Collien Fernandes, atriz e apresentadora luso-descendente com carreira feita na Alemanha, descobriu que o agora ex-marido divulgou vídeos pornográficos feitos com recurso a Inteligência Artificial e enviou-os a outros homens. Agora, em entrevista à agência noticiosa AFP, a atriz afirma: “Pensar que alguém que dizia amar-me sentiu prazer com uma história em que eu chorava destruiu-me totalmente.”
“Eu só pensava: “Não posso deixar que ele escape impune”.” A frase é da atriz e apresentadora luso-descendente na Alemanha, Collien Fernandes, depois de ter descoberto e ter tornado público que os perfis falsos em seu nome que circulavam nas redes sociais com imagens e vídeos explícitos, de natureza pornográfica, feitos com recurso à inteligência artificial, tinham afinal partido, segundo a própria, do então marido. Fernandes diz mesmo que, com recurso à manipulação digital da voz dela, o agressor terá levado 30 homens a acreditarem que mantinham uma relação secreta online com ela, incluindo alguns do seu círculo profissional, adianta a agência noticiosa AFP. “Pensar que alguém que dizia amar-me sentiu prazer com uma história em que eu chorava destruiu-me totalmente”, revelou a atriz e apresentadora à AFP.
Na mesma conversa, Fernandes, de 44 anos, revela que inicialmente “hesitou” em apresentar queixa criminal contra o agora ex-companheiro, o também ator e apresentador de TV Christian Ulmen, 50, mas que o advogado a encorajou lembrando-lhe que o caso que estava a viver era comparável ao da francesa Gisèle Pelicot, mas no digital . Recorde-se que esta foi vítima de violência sexual durante anos exercida pelo marido, que a drogava severamente e convidava outros homens a violá-la, filmando todo o processo. Um caso que se tornou público porque Gisèle abriu as portas do julgamento para que “a vergonha mudasse de lado”, tornou-se símbolo global desta luta feminina e o agora ex-marido, Dominique Pelicot, cumpre pena de prisão após condenação.
A “força” demonstrada por Gisèle Pelicot deu a Collien Fernandes a coragem para recorrer à justiça, lutando em nome das vítimas de violência digital. Aliás, têm sido muitas as manifestações de apoio em cidades alemãs com milhares de mulheres que a acompanham nesta batalha e que lhe trazem também relatos, revelando que conheceu outras vítimas deste tipo de crimes e muitas desenvolveram “transtornos de stress pós-traumático”. Collien Frenandes revelou à AFP que, em matéria de recuperação pessoal, tem vindo a recorrer a “terapia intensiva”.
Revelado em finais de março, a apresentadora relatou o caso. “Durante mais de dez anos fui abusada virtualmente por meu próprio marido”, afirmando: “Ele oferecia-me a outros homens para ter relações sexuais. Durante anos procurei o responsável, inclusive num documentário, nunca suspeitei do meu marido”.
Collien Fernandes abordou a identidade do agressor numa entrevista em março e relatou que, no Natal, o então marido ter-lhe-á feito perguntas sobre uma primeira queixa que ela tinha sido apresentada e terá confessado que era ele quem estava por trás dos perfis falsos. Em dezembro de 2025, Collien Fernandes terá também apresentado queixa em Palma de Mallorca, Espanha.
Da denúncia às ameaças de morte
Os advogados de Ulmen avançaram com um processo contra a revista por ter dado “palco” às acusações da ex-mulher. “Christian Ulmen jamais produziu e/ou distribuiu vídeos deepfake da senhora Fernandes ou de qualquer outra pessoa. Quaisquer alegações nesse sentido são falsas”, reagiram os representes legais do também ator.
Na mensagem de Instagram, a atriz revelou que, apesar do apoio massivo que tem tido da parte do sociedade alemã e das entidades, vive atualmente com “sérias preocupações de segurança devido a ameaças de morte” contra ela. “É esta a vossa maneira, misóginos, de lidar com isso?”, indagou. “Como é que as mulheres poderão ter a coragem de se rebelar no futuro se essa é a vossa resposta – se se é silenciada assim? (…) E porque é que até agora só houve depoimentos meus e nenhum do autor do crime?” Revelou também que tem vindo a participar nas manifestações de condenação às deepfakes com um colete à prova de bala porque há “homens, e apenas homens, que querem me matar”, afirmou, citada pela agência noticiosa.
No final do mês de março, a AFP avançou que o Ministério Público alemão afirmou que estava a investigar o ex-marido, Christian Ulmen, de quem a atriz se divorciou por uma “suspeita inicial” baseada nos elementos apresentados pela atriz no artigo da revista Spiegel.
Questionado por uma deputada sobre o que pretendia fazer para proteger as mulheres da violência, o chefe de governo alemão, Friedrich Merz (conservador), evocou uma “explosão da violência na sociedade, tanto no espaço físico como no digital”. Mas causou grande polémica ao afirmar que uma “parte considerável desta violência procede das comunidades de imigrantes”, numa tentativa adicional de frear o avanço da extrema direita, com um discurso cada vez mais duro contra os migrantes. “Uma mentira populista escandalosa”, reagiu Lydia Dietrich, diretora da associação feminista Frauenhilfe München, durante o ato de apoio a Collien Fernandes na capital da Baviera.
Quase três crimes de extorsão sexual por dia, em Portugal
No ano passado, os crimes de extorsão sexual subiram 6,8% dentro do conjunto global das extorsões, que atingiram os 12,7%. Dados que constam do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) revelado na terça-feira, 31 de março.
Ao detalhe, o documento revela que em 2025 foram reportadas 1067 crimes de extorsão sexual, ou seja, quase três por dia. Em 2024 tinham sido rececionadas 999 queixas.
O relatório indica que existem casos de “extorsão após o envio inicial de imagens íntimas, bem como a exibição e circulação de pornografia de menores entre colegas e situações de violações entre pares, evidenciando um padrão de instrumentalização das tecnologias digitais”, lê-se. Nesse sentido, o “uso de plataformas, como Instagram, Facebook e WhatsApp, potencia a rápida disseminação dos conteúdos e dificulta a identificação dos autores, agravando o impacto nas vítimas, designadamente ao nível da exclusão escolar e do sofrimento psicológico”.
jn.pt






