Em “Travessias”, livro publicado pela Editorial Caminho, reúnem-se crónicas de Djamila Ribeiro escritas num período política e socialmente conturbado. É uma das principais vozes do feminismo negro contemporâneo no Brasil. “Existe um risco real de transformar a sobrevivência em destino. Quando romantizamos a resistência, corremos o risco de naturalizar a violência”. Com a CNN Portugal, a pensadora brasileira reflete sobre as relações coloniais dos dois lados do Atlântico. “Portugal e Brasil não resolvem os seus fantasmas. A descolonização do pensamento é um processo inacabado e muito longe de estar resolvido”. E sobre a necessidade de, numa América Latina em transformação, o Brasil ter de “reaprender a olhar para o lado”: uma nova geração da família Bolsonaro poderá vir a provar que as ondas progressistas são, afinal, “marolas” que “vêm passageiras”
Na relação entre Portugal e Brasil já conseguimos descolonizar o nosso pensamento? Ou estamos muito longe de cicatrizar essas feridas?
Grada Kilomba, artista e intelectual de múltiplos talentos [reconhecida pelo seu trabalho sobre racismo, colonialismo, memória e trauma], é incontornável na minha trajetória intelectual – dedico-lhe, inclusive, este livro [“Travessias”]. A sua pergunta lembrou-me de uma exposição dela que fazia uma releitura de mitos gregos, na Bienal de Berlim em 2019. Nessa exposição, chamada “Illusions”, Kilomba reflete sobre os fantasmas, esses espíritos errantes que ficam presos assombrando as pessoas, com histórias mal resolvidas. Para ela, o racismo, o patriarcado, a colonização são como fantasmas.
Nesse sentido, respondendo à pergunta, a descolonização do pensamento é um processo inacabado e muito longe de estar resolvido. Exige revisão de narrativas históricas, redistribuição de poder e disposição para reconhecer privilégios herdados. Quando há dificuldade em olhar criticamente para o passado colonial, o que vemos não é apenas desconhecimento, mas também resistência em abrir mão de versões confortáveis da história. Ao resistir, Portugal e Brasil não resolvem seus fantasmas, que estão por aí, a assombrar-nos.
Temos visto a língua portuguesa celebrada como ponte cultural, mas pode a língua, pelo contrário, ser instrumento de apagamento em relação à história conjunta?
A língua pode ser ponte, mas também arquivo de violência. Enquanto conecta pessoas, também traz silenciamentos, hierarquias e define quem teve direito à voz e quem foi historicamente calado. Celebrar a língua sem falar dessas desigualdades produz uma memória confortável, mas incompleta.
Lélia Gonzalez [intelectual e ativista brasileira, reconhecida como voz no feminismo negro e nos estudos sobre raça, género e classe] ajuda-nos muito a entender isso quando fala do ‘pretuguês’, reconhecendo as marcas africanas que moldaram o português do Brasil.
Chama de neurose o facto de a sociedade considerar “erro” justamente aquilo que marca a própria língua falada no Brasil. Se formos olhar para os povos indígenas no Brasil, com mais de 300 idiomas diferentes, com profunda influência no vocabulário e pronúncia do português brasileiro, complexificamos ainda mais a reflexão.
Quando olhamos para as diferenças entre o português de Portugal e do Brasil, não estamos apenas diante de sotaques distintos, mas de histórias marcadas por escravidão, deslocamentos forçados e disputas de poder. Existem razões profundas para essas distâncias – e nem sempre são fáceis de admitir.
É mesmo possível uma reparação histórica? Ou é um ideal sonhado, mas inatingível?
Sim, é possível. E é horizonte de ativistas negros e negras ao longo da história.
No Brasil, temos diferentes experiências, que nasceram da luta histórica dos movimentos negros e que produziram impactos reais no acesso a direitos, políticas públicas e oportunidade. Um exemplo importante são as reivindicações de quilombas e indígenas pela demarcação de seus territórios.
Quilombas são as comunidades formadas ainda no período escravista por negros e negras, na sua maioria, que fugiam do engenho. Há décadas que a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Rurais Quilombolas é responsável por levar exigências dessa população ao poder público. Trata-se de um processo longo, cheio de disputas, mas que tem gerado conquistas significativas e, ao mesmo tempo, fortalecido a resistência contra retrocessos.
A imigração brasileira tem sido uma constante em Portugal nos últimos anos, permitindo traçar novas perspetivas sobre o passado. Ainda assim, multiplicam-se as críticas de racismo e xenofobia. Como vê essa dualidade?
