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Emigraram para trabalhar, regressaram para investir: Jorge e Pedro fizeram carreira lá fora e apostam agora no seu país

Centenas de empresários, com histórias semelhantes às de Jorge e Pedro, reúnem-se esta quarta e quinta-feira num encontro organizado pelo Governo, que promete criar parcerias e oportunidades de negócio entre empresas, territórios e comunidades portuguesas no estrangeiro

Durante décadas, Portugal habituou-se a olhar para a emigração como perda: talento que saía, jovens que partiam, quadros qualificados que procuravam no estrangeiro aquilo que o país não lhes conseguia oferecer. Hoje, parte dessa história escreve-se ao contrário. Há empresários portugueses que construíram carreiras e empresas fora de portas, consolidaram negócios em mercados internacionais e regressam agora com capital, experiência e ambição para investir em Portugal.

É esse o perfil de vários participantes do Portugal Nação Global, iniciativa do Governo que junta membros da diáspora, investidores e agentes económicos nacionais no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, esta quarta e quinta-feira.

Entre esses casos estão Jorge Anjos, que saiu de Bragança e ergueu em França um grupo empresarial ligado às energias renováveis, e Pedro das Neves, que transformou uma experiência inicial com o sistema prisional português numa operação internacional presente em dezenas de países.

Queria trabalhar com bicicletas, acabou a liderar um grupo de milhões em França

Quando terminou o curso de Engenharia Mecânica na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, Jorge Anjos imaginava um início de carreira relativamente simples: encontrar uma empresa ligada ao desporto que sempre o apaixonou e juntar trabalho com gosto pessoal. A oportunidade surgiu através de um colega que lhe falou da Decathlon. A marca francesa, na altura ainda pouco conhecida em Portugal, fabricava bicicletas e, para um jovem engenheiro fascinado por esse universo, parecia o encaixe perfeito. “Um colega meu falou-me da Decathlon e disse-me que faziam bicicletas”, recorda. “Eu era apaixonado por esse desporto. Jovem engenheiro… por que não trabalhar no meio das bicicletas, que era uma coisa que eu gostava imenso?”

No entanto, os planos mudaram antes sequer de começarem. Em vez de iniciar funções no Porto, foi informado de que deveria seguir para Lille, no norte de França, onde a empresa precisava de engenheiros. O que seria, à partida, uma deslocação temporária transformou-se numa mudança de vida. “Disseram-me para ir um ano ou dois e depois regressava a Portugal”, conta. “A verdade é que já lá vão 27 anos e nunca mais regressei.”

Foi em França que começou verdadeiramente a sua carreira internacional. Durante quatro anos trabalhou ligado à engenharia e à produção numa multinacional que, nessa fase, acelerava o crescimento europeu. Depois surgiu novo desafio: a China. Jorge Anjos foi enviado para Xangai numa altura em que o país consolidava o estatuto de grande fábrica do mundo e atraía investimento industrial de todo o planeta.

(Cortesia Jorge Anjos)

“Apanhei o grande boom da China. Via muita coisa a acontecer, conheci muita gente, e começou a nascer em mim uma veia empresarial”, lembra. A experiência asiática acabaria por mudar-lhe não apenas a carreira, mas também a forma de olhar para o trabalho. Percebeu que queria deixar de participar em projetos desenhados por outros e começar a construir os seus próprios negócios.

Ao fim de nove anos entre França e China, decidiu sair da multinacional e arriscar por conta própria. Regressou à Europa e escolheu Toulouse, um dos principais polos industriais franceses, para lançar a nova etapa. Em 2009 fundou a Mecoworks, inicialmente como uma pequena estrutura de consultoria. O projeto começou de forma modesta, mas encontrou rapidamente espaço em setores em expansão, sobretudo nas energias renováveis e no solar fotovoltaico, áreas que cresciam em França com força.

À medida que o negócio aumentava, surgiu um problema comum a muitas empresas em crescimento: encontrar talento disponível. Jorge Anjos voltou-se então para Portugal e para a rede de contactos que mantinha no Norte do país. “Comecei a falar com conhecidos em Portugal que queriam vir para França, mas não encontravam emprego cá”, explica. A partir daí começou a recrutar portugueses para várias áreas, entre engenheiros, técnicos e trabalhadores especializados, criando uma ponte direta entre a necessidade de mão de obra francesa e a vontade de emigrar de muitos profissionais portugueses.

Essa aposta revelou-se decisiva para a expansão da empresa. “Foi uma parte importante do meu sucesso. Os portugueses são excelentes trabalhadores, tanto na engenharia como na execução.” A confiança no talento português tornou-se uma das marcas do crescimento do grupo e ajudou a consolidar equipas num mercado competitivo e exigente.

O secretário de Estado das Comunidades Portuguesas visitou a sede da Mecoworks, em Toulouse, em 2024. (Cortesia Jorge Anjos)

Hoje, a Mecoworks transformou-se num grupo composto por cinco empresas, emprega cerca de 100 pessoas e fatura 17 milhões de euros por ano. O percurso começou com a ideia simples de trabalhar no mundo das bicicletas e acabou na liderança de uma estrutura empresarial diversificada, com presença sólida em França e atividade ligada à indústria e energia.

Apesar de quase três décadas fora do país, a ligação a Portugal nunca desapareceu. Em 2019, Jorge Anjos decidiu trazer também para território nacional o modelo que tinha desenvolvido em França e abriu a Mecoworks Portugal. Era, diz, um passo natural para quem sempre manteve o país no horizonte. “Isto tudo começou em França, mas também tínhamos de estar em Portugal.”

