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O relato de uma vítima da Esquadra do Rato: «Era menos do que um ser humano»

O relato de Youssef — nome fictício usado para proteger a sua identidade — deixa claro o horror do que se passou na Esquadra do Rato, em Lisboa, onde foram registadas agressões contra imigrantes e pessoas em situação de sem-abrigo. O caso está atualmente em tribunal, e as palavras desta vítima são profundamente inquietantes: «Senti que nunca mais ia sair dali […], que podia até ser morto ali dentro.»
Youssef, uma das pessoas agredidas por agentes da Polícia de Segurança Pública (PSP) envolvidos neste processo, falou publicamente no podcast do projeto Fumaça, onde descreveu todos os pormenores do que viveu. Contou que, numa das ocasiões, ele e mais duas pessoas foram colocados num banco, algemados a ele, e começaram a ser agredidos com joelhadas e pancadas com as mãos. «Um dos agentes usava luvas de boxe para nos bater. E continuaram assim durante uma hora ou mais», recordou.
Há indicações de que esse momento de violência terá sido gravado em vídeo, sendo possível identificar, nas imagens, pelo menos um dos agentes a agredi-lo. No entanto, segundo o Fumaça, o Ministério Público tem suspeitas de que, na realidade, Youssef foi alvo de agressões por parte de seis agentes diferentes. As violências incluíram chapadas, murros na cabeça e socos em todo o corpo.
«Senti que nunca mais ia sair dali, que ia ser deportado, que ia perder tudo o que tinha e que podia mesmo morrer ali dentro. E achei que nada do que me acontecesse iria ter consequências — porque, sendo negro, imigrante e com a minha religião, senti que não tinha qualquer valor para ninguém», afirmou. A dada altura, acrescentou: «Podia acontecer-me qualquer coisa, e ninguém se importaria. Eu era menos do que um ser humano.»
Na altura, só tinha as pernas livres, pois o resto do corpo estava preso com algemas. Tentou usá-las para se proteger, mas sem sucesso: «Sempre que eu as levantava para me defender, um deles vinha e baixava-me as pernas, para dar espaço a outro agente me bater na cara.»
Youssef contou ainda que os agentes lhe roubaram os seus bens antes de o levarem para o Campus da Justiça, em Lisboa. «O que me aconteceu marcou-me para sempre. É uma experiência com que lido até hoje — foi algo muito duro e profundamente traumatizante», sublinhou.
Para além do sofrimento próprio, o que ouviu contar a outras vítimas também o chocou profundamente. «É inacreditável a quantidade de ódio, de humilhação e de tortura que existiu ali. Fizeram coisas terríveis às pessoas, muitas das quais viviam na rua. Os agentes sabiam muito bem que essas pessoas não teriam condições para reagir ou defender-se», explicou.
Na sua opinião, os autores das agressões agiram assim porque tinham a certeza de que iriam sair impunes. E deixa um aviso: este caso não pode ficar-se por simples declarações ou partilha de informação. «Não basta falar e seguir com a vida. As vítimas têm direito a ser indemnizadas, e os agressores têm de ser condenados a pena de prisão», defende.
As primeiras denúncias sobre o que se passava na Esquadra do Rato remontam a 2024, e ao longo deste ano foram feitas novas detenções no âmbito da investigação.
O caso ganhou também repercussão internacional: as acusações de tortura e de violação dos direitos humanos contra pessoas vulneráveis — como estrangeiros, pessoas em situação de sem-abrigo e utilizadores de substâncias — já levaram à detenção de 24 agentes e são apresentadas lá fora como um verdadeiro «escândalo policial», que choca não só Portugal, mas toda a comunidade internacional.
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