Caminhada de aniversário acaba em alegada tentativa de homicídio no Havai. Engenheira nuclear acusa marido de tentar matá-la durante passeio
Ao olhar para as falésias íngremes a poucos metros de distância, Arielle Konig sentiu-se desconfortável.
A engenheira nuclear e o marido, o anestesista de 47 anos Gerhardt Konig, estavam a fazer o trilho “Pali Puka”, na ilha de Oahu, para celebrar o 36.º aniversário dela. Tinham feito a viagem de fim de semana a partir da sua casa em Maui, depois de alguns meses difíceis na relação, na sequência do que ela reconheceu ter sido um “caso emocional” com um colega de trabalho.
Os Konig tinham feito terapia de casal e trabalhado para recuperar a confiança um do outro, contou. E depois de receber um cartão de aniversário cheio de amor na manhã de 24 de março de 2025, Arielle acreditou que as coisas estavam a melhorar.
“Fiquei com lágrimas nos olhos quando o li”, disse. “Senti esperança de que este fosse um ponto de viragem para nós no casamento e que esta viagem fosse agradável e o início do próximo capítulo para nós.”
A caminhada acabou por começar um novo capítulo para os dois – mas não como ela esperava.
O desconforto com o trilho transformou-se rapidamente em terror quando, segundo ela, o marido a empurrou na direção da falésia, tentou injetar-lhe uma seringa e bateu-lhe repetidamente na cabeça com uma pedra.
“Foi muito chocante”, disse. “A minha reação inicial foi achar que ele estava a brincar.”
Esta semana, exatamente um ano depois dessa caminhada, Arielle Konig testemunhou num tribunal em Honolulu e acusou o marido de tentar matá-la. Sobreviveu, contou, porque lutou e gritou até que dois outros caminhantes chegaram e intervieram.
O seu testemunho dramático representa a principal prova nas últimas duas semanas do julgamento de Gerhardt Konig por tentativa de homicídio. O julgamento tem incluído provas de um divórcio tenso e de uma disputa pela custódia dos filhos, e levou a uma análise mais profunda de como este casal de elevado sucesso profissional acabou frente a frente num tribunal.
Nas declarações iniciais, os procuradores apresentaram os detalhes do ataque e disseram que Gerhardt Konig confessou ao filho de 19 anos numa chamada FaceTime. Depois, alegadamente, escondeu-se da polícia durante horas até ser detido ao pôr do sol, quando tentava fugir, disseram os procuradores.
O advogado de defesa, Thomas Otake, reconheceu que Konig atingiu a mulher com a pedra, mas argumentou que não se tratou de um ataque premeditado. Disse que foi ela quem iniciou a discussão ao bater-lhe primeiro. Konig não tentou empurrá-la da falésia e não houve qualquer seringa envolvida, afirmou o advogado.
“Isto foi uma luta não planeada, inesperada, que aconteceu entre um casal”, descreveu.
O arguido poderá testemunhar em sua própria defesa. O julgamento deverá ser retomado na terça-feira.
Problemas no paraíso
Gerhardt e Arielle casaram-se em 2018 e tiveram um filho em 2020 e outro em 2023.
Nascido na África do Sul, Gerhardt tem também dois filhos de um casamento anterior. Arielle, engenheira nuclear, trabalha como gestora de projetos numa empresa de energia nuclear, segundo o seu testemunho. O casal mudou-se com os filhos para Maui em 2023.
No final de 2024, ela aproximou-se de um colega de trabalho, trocando com ele “mensagens de flirt” e apagando-as para que o marido não as visse, contou em tribunal. Descreveu a situação como um “caso emocional”, dizendo que nunca se tornou físico e que não houve envio de fotografias íntimas.
Quando Gerhardt descobriu, em dezembro de 2024, “ficou zangado e perturbado”, disse, e passou a verificar o telemóvel dela quase todos os dias. Foram a terapia de casal durante vários meses enquanto tentavam reparar a confiança.
Depois surgiu a ideia de uma viagem a dois para a ilha vizinha de Oahu. Arielle comentou “em algum momento” que queria ir a Oahu, e ele planeou a viagem para coincidir com o aniversário dela, a 24 de março.
Chegaram a Oahu a 23 de março e foram a um spa e jantar. Na manhã seguinte, ele deu-lhe o cartão de aniversário. “Feliz aniversário, cara de anjo”, escreveu no cartão. “Não há obstáculo neste mundo demasiado difícil para eu ultrapassar por ti.”
Planeavam fazer uma caminhada nesse dia e tinham reserva para jantar nessa noite, disse.
“Ele agarrou-me com muita força”
O trilho Pali Puka é uma caminhada popular a cerca de 13 minutos de carro de Honolulu.
O trilho, com zonas de floresta e rochas, é curto mas íngreme. Tem cerca de 1,6 quilómetros ida e volta, mas o caminho segue ao longo de uma crista estreita e obriga os caminhantes a subir encostas rochosas antes de terminar com uma vista deslumbrante da costa, explica uma empresa local de caminhadas.