A migração produz encontro, mas também revela tensões. A presença brasileira contemporânea desafia mitos de harmonia e cordialidade que, muitas vezes, ocultaram desigualdades raciais profundas. Convivência real exige enfrentar conflitos, não negá-los.
O racismo no Brasil costuma estar associado à violência policial e às desigualdades económicas. Em Portugal, expressa-se também em aspetos mais subtis. O racismo europeu é mais sofisticado? Ou menos assumido?
Intelectuais e ativistas em Portugal estarão em melhor posição para explicar como é o racismo no país. De fora, estando no país apenas em trabalho para eventos literários e férias, tenho uma perspetiva limitada, de um lado, e enriquecida de outro, sobretudo pelo contacto com intelectuais negros e negras da lusofonia africana.
No Brasil, país sobre o qual falo com maior conhecimento, intelectuais como Kabengele Munanga, Alzira Rufino ou Zélia Amador de Deus, entre muitos outros, refletiram muito sobre o mito da democracia racial, que é justamente a crença imposta de que no país haveria a harmonia entre as raças.
Como afirma Munanga, o racismo à brasileira não é melhor, nem pior que outros sistemas racistas, tendo suas próprias características, como, por exemplo, o seu funcionamento pela negação. Uma pesquisa clássica feita em 1995 pelo jornal Folha de S. Paulo, onde sou colunista, trouxe um dado interessante: 89% dos brasileiros afirmaram existir preconceito de cor contra negros no Brasil, mas só 10% admitiram ter preconceito. Isso parece-me um racismo pouco assumido.
Assumido ou não, o racismo como sistema de exclusão produz efeitos materiais, concretos, que, no quotidiano, é refletido na cor da maioria das pessoas desempregadas, encarceradas, em situação de vulnerabilidade social em geral. No Brasil, a cada dez anos é feito um censo onde se pergunta a raça. Logo, há uma farta documentação de pesquisas e políticas públicas que identificam realidades atravessadas pela raça. Em Portugal, uma pesquisa censitária poderia sugerir algo similar.
A América Latina está a viver uma fase de profunda transformação. De que modo é que o Brasil pode ser atingido por este momento particular?
A América Latina é grande e diversa demais para caber numa resposta simples. Independentemente do recorte que façamos, penso que é fundamental o Brasil rever práticas que, muitas vezes, reproduzem um tipo de imperialismo que ele próprio costuma criticar.
Dou um exemplo. Perguntou-me sobre diferenças entre Portugal e o Brasil na forma como enfrentam o racismo. Mesmo com conhecimento limitado da realidade portuguesa, houve algo que me chamou a atenção: o vínculo mais presente com países africanos como Angola, Cabo Verde e Moçambique. Estive em Portugal durante as comemorações dos 50 anos da independência moçambicana. Vi uma cobertura intensa, debates públicos, memória vida. No Brasil, praticamente, não houve registo.
Essa ignorância sobre a realidade africana dialoga com a forma como o país também se relaciona com os seus vizinhos. Pouco se fala de Bolívia, Equador, Peru, Chile ou Paraguai. Ao mesmo tempo, o noticiário continua amplamente orientado pelo que acontece nos Estados Unidos ou na Europa.
Quando falamos de transformações latino-americanas, o primeiro movimento talvez seja o Brasil reaprender a olhar ao lado, reconhecer pertenças e assumir que integração regional também é responsabilidade política.
O Brasil aprendeu a sua lição sobre os perigos da extrema-direita com Jair Bolsonaro? Ou sente que há margem para cair numa nova onda extremista?
O livro “Travessias” é resultado de uma seleção, do meu editor Zeferino Coelho, de textos publicados na minha coluna na Folha de S. Paulo entre 2019 e 2021. Nessa época, [Jair] Bolsonaro estava no poder. O Brasil atravessou uma pandemia debaixo do espetro da desinformação e da anticiência.
A representação nacional no exterior era um constrangimento, as verbas para as universidades públicas sofriam sucessivos cortes e as políticas para mulheres e direitos humanos eram apenas aparentes. Entre muitos outros problemas económicos de desregulação. O inconformismo que vivia naquele momento está muito marcado nos textos.
