Há mais de 40 dias que a Bolívia se encontra mergulhada num ciclo de bloqueios e manifestações que não só causam danos económicos profundos, como se têm marcado por episódios de violência, hostilidade e violações de direitos. Esta situação provocou uma escassez aguda de alimentos, combustíveis e matérias-primas, agravando ainda mais as dificuldades de uma população que já enfrenta condições económicas muito frágeis, com baixos rendimentos, elevados níveis de vulnerabilidade e acesso limitado a bens e serviços essenciais.
No dia 18 de maio, durante uma marcha organizada pela Central Operária Boliviana (COB), por camponeses do grupo “Ponchos Vermelhos” de La Paz e por apoiantes do movimento evista, registaram-se saques a instalações públicas e privadas. Entre os edifícios atingidos figurou o Tribunal Departamental de Justiça. Mas o caso que causou maior revolta na população foi o que aconteceu ao estabelecimento de Adriana Poma, vendedora de materiais de escritório na rua Potosí: os manifestantes retiraram-lhe toda a mercadoria, destruindo o seu meio de subsistência e agravando a sua situação económica já precária.
Registaram-se também ataques às estações do teleférico de La Paz. Num vídeo partilhado por moradores, vê-se um grupo de manifestantes a agredir de forma violenta dois agentes da polícia numa estação da Linha Azul. Devido a estes riscos, a empresa Mi Teleférico suspendeu temporariamente o serviço em várias linhas, o que dificultou a deslocação de milhares de pessoas — muitas delas trabalhadores com rendimentos modestos, que dependem deste transporte para chegar ao emprego e garantir o seu sustento.
Para além disso, os manifestantes incendiaram uma viatura e uma motocicleta da polícia nas proximidades das instalações da Força Especial de Combate ao Crime (FELCC). Houve ainda agressões a transeuntes e a jornalistas de diversos meios de comunicação, que tentavam apenas relatar o que se passava.
Ao longo destas semanas de perturbação, também foram registados casos de retenção de elementos das forças de segurança. Um dos episódios ocorreu a 23 de maio, quando o Governo organizou uma operação para abrir um corredor humanitário, essencial para fazer chegar bens essenciais a zonas isoladas. Nesse contexto, um agente da polícia foi detido por quem mantinha os bloqueios, na zona de Ventilla, em El Alto.
“Foi retido por um grupo que aproveitou o clima de confusão e agressividade — alguns dos quais já se encontravam em estado de embriaguez — e foi ferido, humilhado e torturado”, denunciou o comandante regional da polícia de El Alto, coronel Fernando Rojas, num relato divulgado pela agência ABI.
Outro caso teve lugar esta semana em São Julião, na província de Santa Cruz: o militar Wilmer Chávez Condori foi detido pelos responsáveis pelos bloqueios naquela região. Num dos vídeos que circularam nas redes sociais, ouve-se a vítima a dizer: “Estou aqui no município de São Julião com a população. Não me fizeram mal, apenas estão a interrogar-me”. Depois de mais de 24 horas em cativeiro, foi finalmente libertado na noite de quinta-feira.
A estes factos juntam-se ainda agressões a transeuntes e a profissionais da comunicação social, bem como denúncias de bloqueios à passagem de ambulâncias — um ato que põe diretamente em risco vidas humanas.
No passado dia 2 de junho, uma ambulância que se dirigia para as imediações do portagem da autoestrada La Paz–El Alto foi atacada por membros do grupo “Ponchos Vermelhos”, que mantinham um ponto de bloqueio na zona. De acordo com um vídeo difundido por vários meios de comunicação, o veículo de emergência tentou avançar, mas teve de recuar porque os manifestantes atiravam pedras contra ele.
Noutra gravação, pessoas que mantinham um bloqueio na ponte Méndez, na estrada que liga Sucre a Potosí, impediram a passagem de uma ambulância que transportava um doente. Um dos manifestantes respondeu, de forma chocante: “Que morra o doente, estamos em bloqueio”.
Não foram apenas as ambulâncias alvo de ataques: também houve agressões a cidadãos que manifestaram desacordo com os bloqueios, muitas vezes pessoas que dependem da circulação de mercadorias para o seu pequeno negócio ou para obter alimentos para a família. No que respeita à comunicação social, registaram-se vários casos de violência contra jornalistas que exerciam a sua profissão.
Uma das agressões mais recentes teve como vítima Grover Yapura, jornalista do portal Urgente.bo. No dia 10 de junho, ele foi ameaçado de lhe ser retirado o telemóvel, depois de ter gravado imagens de um incêndio a uma motocicleta e de uma agressão a uma pessoa. “Vi que tinham incendiado uma motocicleta e que estavam a bater numa pessoa, provavelmente o seu condutor. Ameaçaram-me com pedras e disseram-me que me iriam tirar o telemóvel”, contou o jornalista à Unidade de Monitorização da Associação Nacional da Imprensa.
Toda esta situação aprofunda a crise económica que afeta a maioria da população boliviana: a escassez faz disparar os preços dos bens básicos, as pequenas empresas e os vendedores informais perdem o seu rendimento diário, as famílias não conseguem chegar aos serviços de saúde e muitas comunidades ficam isoladas, sem acesso a alimentos ou medicamentos. Para quem já vivia com grandes dificuldades, estes mais de 40 dias de conflito representam um golpe ainda mais duro na sua qualidade de vida e nas suas perspetivas de futuro.
Redação direrto da Bolivia






