A Grande Pirâmide de Gizé, no Egito, resistiu a terramotos durante 4.600 anos graças à sua arquitetura única e e engenharia avançada para a época
A Grande Pirâmide de Gizé, no Egito, resistiu a milhares de anos de sismos graças a uma combinação de arquitetura, geometria e engenharia avançada para a época. Um novo estudo concluiu que a estrutura vibra a frequências diferentes das do solo circundante, o que ajuda a protegê-la dos efeitos destrutivos dos terramotos.
A investigação, publicada a 21 de maio na revista científica Scientific Reports, concluiu que a pirâmide oscila de forma distinta do terreno à sua volta. Isso reduz a amplificação das ondas sísmicas e ajuda a explicar como o monumento se manteve estável ao longo de cerca de 4.600 anos.
Construída por volta de 2600 a.C. para servir de túmulo ao faraó Quéops, a Grande Pirâmide é a última das Sete Maravilhas do Mundo Antigo ainda de pé. Contém cerca de 2,3 milhões de blocos de pedra e terá demorado mais de duas décadas a ser construída.
Os quatro lados da pirâmide medem cada uma cerca de 230 metros na base e cobrem aproximadamente 5,3 hectares. Originalmente, a estrutura tinha cerca de 147 metros de altura, mas a erosão natural e a remoção, há séculos, das pedras lisas do revestimento exterior reduziram-na para cerca de 138,5 metros.
Resistiu a vários sismos destrutivos, incluindo um terramoto de magnitude estimada de 6,8 em 1847, na região de Fayum, a sul do Cairo, e outro de magnitude 5,9 em 1992, que fez cair algumas pedras do topo.
Frequências diferentes ajudam a proteger a estrutura
Para compreender a resistência sísmica da pirâmide, investigadores do Instituto Nacional de Investigação de Astronomia e Geofísica do Egito instalaram sensores de vibração em 37 pontos dentro e à volta do monumento.
Os cientistas recolheram dados sísmicos em várias passagens e câmaras interiores, incluindo a Câmara do Rei, bem como no leito rochoso e no solo circundante.
As medições mostraram que a pirâmide vibra entre cerca de 2 e 2,6 hertz, valores bastante superiores aos registados no solo próximo, que rondavam os 0,6 hertz.
Segundo os investigadores, esta diferença é crucial. Quando um edifício vibra à mesma frequência do solo durante um terramoto, os movimentos podem amplificar-se perigosamente. No caso da Grande Pirâmide, isso não acontece.
“Estes elementos, em conjunto, criam uma estrutura bem equilibrada e coerente”, afirmou o sismólogo Mohamed ElGabry, principal autor do estudo, à Reuters .
Câmaras internas ajudam a dissipar a energia sísmica
O estudo sugere ainda que certas características arquitetónicas da pirâmide ajudam a amortecer as vibrações.
Tal como acontece na maioria dos edifícios altos, as oscilações tornam-se mais intensas à medida que se sobe na estrutura. No entanto, os investigadores observaram uma redução inesperada desse efeito em cinco câmaras construídas acima da Câmara do Rei.
Estas estruturas, conhecidas como câmaras de alívio, foram provavelmente concebidas para distribuir o enorme peso da pedra acima da principal câmara funerária. Mas os investigadores acreditam agora que também ajudam a dissipar parte da energia sísmica.
“Isto sugere que estas câmaras ajudam efetivamente a dissipar a energia sísmica e a proteger a Câmara do Rei, uma das áreas mais críticas, de tremores excessivos”, explicou ElGabry.
Além destas câmaras, os investigadores destacam outros fatores que contribuem para a estabilidade do monumento, como a base maciça, a fundação de calcário sólido e a geometria simétrica da estrutura.
“O estudo destaca o extraordinário conhecimento prático de engenharia dos antigos construtores egípcios, que desenvolveram práticas de construção altamente eficazes através de séculos de experimentação e aperfeiçoamento”, afirmou o geocientista Asem Salama , do Instituto Nacional de Investigação de Astronomia e Geofísica do Cairo à Live Science .
“Uma obra de arte marcante e uma demonstração da visão humana”
Para ElGabry, a Grande Pirâmide continua a ser um exemplo extraordinário de engenharia e organização humana.
“A Grande Pirâmide não é apenas uma extraordinária conquista da engenharia, mas também uma obra de arte marcante e uma demonstração da visão humana. A sua simetria perfeita, escala monumental e proporções elegantes criam uma beleza intemporal que continua a inspirar admiração mesmo após 4.600 anos”.
O investigador destacou ainda a complexidade logística envolvida na construção do monumento.
“A construção de um monumento como este demorou aproximadamente 20 anos e exigiu uma cadeia logística extremamente complexa e a coordenação de dezenas de milhares de trabalhadores qualificados, engenheiros e administradores”, disse.
Segundo ElGabry, o projeto implicou garantir o abastecimento contínuo de alimentos, organizar mão-de-obra especializada e transportar enormes quantidades de pedra.
“Lembra-nos do que a civilização humana é capaz quando a visão, a ciência, a organização e a determinação se unem”, concluiu.
Os investigadores planeiam agora realizar novas medições na Grande Pirâmide e aplicar métodos semelhantes a outros sítios arqueológicos egípcios. Segundo os autores, embora outras pirâmides de Gizé possam beneficiar das mesmas características estruturais, cada monumento terá soluções arquitetónicas próprias, desenvolvidas ao longo da evolução da engenharia do antigo Egito.






