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Esta é uma história de amor. Mas por aviões. Juliana mudou de vida aos 40 anos e é piloto de um A320

Apesar de uma vida profissional preenchida e que, garante, “ama profundamente, Juliana confessa sempre ter sentido “um vazio”. Foi à procura do que preenchesse essa lacuna e, aos 35 anos, tirou a licença de pilotagem. Aos 40, fez o voo base de um A320

Juliana Silva ainda recorda, com um brilho nos olhos, as tardes de domingo a ver os aviões junto à pista do Aeroporto Sá Carneiro. Enquanto os homens liam o jornal e “as mulheres faziam renda”, as crianças brincavam junto à cerca. Era uma espécie de tradição de domingo à tarde. Dezenas de famílias juntas a ver os aviões.

Já nessa altura, os aviões exerciam um fascínio sobre Juliana, apesar de ela, na altura, não valorizar. Quando tinha “uns cinco anos”, a mãe vestiu-a de comissária de bordo no Carnaval. Ainda hoje guarda a fotografia e esboça um sorriso de ternura quando a mostra à CNN Portugal.

“Adorava aqueles domingos à tarde. Mas nunca achei que pudesse ser a minha profissão. Achava que era uma profissão de homens”, confessa.

O amor pelo mundo da aviação é notório em cada palavra. A paixão pelos aviões nota-se até no tom de voz.

Enfermeira com uma vida preenchida

A menina que via os aviões cresceu, a vida foi seguindo e a de Juliana Silva tomou outro rumo. Tirou o curso de enfermagem e foi trabalhar num dos maiores hospitais do país. Viveu em Coimbra mais de uma década, o mesmo tempo que trabalhou nos Hospitais da Universidade de Coimbra (HUC). Em paralelo, trabalhava na secção regional da Ordem dos Enfermeiros e dava aulas na Escola Superior de Enfermagem de Coimbra. “Trabalhava na unidade de transplantação hepática. Estava no auge da minha carreira, mas senti sempre que me faltava qualquer coisa”, recorda.

Enquanto viveu em Coimbra, eram raros os fins de semana em que ia visitar os pais e não parava junto à pista do Sá Carneiro e ficava longos minutos a ver os aviões. Era assim na ida e na volta.

Juliana tirou o curso de pilotagem em plena pandemia. Ao mesmo tempo, trabalhava numa unidade covid do Hospital de São João. (Arquivo pessoal Juliana Silva/DR)

 

Sentido da vida

Em 2018, uma perda familiar fê-la repensar o sentido da vida. “O meu avô morreu e eu era muito próxima dele. Com a partida dele, senti a finitude da vida. Senti que tinha de preencher um vazio que tinha na minha vida, que eu não sabia bem qual era. Fui fazer voluntariado para África, para a Guiné-Bissau, fui fazer uma viagem de mochila às costas para o Sudoeste asiático, fiz a peregrinação a Santiago de Compostela. Mas não encontrei aí respostas, antes pelo contrário, encontrei mais inquietações”, confessa.

“Às vezes, procuramos respostas, procuramos, procuramos… e elas vêm ter connosco sem darmos conta. Em abril de 2019, fiz uma viagem à Madeira. Fui com uma colega, em trabalho pela Ordem dos Enfermeiros, participar num congresso. Ainda íamos no avião a terminar a apresentação e eu senti uma vontade inexplicável de ir ao cockpit. Já tinha andado de avião, mas nunca tinha ido a um cockpit. Quando o avião aterrou, pedi para ir ao cockpit. Lembro-me de entrar e as pessoas falarem para mim e eu não ouvia nada. Senti o meu coração palpitar de outra forma”, lembra.

Não perdeu tempo. Ainda na Madeira, nos intervalos do congresso, começou a procurar informações sobre escolas de pilotagem, valores e pré-requisitos dos cursos. Voltou para o continente e a primeira coisa que disse aos pais foi: “quero tirar o curso de piloto”.

A mãe ficou reticente, mas o pai, “que, não sei porquê, nunca gostou da ideia de eu ser enfermeira” ficou feliz. Apesar da reação inicial ter sido diferente, o apoio foi imediato de ambos.

“Isto não é só meu. Os meus pais, apesar de acharem tudo isto uma loucura, sempre me apoiaram”, reconhece.

Vendeu e casa em Coimbra, voltou para casa dos pais, em Vila do Conde, e foi trabalhar para a unidade de cuidados intensivos do Hospital de São João, no Porto. A ideia era poupar nas despesas mensais e encontrar forma de financiar o curso: “É um curso caro. Só a propina foram mais de 60 mil euros, além de todas os outros gastos inerentes”.

O início do sonho

Em janeiro de 2020, Juliana começou o curso de pilotagem numa escola da Maia. Em março, o país encerrou, perante uma pandemia que mudou a vida de toda a gente. A unidade de cuidados intensivos do São João foi convertida em unidade covid e Juliana viveu o que nunca tinha vivido antes na vida profissional.

“O curso até me ajudou, do ponto de vista de saúde mental, a enfrentar a pandemia. Eu saía do hospital e tinha outra coisa em que pensar, que me fazia sentir viva. Lembro-me de parar nos semáforos, junto ao hospital e, enquanto esperava que ficasse verde para atravessar, eu já estava a pensar no que tinha para fazer no curso”, lembra.

