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Enquanto continua a financiar a máquina de guerra de Putin, Orbán também se está a ajudar a si próprio

A Hungria está a comprar petróleo russo apesar de existirem fontes alternativas, de acordo com um relatório que acusa Budapeste de não transferir para os consumidores as poupanças que faz ao comprar combustíveis russos baratos.

Em vez disso, as poupanças transformam-se em lucros para a maior companhia petrolífera húngara, que é parcialmente detida por fundações ligadas ao primeiro-ministro Viktor Orbán, de acordo com o relatório do Centro para o Estudo da Democracia (CSD), um instituto de políticas públicas com sede na Europa, que partilhou uma cópia antecipada da sua análise com a CNN.

A análise do CSD concluiu que os preços dos combustíveis na Hungria eram, em média, 18% mais elevados do que na vizinha´Chéquia em 2025, apesar de Budapeste continuar a comprar petróleo russo mais barato, enquanto Praga compra alternativas não russas mais caras.

O estudo põe em causa as afirmações de Orbán de que continuar a comprar petróleo russo, apesar dos esforços da União Europeia para eliminar gradualmente os combustíveis fósseis russos, torna o combustível mais barato para os húngaros. Em vez disso, segundo o relatório, as poupanças estão a reverter sobretudo a favor da MOL, o gigante húngaro do petróleo, que viu os seus rendimentos operacionais subirem 30% desde a invasão total da Ucrânia pela Rússia em 2022.

“A dependência do petróleo russo com desconto não chegou aos consumidores”, diz Martin Vladimirov, diretor do programa de energia e clima da CSD, à CNN. “Em vez disso, o lucro da revenda de petróleo barato vai para o bolso do fornecedor monopolista MOL sob a forma de lucro excessivo, que financia indiretamente as redes de captura estatal de Orbán.”

A CNN pediu um comentário ao governo húngaro e à MOL.

Depois de a Rússia ter lançado a sua invasão total da Ucrânia, há quase quatro anos, os membros da União Europeia tentaram acabar com a sua dependência do petróleo e do gás russos. Bruxelas concedeu à Hungria, à Eslováquia e à Chéquia – três países da Europa Central especialmente dependentes da Rússia para a sua energia – uma isenção em 2022 e foi-lhes dito que reduzissem a sua dependência o mais rapidamente possível.

Desde então, a Chéquia deixou de comprar petróleo russo, mas a Hungria e a Eslováquia utilizaram a isenção da União Europeia para aprofundar a sua dependência. No ano passado, a Rússia foi responsável por mais de 92% das importações de petróleo bruto da Hungria, contra 61% antes da invasão, segundo o relatório. Quando os Estados Unidos anunciaram sanções contra dois gigantes russos do petróleo, em outubro, Orbán deslocou-se à Casa Branca para pedir uma isenção de um ano.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, acedeu ao pedido do seu aliado, afirmando que tinha sido “difícil” para a Hungria libertar-se dos combustíveis fósseis russos, uma vez que o país não tem litoral.

Mas os investigadores do CSD afirmam que a continuação da compra de petróleo russo pela Hungria é uma escolha política e não uma necessidade comercial ou logística.

“Apesar de ter pleno acesso a rotas de abastecimento alternativas, a Hungria aprofundou a sua dependência do petróleo russo, transformando uma isenção temporária da União Europeia numa lacuna permanente no regime de sanções”, afirma o relatório.

A Hungria recebe petróleo bruto russo através do oleoduto Druzhba, que atravessa a Ucrânia, mas também está ligada ao oleoduto Adria, que atravessa a Croácia e bombeia petróleo bruto não russo da costa do Adriático.

Os investigadores do CSD afirmam que o oleoduto Adria “tem capacidade suficiente” para satisfazer a procura húngara e eslovaca e que as suas taxas de trânsito são 1,7 vezes inferiores às do oleoduto Druzhba, que atravessa uma zona de guerra ativa.

O petróleo bruto russo é, no entanto, significativamente mais barato do que as alternativas não russas. O relatório concluiu que, entre janeiro de 2024 e agosto de 2025, o petróleo bruto russo foi, em média, cerca de 20% mais barato do que as alternativas não russas.

Mas esse desconto não se traduziu em preços mais baixos para os consumidores húngaros, de acordo com o relatório.

No ano passado, os preços médios semanais dos combustíveis, antes de impostos, eram 18% mais elevados na Hungria do que na Chéquia e 10% mais elevados para o gasóleo, segundo a CSD. Apesar de a MOL ter comprado o crude russo com um desconto acentuado, os investigadores afirmam que a empresa ainda vendeu os seus produtos a preços semelhantes aos de outros mercados regionais, o que fez disparar os seus lucros.

“Os rendimentos operacionais da empresa subiram 30% acima dos níveis anteriores à invasão, enquanto três fundações ligadas ao primeiro-ministro Viktor Orbán controlam 30,49% da MOL, permitindo que os lucros excedentes fluam para algumas das redes de captura estatal mais influentes da Hungria”, disse. Essas fundações incluem o Mathias Corvinus Collegium, a maior instituição educacional da Hungria, que tem laços estreitos com o governo de Orbán.

Antes de conceder à Hungria a isenção de sanções por um ano, Trump repreendeu os aliados dos EUA por continuarem a comprar petróleo russo de forma “indesculpável”, o que, segundo o próprio, equivale a “financiar a guerra contra eles próprios”.

Mas numa conferência de imprensa conjunta em Budapeste, esta segunda-feira, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, referiu que a isenção foi concedida “tanto quanto qualquer outra coisa por causa da relação” entre Orbán e Trump. Rubio anunciou uma “era de ouro” nas relações entre os dois países e disse a Orbán que o sucesso da Hungria era do interesse nacional dos EUA, “especialmente enquanto for primeiro-ministro”.

O relatório do CSD surge numa altura em que a Hungria se prepara para as eleições parlamentares de abril, nas quais Orbán enfrentará Péter Magyar, o seu primeiro adversário credível em anos. Orbán tem feito uma campanha muito forte sobre o facto de o seu governo ter mantido os custos da energia baixos, o que o relatório põe em causa.

O relatório também põe em causa as afirmações de Orbán de que a Hungria não tem outra opção senão comprar petróleo russo. O relatório concluiu que as refinarias húngaras são tecnicamente capazes de processar crude não russo e que o fizeram no passado sem interrupções. O CSD também salientou que a Bulgária e a Chéquia, que deixaram de comprar petróleo russo desde a invasão da Ucrânia, “não sofreram choques de abastecimento e mantiveram alguns dos preços mais baixos dos combustíveis na União Europeia”.

Os investigadores recomendaram que a União Europeia aprove a legislação proposta pela Comissão Europeia para proibir as importações de petróleo bruto russo pela Hungria e pela Eslováquia o mais rapidamente possível.

“A fase final da dissociação energética da Europa em relação à Rússia está ao nosso alcance. O que falta é a vontade política de colmatar as lacunas que continuam a financiar a máquina de guerra do Kremlin”, afirmam os investigadores.