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Grécia resgata fotos raras de execuções nazis para travar leilão no eBay

Imagens arrepiantes documentam o Massacre de Kaisariani, em 1944. Após indignação pública, o governo grego chegou a acordo com colecionador para adquirir as provas do fuzilamento de 200 prisioneiros.

A Grécia firmou um acordo com um colecionador belga para adquirir as únicas evidências fotográficas conhecidas da execução de 200 gregos por um pelotão de fuzilamento nazi. A decisão surge após um conjunto de 12 fotografias da Segunda Guerra Mundial ter sido colocado em leilão na plataforma eBay por Tim de Craene, provocando uma vaga de indignação nas redes sociais e nas instâncias políticas gregas.

As imagens captam os momentos finais de prisioneiros políticos — na sua maioria comunistas — antes de uma execução em massa a 1 de maio de 1944. O episódio, conhecido como o Massacre de Kaisariani, ocorreu num subúrbio de Atenas e permanece como uma das mais sangrentas atrocidades da ocupação nazi na Grécia.

Comunistas gregos marcham para a morte nas mãos dos nazistas em 1944.

Algumas das vítimas do massacre nazista em um subúrbio de Atenas foram identificadas, dizem especialistas.

A história por detrás das lentes da Wehrmacht

Especialistas visitaram o colecionador na Bélgica para verificar a autenticidade das provas, concluindo que as fotografias faziam parte de um espólio de 262 imagens captadas por Hermann Heuer, tenente da Wehrmacht (as forças armadas da Alemanha nazi), durante a ocupação da Grécia entre 1943 e 1944.

Lina Mendoni, Ministra da Cultura da Grécia, descreveu as fotografias como “documentos de extrema importância para a história grega moderna”. Nas imagens, os homens são vistos a atravessar um portão e a ser alinhados contra um muro. Muitos encaram a câmara com a cabeça erguida, num último gesto de desafio.

Uma das 12 fotos de Tim de Craene que estão sendo leiloadas no eBay.

Uma foto publicada no eBay por Tim de Craene mostra homens gregos enfileirados contra uma parede, aguardando para serem fuzilados.

“A história não é uma mercadoria”

O leilão inicial, que chegou a registar licitações superiores a 1.500 libras (cerca de 1.750 euros), foi retirado do ar após o clamor público. Sokratis Famellos, líder do partido Syriza, foi contundente: “Estes documentos não são uma mercadoria. São a nossa história.”

Tim de Craene, proprietário da empresa Crain’s Militaria — que comercializa artigos do Terceiro Reich, incluindo braçadeiras com suásticas —, afirmou estar satisfeito por as imagens agora “beneficiarem o povo grego e a sua memória coletiva”.

Um homem passa por uma escultura que homenageia a execução de comunistas gregos pelos nazistas.

Uma escultura em memória dos homens mortos no Massacre de Kaisariani, em Atenas, em 1º de maio de 1944. Crédito : AFP

Dar um nome ao rosto

Até à data, o massacre de Kaisariani era conhecido apenas através de relatos orais e registos escritos. “Sabíamos que os prisioneiros marcharam para o fuzilamento com orgulho. Agora temos a prova visual”, afirmou Polymeris Voglis, professora de história na Universidade da Tessália.

A descoberta permitiu já a identificação de várias vítimas. Para o historiador francês Guillaume Pollack, o ato de identificar estes rostos é uma vitória contra a barbárie: “Eles queriam apagar estes homens da humanidade. Cada vez que associamos um nome a um rosto, frustramos esse projeto de aniquilação.”

Num incidente paralelo, uma placa em homenagem às vítimas no local do massacre foi recentemente vandalizada. A câmara municipal de Kaisariani já garantiu a sua restauração, reiterando que “a memória histórica não será apagada, por muito que isso incomode alguns”.

Redação com telegraph.co.uk