Os adolescentes são incentivados, no desafio viral do TikTok, a ingerir doses excessivas de paracetamol. Quem aguentar mais tempo até ser hospitalizado, ganha. A competição, que já se espalhou por vários países, é perigosa, pode causar lesões graves e pode mesmo ser fatal. Os alarmes já ‘soaram’ na Europa.
O “Paracetamol challenge”, Desafio do paracetamol em português, está a deixar médicos e autoridades de saúde em alerta. A competição, que está a atrair adolescentes de todo o mundo, leva à ingestão intencional de doses excessivas de paracetamol.
O desafio é perigoso e pode mesmo levar à morte. Surgiu e tornou-se viral nas redes sociais, sobretudo, no TikTok, entre crianças e jovens. Desafiam-se entre si a tomarem o máximo de comprimidos do medicamento – que é comumente utilizado para dor leve a moderada e febre – para compararem a capacidade de resistência. Quem aguentar mais tempo sem ir ao hospital é o vencedor.
A competição já é popular nos Estados Unidos da América, em vários países na Europa, como Espanha, França, Alemanha, Holanda, Bélgica e Suíça, e até na Argentina. Há relatos de adolescentes que ingeriram 10 gramas de uma só vez, que corresponde 20 comprimidos de 500 miligramas cada.
Nas últimas semanas, deram entrada no Hospital Materno-Infantil de Málaga vários adolescentes entre os 11 e 14 anos com sintomas de ingestão em grandes quantidades de paracetamol, de acordo com o jornal espanhol El País. A recuperação exigiu internamento de vários dias.
É um comprimido “extremamente acessível” na casa de qualquer pessoa e torna-se “nocivo” quando consumido em quantidades elevadas, destaca Francisco Goiana da Silva, médico e comentador da SIC, em entrevista à SIC Notícias.
“O paracetamol é uma droga , só que muito mais acessível do que outras”, alerta.
Em grandes quantidades, o analgésico pode provocar vómitos, dores abdominais, alterações no estado de consciência, transpiração, mal-estar geral sonolência excessiva, lesões irreversíveis no fígado e, em casos mais extremos, a morte. Os sintomas surgem, geralmente, nas primeiras 24 horas após a ingestão.
A quantidade máxima diária recomendada depende da idade e do peso da criança, mas esse valor é “muito fácil de atingir”. Por norma, é indicado 60 miligramas por cada quilo. Imaginando que pesa 30 quilos, seriam 1800 miligramas (divididos pelas 24 horas do dia).
Segundo a Ordem dos Farmacêuticos, a dose máxima diária para um adulto saudável é de quatro gramas. Os comprimidos (de 500 miligramas ou 1 grama) devem ser ingerido em intervalos de 4 a 6 horas.
Em caso de sobredosagem, deve ser procurado assistência médica com a “maior brevidade possível, mesmo na ausência de sintomas”. Isto porque “quanto mais rapidamente for iniciado o tratamento, maiores serão as probabilidades de recuperação”.
De quem é a responsabilidade? É preciso uma “regulação séria das redes sociais”
Francisco Goiana da Silva defende uma “regulação e limitação séria das redes sociais” a menores de idade e maior literacia nas escolas em relação aos perigos das plataformas digitais.
“As redes sociais estão a ser usadas para disseminar comportamentos lesivos à saúde e colocam a saúde das crianças e dos adolescentes em risco. É importante, de uma vez por todas, haver uma consciencialização por parte dos governos de que isto é uma realidade e de que é importante agir”, defende o médico.
Este é um “mero exemplo” de desafios entre menores que “apenas têm como objetivo provocar danos na saúde dos próprios e dos outros“, reforça Goiana da Silva, lembrando competições de automutilação que também se tornaram virais. De acordo com o médico, é precisamente por “situações como estas” que vários governos a nível internacional – como a Austrália – já limitaram o acesso às redes sociais a menores.
“As crianças são ensinadas pelos pais a não falem com estranhos na rua, mas falam com estranhos nas redes sociais e ninguém vê, nem se preocupa com isso. São ensinadas a não ouvirem conselhos de estranhos, mas nas redes sociais, sentados em casa, ouvem conselhos de estranhos e põe-nos em prática. São educadas a não pedir conselhos a outras crianças, que é exatamente o que acontece nestes desafios que colocam vidas em risco”, exemplifica Francisco Goiana da Silva.
As redes sociais dos menores “têm de ser supervisionadas” pelos pais, mas, na ótica do médico, há mais que pode ser feito.
“Isto é uma responsabilidade do Governo . Em nome da segurança das crianças portuguesas, tem de olhar para aquilo que outros governos já fizeram, proibindo o acesso a redes sociais, a menores de 16 anos. Esse é o caminho”, remata Francisco Goiana da Silva.






