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Às escuras desde janeiro: “Só tenho o Nosso Senhor para me guiar”

O projeto Leiria Unida continua no terreno, de porta em porta pelas aldeias do concelho. Leva muito mais do que sacos com arroz, massa e conservas. Leva tempo. Leva escuta. Leva presença.

Na passada sexta-feira, a iniciativa — promovida pela associação Asteriscos em conjunto com os clubes Lobos de Leiria e ADCCMI — chegou a Monte Redondo, após uma semana intensa na União de Freguesias de Colmeias e Memória.

Ali, onde o silêncio pesa tanto quanto os estragos, os voluntários percorrem as ruas estreitas sem pressa. “Não é apenas entregar o cabaz e ir embora”, explica um dos elementos da equipa. “Às vezes, o que as pessoas mais precisam é que alguém lhes pergunte: ‘Está tudo bem?’”. E há quem esteja há dias — ou semanas — à espera dessa pergunta.

A luz que vem da fé

Entre as portas que se abriram em Monte Redondo estava a de Vítor Pinto, de 79 anos. A casa escapou aos maiores danos, mas a eletricidade continua instável. “Vai e vem… como quer”, conta, resignado.

Desde a noite de 28 de janeiro, o senhor Vítor tem contado com uma ajuda improvável: um pequeno crucifixo iluminado a pilhas, a que chama “Nosso Senhor”. É essa luz ténue que o guia quando a noite cai e a corrente falha.

“Ligo aquilo e pronto… sempre dá para ver qualquer coisa”, diz, apontando para a pequena imagem que tem sido a sua companhia constante.

A cena é simples — quase humilde — mas ilustra a realidade que ainda se vive em várias habitações: luz incerta, rotinas alteradas e o receio de ficar às escuras. Antes de partirem, os voluntários deixaram-lhe uma lanterna. Um gesto singelo, mas que transformou a noite daquele homem.

“Obrigadíssimo”, agradeceu Vítor, com a voz embargada, segurando o novo foco de luz como quem agarra uma garantia de tranquilidade.

Mais do que carência alimentar

O Leiria Unida tem distribuído kits de bens essenciais pelas aldeias afetadas, mas quem anda no terreno sabe que a maior carência nem sempre é material.

  • Apoio Psicológico: “Não são só os telhados que precisam de ser reparados”, confidencia uma voluntária. “Há muita solidão, muito medo acumulado.”

  • Proximidade: Em cada porta, a equipa demora-se. Pergunta se há luz, se há água, se falta medicação.

  • Escuta Ativa: Pergunta-se, acima de tudo, como se sente quem lá vive.

  • Redação