Arielle e Gerhardt conduziram até ao trilho e começaram a caminhada por volta das 10 horas, tirando fotografias pelo caminho e enviando-as à família no Snapchat, segundo o seu testemunho.
Mas depois de cerca de 400 metros, disse que começou a sentir-se desconfortável com a inclinação e recusou continuar. Gerhardt avançou um pouco e, quando regressou, mostrou-se surpreendido por ela ainda estar ali.
Tiraram uma selfie perto da falésia enquanto ela se segurava a uma árvore, contou, quando ele a apanhou de surpresa.
“Quando me aproximei dele, agarrou-me com muita força pelos braços e disse: ‘Estou farto desta m—, volta para ali.’ E começou a empurrar-me na direção da falésia”, testemunhou.
Ela lutou com ele para tentar fugir. Atirou-se para o chão e agarrou-se a árvores e arbustos para que ele não a empurrasse pela encosta, contou. Depois, ele sentou-se em cima dela, com as pernas sobre a sua cintura, segurando um objeto inesperado, disse.
“Ele estava em cima de mim, tinha uma seringa na mão e disse: ‘Fica quieta’”, contou.
Um empurrão, uma luta e uma pedra
Ela tentou afastar-lhe a mão e a seringa caiu ao chão, disse. Ele mexeu na mochila com a mão esquerda e manteve-a presa com o braço direito enquanto segurava um frasco com um líquido, contou.
“Estou a gritar, a dizer ‘Que raio estás a fazer, sai de cima de mim.’ Ele dizia coisas como ‘vai-te lixar, acabaste, estou farto de ti, estou mesmo farto de ti’”, testemunhou.
Durante a luta, disse que lhe mordeu o antebraço e apertou-lhe os testículos enquanto gritava por ajuda.
“Ele dizia: ‘Cala-te. Ninguém te vai ouvir aqui. Ninguém te vai salvar.’ Eu dizia: ‘Não podes fazer isto. Toda a gente sabe que estamos numa caminhada, vão perceber que não foi um acidente, e os nossos filhos vão ficar órfãos. Vais para a prisão e eu vou morrer. Tens de parar.’ Ele dizia: ‘Acabaste, já não precisamos de ti’”, contou.
Pareceu acalmar um pouco, disse. Mas depois bateu-lhe repetidamente na cabeça com uma pedra, até cerca de dez vezes.
“Comecei a gritar, porque na minha cabeça ele estava a tentar deixar-me inconsciente para me arrastar pela falésia. Comecei a gritar o mais que podia”, disse.
Finalmente, ouviu a voz de uma mulher dizer: “Estamos aqui e estamos a ligar para o 112.” “Ele ficou imóvel e ajoelhou-se afastando-se de mim. Eu afastei-me a gatinhar muito devagar”, contou.
As duas mulheres ajudaram Arielle a descer até um local seguro, enquanto Gerhardt ficou ali imóvel, disse.
As mulheres – as enfermeiras Amanda Morris e Sarah Buchsbaum – testemunharam anteriormente no julgamento que tinham acabado de iniciar a caminhada quando ouviram uma mulher a gritar e viram um homem a bater-lhe com uma pedra. Identificaram o agressor em tribunal como sendo o arguido.
Imagens da câmara corporal dos polícias que responderam ao incidente também mostraram o rosto e a cabeça de Arielle ensanguentados no parque de estacionamento do trilho. Foi levada para o hospital para receber tratamento.
Marido detido e acusado
Entretanto, Gerhardt Konig ligou ao filho de 19 anos por FaceTime e, coberto de sangue, confessou que tentou matar Arielle porque acreditava que ela o traía há meses, segundo os procuradores.
A polícia procurou-o durante horas e deteve-o nessa noite depois de ele tentar fugir, disseram os procuradores. Uma semana depois, foi formalmente acusado por um grande júri.
Arielle Konig foi tratada às lacerações graves e passou uma noite no hospital, disse em tribunal. Levou pontos na cabeça e ficou com cicatrizes na cabeça e no rosto. Em tribunal, afastou a franja que cobria o lado esquerdo da testa para mostrar uma zona do couro cabeludo onde o cabelo já não cresce.
Durante o interrogatório, o advogado de defesa sugeriu que ela estava a fazer falsas declarações numa tentativa de ficar com o dinheiro e a casa do marido.
Depois do alegado ataque, ela transferiu mais de 120.000 dólares (cerca de 111.000 euros) da conta conjunta para a sua conta pessoal para pagar a hipoteca, o carro, o cartão de crédito e as despesas com os filhos, disse. Também pediu o divórcio, e os filhos estão à sua guarda.
Arielle confirmou que pediu a custódia total dos filhos e a posse da casa no processo de divórcio e custódia. O veredicto deste julgamento criminal será relevante para essa decisão, reconheceu.
“Você e o seu advogado estão a usar as alegações deste caso como base para pedir certas coisas no processo de divórcio e custódia, correto?”, perguntou Otake, o advogado de defesa.
“Sim, em certos casos em que isso se aplica”, respondeu.
Se for condenado, Gerhardt Konig enfrenta uma pena de prisão perpétua com possibilidade de liberdade condicional.
Redação com cnnportugal






