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“Já não precisam de nos procurar no Google”. Os “tubarões azuis” jogam em casa na Flórida

Funaná, Cachupa, tubarões e muitas mensagens em crioulo. O Esplanade Park de Fort Lauderdale vibrou com a festa de cabo-verdianos em véspera do jogo frente ao Uruguai. “Agora já estamos no mapa”.

A Flórida é de longe o Estado norte-americano com mais ataques de tubarões. São 828 desde que se começaram a fazer registos, refere o Florida Museum. Este número é superior aos ataques registados em todos os outros estados do país. Este fim de semana, na Flórida, há um novo ataque de tubarões. Não são sangrentos. Comem cachupa. São animados e dançam funaná. Vestem de azul e falam criolo. Cabo Verde joga em casa na Flórida, é o novo lar dos “tubarões azuis”.

Este Domingo a seleção de Cabo Verde joga frente ao Uruguai no Hard Rock Stadium, em Miami. Será o 2º jogo da história desta equipa africana em campeonatos do mundo. É até agora uma seleção imbatível. No primeiro jogo, conseguiu resistir frente aos campeões da Europa, a Espanha – empate a 0, com o guarda-redes Vozinha a ser herói ao conseguir 7 defesas. A equipa celeste é mais um desafio para os africanos, mas entre os adeptos transborda a confiança

 

O Esplanade Park, em Fort Lauderdale, a cerca de 20 minutos do Hard Rock Stadium, transformou-se este sábado numa pequena cidade da Praia. Centenas de pessoas festejaram a cultura cabo-verdiana e nem a chuva torrencial travou o ritmo africano.

 

Uma Cachupa “ten out of ten”, a música para a vitória e Vozinha Goat

“Tínhamos que aproveitar esta oportunidade única para juntar os cabo-verdianos” diz Sócrates Carvalho, nascido em Cabo Verde, imigrante nos EUA. Há 7 anos que vive em Boston, mas assim que soube em que cidades iriam jogar os “tubarões azuis” falou com alguns amigos de Miami para organizar um evento para todos os adeptos desta seleção. “Inscreveram-se mais de duas mil pessoas. É um orgulho para nós. O nosso objetivo era esse mesmo, mostrar a cultura perante a oportunidade que nos deu o futebol. Queremos mostrar a nossa cultura, a nossa música, a nossa Cachupa e a nossa gente linda.”

Sócrates Carvalho é primo de Sidny Cabral e garante ao Observador que a equipa de Cabo Verde está preparada para voltar a surpreender neste mundial: “Tenho estado com eles, estão descontraídos, sentem o apoio e estão confiantes. Não estão aqui só para participar, vieram para jogar”. 

 

 Sócrates Carvalho (ao centro) e os “Timas Brothers” – Organizadores da festa em Fort Lauderdale

É de Cachupa na mão que Sócrates fala ao Observador, uma dose servida numa travessa de plástico que comprou uns metros ao lado na banca de Jaira. “É somente 20 dólares. Temos Cachupa rica e temos Djagacida também”. Há fila para comprar o sabor da ilha africana e quem prova garante que sabe a casa. “Fazemos com tudo o que é preciso, milho, feijão, fava, carne. Cachupa rica leva tudo. Está bom demais! É um ten out of ten”

Nesta festa do Esplanade Park há também bancas com brindes – camisolas, chapéus e cachecóis. Há produtos regionais. Vendem-se camisolas oficiais da seleção nacional e promove-se o turismo de Cabo Verde. Cerveja também não falta. No relvado deste parque, as crianças correm e jogam à bola. No palco, uma banda e um DJ para que não faltem os ritmos africanos.

 DJ Larry Love

Miguel Cordeiro/Observador

“Festa sempre sabi” diz o DJ Larry Love ao microfone do Observador. Vestido com a camisola de treino da seleção dos “tubarões azuis” enquanto mistura as batidas que animam a festa confessa que já escolheu a música que vai passar quando a seleção vencer um jogo: “Hoje é pa pila” — uma expressão em criolo que remete para uma festa sem limites e que serve de refrão na canção de MC Acondize.

“Agora já sabem. Agora já vão encontrar no mapa! E há mapas que não tinham Cabo Verde e agora já vão por”.
Moacir Timas. Imigrante cabo-verdiano em Miami e um dos organizadores da festa em Fort Lauderdale

Camisolas de Vozinha não faltam. É o novo herói nacional depois de ter sido o melhor em campo no jogo frente à Espanha. Jeff, nasceu nos Estados Unidos, mas é filho de cabo-verdianos. Veste o equipamento do guarda-redes e fala com o Observador em inglês: “Vozinha is the Goat”. Viajou de Boston para assitir ao jogo frente ao Uruguai e está confiante numa vitória.

