Nas cidades, os sinais são conhecidos por todos: parapeitos, bancos, estátuas, automóveis e passeios frequentemente cobertos por fezes de pombos. Em alguns casos, até o cabelo de quem circula na rua não escapa. Apesar disso, especialistas alertam que o problema não é a existência das aves, mas sim a sua concentração excessiva.
Já foi demonstrado que os excrementos de pombo podem ter potencial como fertilizante — pelo menos em condições controladas e num caso muito específico: o tomate cherry.
Segundo o investigador Xabier Cabodevilla, da Universidade do País Basco, citado pelo ZAP, não faz sentido “criminalizar estas aves”, sendo antes necessário gerir a sua presença nas cidades.
Embora o risco sanitário não seja considerado extremo, os excrementos de pombo podem conter bactérias associadas a doenças gastrointestinais, como Salmonella, Listeria, Campylobacter ou Yersinia, além de fungos e parasitas. Crianças e pessoas com imunidade mais fragilizada são os grupos mais vulneráveis.
Existe ainda um problema estrutural importante: a composição das fezes.
Ao contrário dos mamíferos, as aves eliminam tudo pela mesma via — a cloaca. Isso faz com que os excrementos contenham compostos altamente ácidos, visíveis na parte branca da mistura, capazes de corroer materiais.
Essa acidez pode danificar pintura de automóveis, degradar pedra e metal e até acelerar o desgaste de património histórico.
Mas dá para transformar em fertilizante? À primeira vista, sim. As fezes de aves são utilizadas na agricultura há séculos, especialmente no caso do guano — um fertilizante natural rico em azoto, fósforo e potássio, historicamente tão valioso que chegou a estar ligado a conflitos no século XIX na América do Sul. No entanto, o caso dos pombos urbanos é mais complicado.
O principal obstáculo é a contaminação. Nas ruas, os excrementos misturam-se com pó, lixo, metais pesados e outros poluentes urbanos, tornando o material pouco seguro e difícil de aproveitar.
Além disso, como sublinha a mesma fonte, seria necessário concentrar grandes quantidades de resíduos em ambientes controlados — algo que iria contra as próprias medidas de controlo populacional destas aves nas cidades.
Apesar das limitações, já houve testes promissores.
Em 2012, em Paris, o designer Jean-Sébastien Poncet criou o projeto “Guano de Paris”, que propunha recolher excrementos de pombo em estruturas urbanas para produção de adubo.
Mais tarde, investigadores franceses confirmaram o potencial do material em contexto científico.
Num estudo publicado em 2023, plantas de tomate cherry cultivadas em Ivry-sur-Seine cresceram mais rapidamente e produziram mais flores quando fertilizadas com excrementos de pombo diluídos em água.
Segundo a mesma investigação, o guano foi previamente esterilizado a 121 ºC durante 20 minutos sob pressão, garantindo a eliminação de agentes patogénicos antes da aplicação nas plantas.
O cocó de pombo pode ter valor agrícola em condições laboratoriais muito específicas, mas o seu uso direto nas cidades continua a ser inviável devido a riscos sanitários e contaminação urbana.
Redação com NDC






