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Autismo na idade adulta: os sinais que podem ter passado despercebidos durante anos

Muitas pessoas chegam à idade adulta com a sensação de que sempre foram “diferentes”, sem conseguirem perceber exatamente porquê. Algumas sentiram dificuldades em compreender regras sociais, outras viveram constantemente exaustas por tentarem adaptar-se aos outros, enquanto muitas aprenderam, desde cedo, a esconder comportamentos considerados invulgares. Para algumas, a resposta só surge muitos anos depois: autismo.

Durante décadas, acreditou-se que o autismo era uma condição identificada apenas na infância, o que levou milhares de adultos a nunca serem avaliados. Atualmente, sabe-se que o autismo acompanha a pessoa ao longo de toda a vida e pode manifestar-se de formas muito distintas, tornando o diagnóstico na idade adulta cada vez mais frequente.

Quem suspeita que pode ser autista deve olhar para o seu percurso de vida de forma global e não apenas para as dificuldades atuais. O autismo não se caracteriza por um único comportamento, mas por um conjunto de traços presentes desde a infância, ainda que só mais tarde façam sentido.

Entre os sinais mais comuns estão a dificuldade em compreender regras sociais implícitas, interpretar expressões faciais, perceber ironias ou duplos sentidos e um sentimento persistente de não pertencer, apesar do esforço para se integrar.

Também são frequentes interesses muito intensos por temas específicos, necessidade de manter rotinas previsíveis e desconforto perante mudanças inesperadas. A hipersensibilidade sensorial é outra característica comum, manifestando-se através de maior sensibilidade a ruídos, luzes, cheiros, texturas ou ambientes muito movimentados.

Outro aspeto frequentemente observado é a chamada camuflagem social. Muitos adultos autistas aprendem a observar e a imitar os comportamentos das outras pessoas para passarem despercebidos. Embora esta estratégia facilite, por vezes, a integração social, implica um elevado desgaste emocional e mental, podendo contribuir para ansiedade, exaustão e até burnout.

Importa sublinhar que nenhum destes sinais, isoladamente, significa que uma pessoa seja autista. No entanto, quando várias destas características se mantêm de forma consistente ao longo da vida, poderá ser aconselhável procurar uma avaliação especializada.

Entre as características frequentemente descritas por adultos autistas encontram-se:

  • dificuldade em iniciar ou manter conversas;
  • interesses restritos, mas vividos com grande intensidade;
  • sobrecarga em ambientes muito estimulantes;
  • preferência por locais calmos e previsíveis;
  • necessidade de recuperar energia após interações sociais;
  • dificuldade em criar ou manter amizades, apesar do desejo de estabelecer relações significativas;
  • sensação de ter passado grande parte da vida a tentar “parecer normal”.

Receber um diagnóstico de autismo na idade adulta não altera quem a pessoa é, mas pode representar um momento de grande alívio. Para muitos, significa finalmente compreender dificuldades antigas e deixar de se culpabilizar por características que sempre fizeram parte da sua forma de funcionar.

Além disso, o diagnóstico permite desenvolver estratégias mais eficazes para lidar com a ansiedade, a sobrecarga sensorial, a organização do quotidiano e as relações interpessoais. Também ajuda a reconhecer pontos fortes frequentemente associados ao autismo, como a atenção ao detalhe, a honestidade, a persistência, a criatividade e o conhecimento aprofundado em áreas de interesse.

Se se identifica com várias destas características, evite tirar conclusões precipitadas. Existem outras condições que podem apresentar sinais semelhantes, pelo que apenas uma avaliação clínica realizada por profissionais com experiência em autismo no adulto poderá confirmar ou excluir o diagnóstico.

Mais do que atribuir um rótulo, compreender o próprio funcionamento pode ser o primeiro passo para uma relação mais saudável consigo próprio, promovendo maior aceitação, menos culpa e estratégias adaptadas às necessidades individuais.

Esta temática é aprofundada no livro “Intervenção Psicológica com Pessoas Autistas Adultas”, publicado pela PACTOR Editora, uma obra dedicada à compreensão das necessidades, desafios e potencialidades das pessoas autistas na idade adulta.

Redação com JN.PT