 

“Já não precisam de procurar no Google para nos encontrarem.”

Quem já se perdeu nos confins das redes sociais certamente se cruzou com vídeos de norte-americanos a tentar identificar países no mapa. Cabo Verde, seria certamente um dos mais difíceis de apontar. Moacir Timas, imigrante há décadas em Miami, confirma ao Observador que sempre que apresentava a sua origem a um norte-americano ouvia a pergunta: “Onde fica Cabo Verde?”. Agora, com este Mundial, garante que o cenário mudou: “Agora já sabem. Agora já vão encontrar no mapa! E há mapas que não tinham Cabo Verde e agora já vão por”. Moacir aponta para a diáspora deste país africano e do orgulho que tem na comunidade: “Somos um povo pequeno com presença global. Temos um coração maior que um continente. Temos ambição e resiliência.”

“Lembro-me do meu pai, que não está aqui. Lembro-me do meu irmão que jogou futebol e que também já não está aqui. Estou muito emocionada. Estou a festejar também por eles.”
Vera Esdale. Imigrante cabo-verdiana nos EUA

Do outro lado do Esplanade Park, Dave Esdale confirma as palavras de Moacir. Dave é norte-americano e casou com Vera, cabo-verdiana. “Casámos há 35 anos. Abracei esta cultura. Sou um cabo-verdiano adotivo”. Vestido com uma camisola azul com a taça do Mundial ao centro, Dave diz que os “tubarões azuis” vão conseguir “outra vitória”. “O empate foi uma vitória e agora vamos conseguir mais uma”.

Vera Esdale, esposa de Dave, avisa que fala pouco de português, mas não esconde o orgulho no seu povo. “Tinha 10 anos quando vim para aqui em 1975. Gosto de viver aqui e temos aqui um clube de cabo-verdianos. Temos uma cultura muito bonita. É um sentimento muito especial ter a nossa equipa aqui. Estou emocionada.” Vera recorda a família que não pode viver este momento: “Lembro-me do meu pai, que não está aqui. Lembro-me do meu irmão que jogou futebol e que também já não está aqui. Estou muito emocionada. Estou a festejar também por eles.”

Sentada a admir a festa, Cátia Fernandes escuta as perguntas do Observador em português, mas responde em inglês. “É awesome!” diz sorridente, “estou tão contente pelo que a equipa tem de fazer. O Vozinha é uma estrela e já ninguém tem de ir ao Google para nos encontrar!”

 

  • Adrian Évora, cabo-verdiano
  • José Pinto, imigrante cabo-verdiano
  • Camisolas de Cabo Verde à venda
  • Dave Esdale e Vera Esdale

O orgulho de ser tubarão

“Nos ki ta manda” grita Adrian Évora enquanto dança e levanta um enorme símbolo da Federação Cabo-verdiana de Futebol que tem ao pescoço, preso por uma grande corrente dourada. “É o nosso World Cup Trophy”. “Nascido e criado com orgulho” em Cabo Verde, Adrian diz que a festa de Fort Lauderdale é uma maravilha e para os jogadores deixa uma mensagem: “Nós acreditamos em vocês!”

 

Entre uma multidão que dança em frente ao palco, uma tubarão serve de mascote. Salta, chama pessoas para a festa e agita bandeiras para as câmaras. José Pinto é um dos que se abraça à mascote. Tem outro tubarão nas mãos e ainda tem um no chapéu. “Tou aqui nos EUA há 26 anos e estamos aqui para dar aquele apoio a Cabo Verde”. Depois da curta conversa com o Observador tira rapidamente o telemóvel do bolso para mostrar uma foto do jogo frente à Espanha. “Tinha um tubarão enorme nas mãos, vê! Ando sempre com ele no carro e levo-o para o estádio. E ainda tenho mais uns pequenos. Estão sempre comigo”.

“É uma alegria enorme. É muito bonito. É uma coisa impensável. Está Cabo Verde aqui nesta praça pequenina.” diz Jorge Teixeira, imigrante nos EUA há quase 30 anos. Vê a festa ao longe com uma lágrima no canto do olho. Agradece à seleção e não esconde orgulho naquilo que se tornou possível durante este Mundial. Para o jogadores deixa um pedido: “Agora que estamos aqui queremos passar para a próxima fase”.

Redação com o bservador.pt