Mais de duas décadas após a transferência de soberania, Macau atravessa agora a segunda metade do seu período de transição, com os olhos postos em 2050. Entre gruas que rasgam o céu e casinos que faturam milhões por hora, um grupo de portugueses mantém viva a herança lusa, transformando a tradição em oportunidades de negócio.
O sabor da autenticidade Na Rua do Cunha, o aroma dos pastéis de nata da Manteigaria mistura-se com o bulício de Taipa. Diogo Vieira, radicado em Macau há mais de uma década, lidera o desafio de oferecer o “Portugal genuíno”. Numa terra onde a “tarte de ovo” (versão local adaptada) impera, a aposta passa pela fidelidade aos ingredientes importados de Portugal. “É uma porta de entrada para a nossa cultura”, afirma.
Empreender através da saudade Para Raquel Fera, a saudade foi o motor da The Portuguese Bakery. No coração da Macau antiga, a sua padaria é um porto de abrigo para quem procura a carcaça, o pão alentejano ou a broa. “Precisava de sentir que estava mais perto de casa”, confessa. O negócio, que começou de forma tímida, “levedou” e tornou-se um ponto de referência para uma comunidade que, embora cada vez mais pequena (apenas 0,3% da população é nascida em Portugal), mantém uma influência cultural desproporcional.
O desafio da adaptação Apesar da ligação histórica, o cenário está a mudar. Desde 2023, as regras de residência tornaram-se mais restritas e a influência chinesa é cada vez mais visível na arquitetura faraónica e no domínio do setor do jogo, que já ultrapassa Las Vegas em receitas.
Tiago Brito, coordenador do Turismo de Macau na China, recorda que o sucesso nos negócios exige paciência e uma forte componente relacional. Se Portugal se vende através de embaixadores como Cristiano Ronaldo, a permanência no mercado depende da capacidade de navegar entre dois sistemas.
Uma identidade dividida Macau continua a ser um lugar de contrastes: onde os nomes das ruas em português convivem com letreiros em cantonês e onde a deusa A-má protege os viajantes. Para os portugueses que lá permanecem, Macau não é apenas um mercado; é um lar longe de casa, onde a palavra “saudade” — ou Wǔxiǎngnǐ, em chinês — continua a ser o elo mais forte.
Redação com CNN Portugal