Começou por acaso nas prisões portuguesas, hoje exporta inovação para 52 países

Em 2001, Pedro das Neves recebeu um desafio que, à partida, pouco tinha a ver com o percurso que vinha a construir. Formado em Sociologia, com estudos europeus e experiência em consultoria de gestão, movia-se num universo ligado à estratégia, às organizações e ao desenho de políticas. O sistema prisional estava longe do radar. Ainda assim, aceitou colaborar com a então Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, num projeto financiado pelo Fundo Social Europeu. “Tudo começou com a relação que estabelecemos com a Direção-Geral de Reinserção e Serviços Prisionais”, recorda. O que parecia uma oportunidade pontual acabaria por redefinir a sua carreira e lançar as bases de uma empresa portuguesa que hoje trabalha em dezenas de geografias.

A experiência inicial permitiu-lhe perceber que existia um espaço pouco explorado entre a gestão pública, a modernização institucional e a inovação tecnológica aplicada à justiça criminal. Num setor tradicionalmente fechado, com estruturas pesadas e desafios complexos, havia margem para pensar diferente. Foi dessa leitura que nasceu o atual Grupo IPS – Innovative Prison Systems, especializado em investigação aplicada, consultoria estratégica e desenvolvimento tecnológico para sistemas prisionais e correcionais. E foi também dessa experiência portuguesa que surgiram as primeiras portas internacionais. “Foi a partir daí que demos os primeiros passos fora de Portugal”, explica, lembrando que a estreia aconteceu na Roménia, entre 2007 e 2013, numa relação que se mantém até hoje. Seguiram-se Alemanha, Bélgica, Noruega e vários outros mercados.

Pedro das Neves diz que cedo percebeu que o conhecimento desenvolvido em Portugal tinha valor externo. “Essa experiência inicial mostrou-nos que havia apetência internacional pelo conhecimento que estávamos a construir em Portugal.” Mais de duas décadas depois, essa convicção traduz-se em números: o grupo já trabalhou em 52 países, distribuídos por quatro continentes, com projetos na Europa, América Latina, Médio Oriente, Canadá e Estados Unidos. O crescimento, garante, não resultou de uma fuga ao país nem da falta de condições internas, mas da própria natureza do mercado em que opera.

(Cortesia Pedro das Neves)

Num setor como o da execução de penas, o principal cliente é quase sempre único: o Estado. Isso significa que, dentro de cada fronteira, o universo comercial é necessariamente limitado. “É menos uma questão daquilo que Portugal não tinha e mais uma questão de dimensão”, sublinha. Na Europa, explica, existem cerca de 50 administrações prisionais relevantes se forem contabilizados países, estados federados e regiões com autonomia. No Canadá são 13. Nos Estados Unidos, cerca de 3.330 entre sistema federal, estados e condados. No Brasil, 27, número que duplica se forem considerados os sistemas de justiça juvenil. Perante esta escala, conclui, “para uma empresa com a nossa ambição e capacidade técnica, a internacionalização não era uma opção. Era uma condição de existência”.

Apesar da presença global, o centro operacional manteve-se em Portugal, no centro do país. “A sede da empresa é na Covilhã, onde temos uma equipa de desenvolvimento, bons parceiros e uma excelente relação com a universidade”, afirma. A partir dali sai uma parte significativa do trabalho tecnológico, editorial e de investigação do grupo. Existem escritórios em Lisboa, no Canadá e nos Estados Unidos, estando uma nova estrutura em fase de abertura no Brasil. Há ainda colaboradores distribuídos por vários países, da Finlândia à Índia, passando por Espanha, Brasil e EUA. Ainda assim, cerca de 90% da equipa permanece em Portugal, o que leva Pedro das Neves a resumir o modelo numa frase: “Portugal é, simultaneamente, base, parceiro e origem.”

Nos últimos anos, a empresa evoluiu para lá da consultoria clássica e entrou no desenvolvimento de soluções digitais próprias. “Deixámos de fazer apenas research e consultoria e passámos a desenvolver tecnologia de ponta para sistemas prisionais.” Entre essas soluções está o HORUS 360 iOMS, plataforma integrada de gestão prisional e serviços correcionais apresentada em fóruns internacionais como uma referência de inovação no setor. A partir da Covilhã é também produzida a JUSTICE TRENDS Magazine, publicação especializada em inovação penitenciária lida em cerca de 120 países e descrita por Pedro das Neves como “uma revista única no setor”.

Gerir uma operação internacional a partir de Portugal implica, naturalmente, uma forte exigência logística. O empresário admite que a mobilidade constante faz parte da rotina. “A IPS é uma empresa global por vocação. Mas estar em Portugal e andar pelo mundo tem, naturalmente, os seus desafios.” Só em 2025, conta, fez sete voltas e meia ao mundo, enquanto a equipa terá acumulado cerca de 18 voltas em viagens profissionais. Ainda assim, insiste em manter a ancoragem nacional e a ligação a instituições portuguesas, nomeadamente universidades, organismos públicos e projetos de investigação.

(Cortesia Pedro das Neves)

Quando olha para o país, acredita que Portugal começa finalmente a valorizar melhor o potencial da sua diáspora. “Sinto que estamos a meio caminho, mas a caminhar na direção certa, e a bom ritmo.” Na sua perspetiva, os portugueses espalhados pelo mundo ocupam hoje posições estratégicas em universidades, multinacionais, administrações públicas e organizações multilaterais, podendo funcionar como rede de influência, credibilidade e acesso a novos mercados. “A diáspora portuguesa é uma das redes mais capilares e qualificadas de que o país dispõe”, defende.

O desafio, acrescenta, passa agora por “tratar a diáspora não como um capítulo à parte, mas como parte integrante da estratégia económica, diplomática e tecnológica do país.”

Redação com cnnportugal