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“A única alternativa”: Crise da habitação empurra famílias para parques de campismo

“A única alternativa”: Crise da habitação empurra famílias para parques de campismo

O Movimento Porta a Porta alerta que estes casos se multiplicam de Norte a Sul do país, refletindo uma realidade profunda que vai além da carência financeira: para muitas famílias, viver num parque de campismo tornou-se a única solução viável.

A crise na habitação não é recente, mas ganhou novo destaque mediático na sequência das sucessivas manifestações que têm percorrido o país. Há vários anos que famílias inteiras deixaram de conseguir suportar os custos de uma casa, encontrando nos parques de campismo uma alternativa — não para passar férias, mas para residir por períodos prolongados.

«Às vezes só pedem para ficar e poder tomar um banho. É triste, mas é a nossa realidade», desabafa uma funcionária de um parque de campismo na Caparica, referindo que recebe contactos diários de pessoas em busca de teto. Há quem questione até se é possível instalar uma tenda para contornar a incapacidade de pagar uma renda.

A procura tem aumentado, sobretudo no último ano. Embora os regulamentos proíbam a permanência contínua para fins habitacionais, subsistem situações antigas de residentes de longa data, a que se somam novos casos de quem tenta prolongar estadias temporárias perante a falta de opções.

«Há pessoas que trabalham e não conseguem pagar uma casa»

O cenário repete-se por todo o território nacional. No Algarve, o responsável por um parque de campismo confirmou à SIC Notícias o aumento de pessoas sem alternativa habitacional. «Há pessoas a trabalhar que não conseguem pagar uma casa», explica, apontando o peso de rendas «incomportáveis» para quem recebe salários mais baixos. A procura abrange diversos perfis sociais, com particular incidência na população ativa.

Mais ao Norte, num parque municipal na Penha, os preços mais acessíveis tornam o espaço num último recurso. Uma noite em tenda custa seis euros, aos quais acrescem a eletricidade e outros serviços. No total, a despesa mensal ronda os 300 euros.

Contudo, esta solução não é ao alcance de todos. O responsável recorda um casal desempregado que ali permaneceu no ano passado até deixar de conseguir suportar os custos. Com o encerramento sazonal da estrutura, em outubro, foi necessário solicitar a sua saída. «Não sei para onde foram», lamenta.

Quando a alternativa é abdicar de uma casa

André Escovar, do Movimento Porta a Porta, confirma a identificação de casos crescentes de habitação permanente em parques de campismo. Trata-se, sobretudo, de famílias que viram os seus contratos de arrendamento cessar sem encontrarem no mercado opções compatíveis com os seus rendimentos.

«Passaram a assumir este modo de vida como o único possível no quadro atual», refere o dirigente, sublinhando que não se tratam de pessoas sem trabalho. A maioria está no ativo, tem filhos e despesas familiares normais, procurando apenas reduzir os custos com o teto sem sacrificar a restante subsistência.

Da falta de espaço ao estigma social

A transição para este estilo de vida acarreta custos emocionais e sociais significativos. «Há o peso da própria afirmação social e do ambiente familiar, o impacto de ter de assumir que esta foi a solução possível», explica André Escovar.

À exiguidade do espaço e à falta de privacidade somam-se as dificuldades de mobilidade e a fraca rede de transportes públicos para os centros urbanos.

Para além dos parques, o movimento reporta situações ainda mais precárias, como famílias a residir em autocaravanas estacionadas na via pública — designadamente em parques de estacionamento na zona ribeirinha da Área Metropolitana de Lisboa.

«Arriscaria dizer que, se percorreremos hoje os parques de campismo de Norte a Sul do país, em qualquer um deles encontraremos situações destas», conclui o responsável.

Redação com SIC Notícias