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As árvores conseguem reduzir a temperatura das cidades durante uma onda de calor?

Em cada nova onda de calor, as árvores voltam a ser apontadas como uma das melhores defesas contra as altas temperaturas nas cidades. Mas até que ponto conseguem realmente arrefecer o ambiente? A resposta da ciência vai além da simples sombra projetada pelas copas.
sapo.pt

No capítulo dedicado às cidades do relatório Climate Change 2022: Impacts, Adaptation and Vulnerability, editado pelo Painel Intergovernamental sobre Alterações Climáticas (IPCC), o organismo científico das Nações Unidas que sintetiza o conhecimento climático global, as áreas verdes urbanas são identificadas como uma das principais estratégias de adaptação ao calor extremo. O documento sublinha que “parques, árvores e outras soluções baseadas na natureza reduzem a exposição das populações ao calor e aumentam a resiliência das cidades perante temperaturas extremas”.

Mas como conseguem as árvores arrefecer uma cidade? Ao contrário do que muitas vezes se pensa, o efeito vai muito além da simples sombra. Os cientistas identificam três mecanismos principais. O primeiro consiste precisamente na redução da radiação solar direta sobre pessoas, edifícios e pavimentos. O segundo resulta da evapotranspiração, processo através do qual as árvores libertam vapor de água para a atmosfera, consumindo energia sob a forma de calor e contribuindo para arrefecer o ar envolvente. O terceiro prende-se com a diminuição da quantidade de calor absorvida pelas superfícies urbanas, como o asfalto ou o betão, materiais que podem atingir temperaturas muito elevadas durante os dias mais quentes.

Esta explicação é confirmada por uma revisão sistemática publicada em 2024 na revista científica The Innovation, que analisou mais de duas centenas de estudos sobre soluções de adaptação ao sobreaquecimento urbano para chegar à conclusão que a infraestrutura verde e azul constitui uma das formas mais eficazes de reduzir as temperaturas nas cidades. Os autores referem que parques urbanos, árvores de rua e outras soluções naturais apresentam um “elevado potencial para reduzir as temperaturas do ar durante o verão”, sobretudo quando integradas no planeamento urbano.

Ao contrário do que muitas vezes se pensa, o efeito das árvores na climatização das cidades vai muito além da simples sombra.

É todavia importante distinguir diferentes tipos de temperatura. Muitas notícias referem apenas a temperatura do ar, mas esta é apenas um dos fatores que determinam o desconforto térmico. A ciência utiliza também conceitos como temperatura radiante média, relacionada com a quantidade de radiação térmica que incide sobre o corpo humano, e temperatura das superfícies. É precisamente nestes dois parâmetros que as árvores revelam os efeitos mais expressivos. Ao protegerem pavimentos e edifícios da radiação solar direta, conseguem reduzir significativamente o aquecimento das superfícies, diminuindo simultaneamente a quantidade de calor libertada para o ambiente ao longo do dia e da noite.

Esta redução do calor urbano tem implicações diretas na saúde pública, como inferiu um estudo realizado por investigadores do Centro Comum de Investigação (JRC) da Comissão Europeia. Após analisar os dados de 93 cidades europeias concluiu-se que o aumento da cobertura arbórea poderia reduzir significativamente a mortalidade associada às ilhas de calor urbanas. Segundo os autores, as infraestruturas verdes urbanas “podem reduzir as temperaturas locais” contribuindo assim para “diminuir o número de mortes relacionadas com o calor extremo”.

Mas qual é, afinal, a dimensão deste efeito? A resposta varia consoante o clima, a densidade da vegetação, a disponibilidade de água, o tipo de árvores e a configuração urbana. Ainda assim, a literatura científica revela uma tendência consistente. Uma revisão sistemática publicada em 2010 na revista Landscape and Urban Planning e ainda hoje muito citada em trabalhos mais recentes sobre ilhas de calor urbanas, analisou dezenas de estudos realizados em diferentes cidades e concluiu que a arborização urbana reduz de forma consistente as temperaturas durante os períodos mais quentes. Os autores observaram que a vegetação urbana constitui uma medida eficaz para mitigar o efeito de ilha de calor, embora a magnitude do arrefecimento varie em função das características locais.

