Search
Close this search box.

190 mil milhões: burlas por mensagens atingem escala global e pressionam famílias em Portugal

Falsas encomendas, investimentos fraudulentos e esquemas românticos lideram as fraudes digitais no país. Investigação da Kaspersky revela impacto económico crescente e subnotificado. Porém, os dados disponíveis indicam que as vítimas portuguesas perdem, em média, cerca de 750 euros. Para quase um quinto dos inquiridos, os prejuízos ultrapassam os 1.120 euros.

 

As burlas através de aplicações de mensagens estão a transformar-se numa das maiores ameaças económicas silenciosas da atualidade, com impacto crescente em Portugal. Um novo estudo internacional da Kaspersky, divulgado esta terça-feira, aponta para perdas globais superiores a 190 mil milhões de euros, revelando uma realidade que ultrapassa largamente a perceção de “fraude do dia a dia”.

“Individualmente, estas perdas podem parecer reduzidas, mas, à escala global, são devastadoras. Com cerca de 3 mil milhões de utilizadores de aplicações de mensagens em todo o mundo, se apenas 10% forem afetados — uma estimativa conservadora, tendo em conta o rápido crescimento das burlas entre plataformas — as perdas globais poderão chegar aos 190 mil milhões de euros. Trata-se de um impacto económico equivalente ao colapso financeiro de um país de média dimensão”, dizem em comunicado.

Em território nacional, os esquemas mais frequentes passam por falsas entregas de encomendas (41,2%), oportunidades de investimento fraudulentas (36,65%) e esquemas românticos (29,08%). Estas abordagens são cada vez mais sofisticadas, imitando comunicações legítimas e explorando hábitos digitais quotidianos para induzir as vítimas em erro.

Segundo o relatório, os burlões recorrem a técnicas que combinam familiaridade, urgência e confiança, levando os utilizadores a agir antes de questionarem a veracidade das mensagens. O resultado traduz-se não apenas em perdas financeiras, mas também em impactos psicológicos significativos.

Um fenómeno com escala macroeconómica

Embora muitas das perdas individuais possam parecer relativamente reduzidas, o seu efeito agregado revela uma dimensão preocupante. Com cerca de três mil milhões de utilizadores de aplicações de mensagens em todo o mundo, mesmo uma taxa de incidência conservadora pode gerar prejuízos equivalentes ao colapso financeiro de um país de média dimensão.

Em Portugal, a situação é agravada pela subnotificação. Apenas cerca de 22% das vítimas reportam os casos às autoridades e pouco mais de 13% informam os bancos, deixando uma larga fatia destas ocorrências fora das estatísticas oficiais.

Ainda assim, os dados disponíveis indicam que as vítimas portuguesas perdem, em média, cerca de 750 euros. Para quase um quinto dos inquiridos, os prejuízos ultrapassam os 1.120 euros, num contexto já marcado pelo aumento do custo de vida e pela pressão financeira sobre as famílias.

Fraude repetida e industrializada

O estudo revela também uma mudança estrutural no perfil destas burlas. Mais de metade dos casos registados ocorreram nos últimos cinco meses e cerca de 28% dos inquiridos afirmam ter sido alvo de tentativas de fraude três ou mais vezes.

Esta recorrência aponta para um modelo de crime cada vez mais organizado e industrializado, em que redes estruturadas operam em escala, explorando vulnerabilidades económicas e comportamentais.

A linguista forense e criminologista Elisabeth Carter sublinha que estes esquemas funcionam através da construção de “realidades falsas”, onde as decisões das vítimas parecem racionais no momento em que são tomadas. “É extremamente difícil identificar uma fraude quando estamos imersos no contexto criado pelo burlão”, alerta.

Millennials entre os mais vulneráveis

Contrariando a ideia de que estas burlas afetam sobretudo populações mais idosas, o estudo revela uma distribuição equilibrada entre diferentes faixas etárias. Ainda assim, os Millennials destacam-se como o grupo mais suscetível a esquemas relacionados com investimentos e oportunidades financeiras.

A explicação reside, em parte, no contexto económico que esta geração enfrenta, marcado por dificuldades no acesso à habitação e menor estabilidade financeira. Promessas de ganhos rápidos ou oportunidades aparentemente vantajosas tornam-se, por isso, particularmente apelativas.

Uma questão de segurança económica

Para além da dimensão tecnológica, os especialistas alertam que o fenómeno deve ser encarado como uma questão de segurança económica. As burlas digitais representam um “dreno silencioso” dos rendimentos familiares, comprometendo a estabilidade financeira e a confiança nos sistemas digitais.

Perante este cenário, a Kaspersky defende uma resposta articulada que combine maior literacia digital, investimento em ferramentas de segurança e uma vigilância mais ativa por parte de utilizadores e empresas.

Entre as principais recomendações estão a verificação de mensagens através de canais oficiais, o uso de soluções de proteção contra phishing e a adoção de práticas mais seguras na gestão de palavras-passe.

Num contexto de crescente instabilidade económica e digitalização acelerada, a ameaça das burlas por mensagens parece estar longe de abrandar. Pelo contrário, tudo indica que continuará a evoluir — e a testar a capacidade de resposta de indivíduos, empresas e autoridades.