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Era o chefe dos assassinos mas precisava de se casar com Rosalinda para ascender no cartel: quem foi “El Mencho”

Apesar de agora morto continua a causar temor entre os vivos, devido aos motins que se seguiram após a sua morte

Morto. Quem era “El Mencho”, o temido líder de cartel acusado de inundar os EUA com fentanil

Nemesio “El Mencho” Oseguera Cervantes foi um temido traficante mexicano e líder de um cartel implacável acusado de arquitetar os esforços para introduzir fentanil nos Estados Unidos.

Antigo agente da polícia, Oseguera tornou-se um dos fugitivos mais procurados do mundo, com os Estados Unidos a oferecerem uma recompensa de 15 milhões de dólares (cerca de 13,8 milhões de euros) por informações que levassem à sua captura.

Oseguera, que fundou e liderou o Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG), era uma figura esquiva e era considerado o mais poderoso chefe de cartel do México desde que o líder do Cartel de Sinaloa, Joaquín “El Chapo” Guzmán, foi detido na década passada.

Nascido em julho de 1966 no estado ocidental de Michoacán, Oseguera mudou-se mais tarde para os Estados Unidos e esteve profundamente envolvido no tráfico de droga desde a década de 1990, segundo a agência antidroga norte-americana (DEA). Em 1994, foi condenado na Califórnia por conspiração para distribuir heroína e cumpriu três anos numa prisão dos EUA.

Após regressar ao México, trabalhou como agente da polícia no estado ocidental de Jalisco, mas rapidamente retomou as atividades criminosas, consolidando a sua influência no submundo do narcotráfico até se tornar o líder de um dos impérios criminosos mais poderosos e violentos do país.

Procurado pelas autoridades no México e nos EUA, Oseguera, ou “El Mencho”, mantinha um perfil discreto — ao ponto de existirem apenas algumas fotografias suas.

A sua morte, no domingo, numa operação militar mexicana em Tapalpa, no estado costeiro ocidental de Jalisco, desencadeou agitação em várias zonas do país.

Na lista dos mais procurados

Oseguera construiu uma longa carreira marcada pela brutalidade antes de formar o CJNG. Durante algum tempo, foi chefe dos assassinos — o principal executor — do Cartel Milenio, antes de supervisionar a segurança e a violência operacional do célebre Cartel de Sinaloa, cujo antigo líder, Guzmán, cumpre pena de prisão perpétua nos Estados Unidos.

De acordo com a DEA, o CJNG emergiu na década de 2010 a partir dos remanescentes do Cartel Milenio, que se fragmentou num vazio de poder após a captura do seu líder, Óscar Nava Valencia, em 2009.

Oseguera construiu o grupo em conjunto com Abigael González Valencia, líder do Los Cuinis — um cartel de base familiar a operar em Michoacán, que funcionava como braço financeiro e logístico do CJNG e supervisionava a sua “diversificada rede de operações de branqueamento de capitais”, segundo a DEA.

Mas foi através do casamento com a irmã de Abigael, Rosalinda González Valencia, que Oseguera ganhou verdadeira influência na nova estrutura.

“Na realidade, El Mencho chegou à liderança do cartel através de uma estratégia de diplomacia por via do casamento”, explicou o analista de segurança pública David Saucedo à CNN en Español. “Ele era, de facto, o chefe dos assassinos de ‘Nacho’ Coronel [líder do Cartel de Sinaloa], mas não tinha a linhagem que Rosalinda, a sua mulher, possuía”, acrescentou.

O cartel em ascensão expandiu rapidamente a sua esfera de influência, garantindo uma presença significativa em todo o México e tornando-se um ator central no comércio global de droga.

Trata-se de uma organização extremamente violenta, responsável por tentativas de assassinato contra responsáveis do governo mexicano e por homicídios contra grupos rivais de tráfico e agentes das forças de segurança mexicanas, segundo o Departamento de Estado norte-americano.

O cartel demonstrou o seu poder de fogo em maio de 2015, quando respondeu a uma operação de segurança com bloqueios simultâneos de estradas em vários municípios e abateu um helicóptero militar. Três soldados morreram nos confrontos.

No ano seguinte, o grupo foi apontado como responsável pelo audacioso rapto de um dos filhos de Guzmán, num restaurante da moda em Puerto Vallarta. Foi libertado uma semana depois.

Pouco tempo depois, a DEA colocou “El Mencho” na sua lista dos mais procurados.

(DEA)

Rede internacional de droga

O CJNG está fortemente envolvido na produção e tráfico de metanfetamina e fentanil, com ligações a fornecedores de precursores químicos na China, e controla vários portos marítimos para a importação desses químicos, segundo as autoridades norte-americanas.

O cartel é “um dos principais fornecedores de fentanil ilícito” para os Estados Unidos, arrecadando “milhares de milhões de dólares em lucros”, além de ser um dos maiores fornecedores de cocaína, de acordo com a DEA.

Membros da Guarda Nacional e polícias mexicanos fazem a segurança na sede da Fiscalia Geral da República, na Cidade do México, onde está em curso a investigação à morte do narcotraficante “El Mencho”. (picture alliance/dpa/Getty Images)

O grupo tem contactos em mais de 40 países, incluindo nas Américas, bem como na Austrália, China e Sudeste Asiático, segundo o Departamento de Estado dos EUA.

O México estava sob pressão do presidente norte-americano Donald Trump para fazer mais para limitar o fluxo de droga para os Estados Unidos.

Os EUA classificaram o CJNG como organização terrorista em fevereiro de 2025, e Oseguera já tinha sido acusado várias vezes nos Estados Unidos, incluindo em 2022, quando foi formalmente acusado de conspiração para fabricar e distribuir metanfetamina, cocaína e fentanil destinados à importação para os EUA.

A morte de “El Mencho”, no domingo, provocou instabilidade no país. Mas isso não significa necessariamente que o comércio de droga multimilionário do CJNG fique paralisado.

Segundo a DEA, o grupo está estruturado como um modelo de franchising e, de acordo com Eduardo Guerrero, diretor do grupo de consultoria mexicano Lantia Intelligence, é composto por cerca de 90 organizações.

“Esta fragmentação significa que será necessária uma estratégia mais complexa e sofisticada para os enfraquecer e desmantelar”, afirmou Guerrero à CNN no início deste ano.

As Forças Armadas mexicanas e a polícia, com apoio de informações e equipamento dos Estados Unidos, já tentaram neutralizar grandes líderes do narcotráfico no passado. Mas outros surgiram para ocupar o seu lugar, e toneladas de droga continuaram a atravessar a fronteira norte-americana.

Redação com cnnportugal.iol.pt