Hoje, Bolsonaro não pode ser eleito e o seu filho mais velho [Flávio Bolsonaro] é pré-candidato à presidência, figurando na segunda posição, próximo de Lula da Silva, atual presidente. Sendo assim, caso venha, de facto, a candidatar-se, é esperado que receba dezenas de milhões de votos, podendo, inclusive, ser eleito. Está tudo em aberto.
Pessoalmente, não acredito numa “onda extremista”, pois entendo que o Brasil é construído por cima de sangue negro e indígena. Foram quase quatro séculos de escravidão, acompanhados de uma abolição sem qualquer inclusão social. É um país dominado pelas elites rurais desde sempre. Pelo contrário, aliás, acredito que só podemos falar em “marolas” [pequenas ondas] progressistas, que vêm passageiras, entre uma estrutura branca, masculina, plutocrata.
E nesse contexto de ascensão de movimentos extremistas e conservadores, onde fica o corpo da mulher? Será sempre um corpo político?
Os dados de feminicídio no Brasil revelam uma crise gravíssima e prolongada. Num curto espaço de tempo, o país acompanhou, em sequência, crimes que nos deixaram em luto permanente. Ainda chorávamos a partida de Catarina Kasten, violentada sexualmente e morta enquanto caminhava por um trilho no sul do país, quando veio a público a imagem do corpo de Tainara Souza Santos, sendo arrastado vários quilómetros numa das vias mais movimentadas de São Paulo. Tainara não resistiu e morreu no dia de Natal. Pouco depois, Carolina Miranda da Silva foi assassinada com facadas, em plena luz do dia, por um ex-companheiro que já estava judicialmente proibido de se aproximar. Isto mostra que não falamos de casos isolados, mas de um padrão estrutural.
O que observo há muito tempo – e que aparece de forma forte no meu livro – é que a violência contra as mulheres se tornou uma espécie de pandemia contínua. Atravessa governos de distintas cores políticas, ainda que seja evidente que contextos extremistas alterem discursos públicos e o volume de recursos destinados às políticas de proteção.
Hoje, por exemplo, vemos setores reacionários a trabalhar intensamente para restringir as hipóteses de aborto legal, defendendo que vítimas de violação [estupro, no original] sejam obrigadas a levar adiante a gestação. Por mais que haja grupos a defender isto com uma bíblia debaixo do braço, obrigar mulheres e meninas a parir o filho do violador parece-me diabólico.
Costumamos apontar as mulheres negras como símbolo de resistência. Mas não há o risco de romantizar a sua resiliência, de as “condenar” a esse papel?
Concordo completamente com essa preocupação. Existe um risco real de transformar a sobrevivência em destino. Muitas vezes, a imagem da mulher negra forte funciona como um conforto para a sociedade, porque desloca a atenção das responsabilidades do Estado e das estruturas que produzem vulnerabilidade. Aquilo que é chamado de força, na prática, nasce da ausência de proteção, de políticas públicas e de reconhecimento.
Há também uma componente simbólica importante: a expectativa de resiliência permanente pode tornar-se uma forma de desumanização. As mulheres negras não querem ser admiradas apenas por suportarem o insuportável. Querem viver com direito à fragilidade, ao cuidado, ao descanso e à alegria. Quando romantizamos a resistência, corremos o risco de naturalizar a violência que a tornou necessária.
O seu livro “Travessias” apresenta-se como um retrato deste tempo. Se estamos perante uma travessia, estamos a atravessar para onde? E quem fica para trás?
Este livro é uma travessia em muitos sentidos. Marca, inclusive, um movimento pouco comum no arranjo editorial entre Portugal e Brasil: trata-se de uma obra de uma autora brasileira publicada de forma inédita aqui, acompanhada de uma introdução que revisita o trabalho realizado e reflete sobre o período em que os textos foram publicados. As palavras atravessaram o oceano e chegaram na forma deste livro.
Mas penso também na travessia a partir das tradições de matriz africana que me constituem. No Candomblé, ela pode acontecer em forma de dança, saudando os orixás e relembrando histórias ancestrais. Essa dança é circular, chamada xirê: começa em Exu, termina em Oxalá e recomeça em Exu. Não é uma linha reta, nem precisa de um ponto final. E talvez essa seja uma imagem importante para o nosso tempo.
A travessia não é apenas sobre chegar. É sobre continuar em movimento, aprender com o caminho e decidir coletivamente quem pode dançar junto.
Nota do Editor: Esta entrevista foi adaptada para português de Portugal. A fotografia de capa é da autoria de Flavio Teperman, cedida pela Editorial Caminho
Com cnnportugal