As diferenças tornam-se ainda mais evidentes quando se analisam as superfícies expostas ao sol. Um pavimento de asfalto ou betão pode atingir temperaturas superiores a 50 ou 60 °C durante uma onda de calor, enquanto uma superfície protegida pela copa de uma árvore permanece substancialmente mais fresca. Esta redução não melhora apenas o conforto dos peões: diminui igualmente o calor libertado pelos materiais urbanos durante a noite, contribuindo para atenuar o fenómeno conhecido como “ilha de calor urbana”, em que as cidades permanecem significativamente mais quentes do que as áreas rurais circundantes.

Árvores plantadas junto a edifícios reduzem a incidência direta da radiação solar nas fachadas e nas janelas, diminuindo o aquecimento interior das habitações.

A Agência Europeia do Ambiente (EEA), o organismo da União Europeia responsável pela monitorização do estado do ambiente europeu, identifica também as soluções baseadas na natureza como uma das formas mais eficazes de adaptação ao aumento das temperaturas. No relatório Urban adaptation in Europe, publicado em 2020, esta agência destaca que árvores, parques e corredores verdes reduzem o sobreaquecimento urbano, melhoram a qualidade do ar e diminuem os riscos para a saúde associados às ondas de calor. A EEA refere ainda que estas soluções proporcionam múltiplos benefícios simultâneos, contribuindo para cidades mais resilientes e habitáveis.

Importa, contudo, evitar uma ideia simplista. Plantar algumas árvores isoladas não transforma automaticamente uma cidade quente numa cidade fresca. O efeito depende da dimensão da copa, da continuidade das áreas verdes, da escolha das espécies, da disponibilidade de água e da forma como a vegetação é integrada no desenho urbano. Em ruas muito estreitas, por exemplo, uma arborização insuficiente terá um impacto limitado, enquanto parques urbanos bem dimensionados podem criar verdadeiras “ilhas de frescura” capazes de beneficiar bairros inteiros.

Também a localização faz diferença. As árvores plantadas junto a edifícios reduzem a incidência direta da radiação solar nas fachadas e nas janelas, diminuindo o aquecimento interior das habitações. Consequentemente, reduzem a necessidade de recorrer ao ar condicionado, um efeito já identificado em diversos estudos sobre eficiência energética em edifícios. Desta forma, a arborização urbana não contribui apenas para melhorar o conforto térmico no espaço público, mas pode também reduzir o consumo de energia e as emissões associadas ao arrefecimento artificial.

Outro benefício frequentemente menos valorizado prende-se com a saúde pública, pois a sombra das árvores reduz significativamente a exposição direta à radiação solar e diminui o risco de stress térmico, sobretudo entre populações de risco como os idosos, as crianças ou pessoas com doenças cardiovasculares ou respiratórias.

Outro benefício frequentemente menos valorizado prende-se com a saúde pública. Durante uma onda de calor, a redução da temperatura radiante média – isto é, do calor efetivamente sentido pelo corpo humano – pode ser mais importante do que uma pequena diminuição da temperatura do ar. A sombra das árvores reduz significativamente a exposição direta à radiação solar e diminui o risco de stress térmico, sobretudo entre idosos, crianças e pessoas com doenças cardiovasculares ou respiratórias. É precisamente por isso que o IPCC considera a expansão da infraestrutura verde uma das medidas prioritárias de adaptação às alterações climáticas nas áreas urbanas.

A ciência também demonstra que estes benefícios tendem a aumentar à medida que cresce a cobertura arbórea da cidade. O estudo do Centro Comum de Investigação da Comissão Europeia já citado anteriormente estimou que “aumentar a cobertura de árvores para 30% poderia evitar milhares de mortes prematuras relacionadas com o calor nas cidades europeias”. Segundo os autores, “uma maior arborização reduziria a exposição da população às temperaturas extremas e aumentaria a capacidade das cidades para enfrentar ondas de calor cada vez mais frequentes”.

Perante a evidência disponível, a afirmação de que “as árvores conseguem reduzir significativamente a temperatura das cidades durante uma onda de calor” deve ser considerada verdadeira. O consenso científico expresso pelo IPCC, pela Agência Europeia do Ambiente e por numerosas revisões académicas demonstra que a arborização urbana constitui uma das medidas mais eficazes para limitar o aquecimento das cidades.

E embora o efeito varie consoante o contexto de cada local e não elimine, por si só, os impactos das ondas de calor, as árvores reduzem a temperatura do ar, arrefecem as superfícies, diminuem o calor sentido pelas pessoas e contribuem para reduzir a necessidade de ar condicionado.

Ou seja, além de um belo elemento paisagístico, representam uma infraestrutura natural com benefícios mensuráveis para o clima urbano, a saúde pública e a eficiência energética.

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