e eventos desportivos ou culturais”. E pede que se reforce “a proteção de crianças, jovens e grupos vulneráveis face à exposição a conteúdos relacionados com o jogo”.

Evidencia ainda Inês, no mesmo documento, que é necessário também reconhecer “que os impactos do jogo não se limitam à pessoa que joga. Afetam famílias, relações, estabilidade financeira e o próprio sistema de saúde”.

“Proteger a saúde das pessoas deve estar acima de interesses comerciais”, conclui.

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