Quando terminou a parte teórica, conciliar o curso com o trabalho no Hospital de São João começou a tornar-se difícil. “Senti que precisava de rentabilizar melhor o meu tempo. Perdia muito tempo entre Vila do Conde e o Porto. Vim trabalhar para o hospital da Póvoa do Varzim. Estive lá de agosto a janeiro de 2023. Mas tinha muita dificuldade em conciliar os voos com o hospital. Era preciso conciliar o estado do tempo com a agenda dos instrutores e era impossível conciliar um trabalho a full time com os voos. Rescindi contrato e dediquei-me só ao curso durante seis meses”, diz.

Em novembro de 2023, aos 38 anos, Juliana Silva tirou a licença de piloto comercial.

“O momento de felicidade ao passar nos exames teóricos na ANAC”, descreve Juliana ao mostrar a fotografia. (Arquivo pessoal Juliana Silva/DR)

Aos comandos de um A320

Depois disso, começou a trabalhar aos fins de semana num hospital privado e, em abril de 2024, a vida de enfermeira voltou a uni-la aos aviões, enquanto ainda aprendia a pilotar. Foi trabalhar para o aeroporto, como enfermeira, a recibos verdes: “É o único regime que tenho agora, que me permita conciliar com o meu desejo de continuar a minha carreira na aviação”.

A licença de pilotagem só adensou o amor de Juliana pelos aviões e a enfermeira quis mais. Em novembro de 2025, começou o type rating para o A320 (certificação exigida na aviação que autoriza um piloto a operar um modelo específico e complexo de aeronave) e, a partir daqui, tudo se desenrolou com a rapidez de um voo sónico. A 21 de dezembro fez o exame de simulador e o voo foi marcado para o mês seguinte.

Aos 40 anos, no último dia 27 de janeiro, Juliana fez o voo base e tornou-se piloto de um A320. “Temos de fazer o walkarround, uma espécie de inspeção pré-voo ao avião. Senti um frio na barriga ao olhar para o avião e senti-me muito pequenina, naquela máquina tão grande. Não era medo. Era mesmo um ‘isto está a acontecer. É mesmo verdade’”, relata.

“Quando me sentei a ajustei os cintos, senti a alegria de uma criança a receber um brinquedo novo. Uma alegria enorme, uma sensação de orgulho em mim que não dá para explicar. Quando estamos a voar, há aquela coisa de não nos deixarmos levar pelas emoções. O nosso corpo e a nossa cabeça entram naquela responsabilidade de estarmos a voar numa máquina de muitos milhões”, acrescenta.

O voo base decorreu em Lérida, Espanha. Cada candidato tem de levantar voo e aterrar seis vezes e fazer um go-around (tentar aterragem, abortar e levantar de novo). “Aquele momento em que fazemos a última aterragem e posicionamos o avião para outro colega fazer o voo, dá aquela tristeza de ‘eu queria mais’”, revela.

A primeira vez que Juliana entrou num cockpit, depois de uma viagem a trabalho à Madeira. (Arquivo pessoal Juliana Silva/DR)

“O percurso não foi fácil”

Se a mãe de Juliana ficou reticente há cinco anos, quando a filha lhe disse que ia dar um aileron roll à sua vida, agora, é “minha fã número 1”. “Mesmo durante o curso, estava sempre a perguntar qual era o próximo passo. Por isso é que eu digo que esta vitória também é deles. E não falo só do apoio financeiro. Falo do apoio moral, porque este percurso não foi fácil”, repete.

“Aos 35 anos, mudar de vida para uma cosia tão oposta não é fácil. Às vezes até em termos de hábitos de estudo. Nunca tinha feito simulador antes e estava ao lado de colegas de turma que faziam simulador desde crianças. Os estímulos que os jovens têm atualmente são diferentes daqueles que eu tive enquanto jovem. Além disso, durante o curso, trabalhava nos cuidados intensivos, um trabalho muito intenso, física, emocional, mental e cognitivamente. Tinha de arranjar tempo para ir às aulas, estudar e trabalhar. Exigiu muito de mim em termos de disciplina e de gestão do tempo”, confessa.

Os colegas de curso foram também um apoio crucial. A esmagadora maioria era muito mais nova do que ela. Estudavam juntos diversas vezes: “É difícil fazer isto de forma solitária”.

O instrutor ajudava Juliana a colecionar recordações durante os voos. (Arquivo pessoal Juliana Silva/DR)

Agora, Juliana Silva é uma inspiração para muitos. Há antigos colegas que já lhe manifestaram mesmo o quanto se orgulham dela e do percurso que traçou. “Quando falo sobre o meu percurso não é para me vangloriar é no sentido de incentivar e mostrar que é possível perseguir os sonhos e procurar aquilo que nos completa”, garante.

“Quando entrei no cockpit, no dia do voo base, senti um orgulho enorme de pensar ‘Juliana, há cinco anos, estavas sentada dentro do teu carro, a ver os pilotos no cockpit do avião do lado de fora do aeroporto e agora estás cá dentro’”, remata.

Continua a dividir-se entre dois amores: a enfermagem e a aviação. Mas não descarta a hipótese de passar o resto dos dias aos comandos de um avião. É isso mesmo que procura agora: ser só piloto da aviação civil.

Redação com cnnportugal.iol.pt