Ratko Mladić, o antigo chefe militar sérvio-bósnio apelidado de “Carniceiro da Bósnia” pelo seu papel no massacre de Srebrenica, em 1995, morreu, informou esta quinta-feira a emissora estatal sérvia RTS.
Mladić, que tinha sofrido vários AVC nos últimos meses, cumpria pena de prisão perpétua em Haia por genocídio, crimes de guerra e crimes contra a humanidade, depois de ter supervisionado o massacre de Srebrenica, o pior ato de derramamento de sangue na Europa desde a II Guerra Mundial.
As autoridades estatais sérvias e a família de Mladić apelaram à sua libertação devido ao estado de saúde debilitado, mas estes pedidos foram rejeitados pelo tribunal de Haia.

Cartaz de procurado, divulgado em 2000 pelo Departamento de Estado dos EUA, com lideranças sérvio-bósnias (Foto: George Bridges / AFP)
Era a figura militar de um trio brutal, liderado politicamente pelo antigo presidente jugoslavo Slobodan Milošević e pelo antigo líder sérvio-bósnio Radovan Karadžić, enquanto a antiga Jugoslávia mergulhava na carnificina após a queda do comunismo. A guerra de 1992-1995 fez cerca de 100 mil mortos e 2,2 milhões de deslocados.
A atrocidade mais infame foi cometida em Srebrenica, onde as forças sérvias sob o comando de Mladić executaram oito mil homens e rapazes muçulmanos bósnios que tinham procurado refúgio no que deveria ser um enclave protegido pela ONU. Tal episódio, em julho de 1995, levou os meios de comunicação social de todo o Mundo a apelidá-lo de “o carniceiro da Bósnia”.
“Personificação do mal”

Mladić, à esquerda, fala com líder da Republika Srpska, Radovan Karadžić (Foto: EPA)
O antigo responsável pelos direitos humanos da ONU, Zeid Ra’ad al Hussein, descreveu-o como “a personificação do mal” após a sua condenação, em 2017.
Mas a maioria dos sérvios continuou a venerá-lo. “Ele apenas defendeu o seu povo”, disse o veterano sérvio-bósnio Ljubo Tomovic à agência France-Presse. “Condená-lo seria uma desgraça e um pecado”, afirmou antes do julgamento do recurso de Mladić, em 2021.

Mladić no aeroporto de Sarajevo em agosto de 1993 para negociar a retirada das suas tropas do Monte Igman (Foto: Gabriel Bouys / AFP)
Cultivava a imagem de “um homem simples” escolhido para proteger o seu povo. “O destino colocou-me numa posição de defender o meu país, que vocês, potências ocidentais, devastaram com a ajuda do Vaticano e da máfia ocidental”, declarou numa audiência de recurso em 2020.
No entanto, supervisionou o cerco à capital bósnia, Sarajevo, durante mais de três anos, com os seus atiradores e projéteis de artilharia a matar milhares de homens, mulheres e crianças nas ruas e nas casas.
E as imagens de vídeo de Srebrenica mostram-no a tranquilizar um rapaz muçulmano de 12 anos, pouco antes de os seus soldados massacrarem milhares de civis. Também é visto a regressar a uma Srebrenica deserta, dizendo à câmara: “Damos esta cidade ao povo sérvio como um presente”.
“Narcisista, vaidoso, presunçoso e arrogante”

Mladić no quartel de Lukavica, nos arredores de Sarajevo, a 15 de fevereiro de 1994 (Foto: Pascal Guyot / AFP)
Mladić mal tinha nascido quando a sua vida foi marcada para sempre pelo conflito. Nasceu durante a II Guerra Mundial em Kalinovik, no leste da Bósnia – a maioria dos relatos diz que foi em 1942, mas Mladić declarou ao tribunal que, na verdade, nasceu em 1943. O seu pai foi morto no amargo fim da guerra, lutando pelo Marechal Tito, o líder que conseguiu unir o Estado multiétnico da Jugoslávia e suprimir as rivalidades latentes.
Segundo a maioria dos relatos, Mladić sempre quis ser soldado. Partiu para o treino militar em Belgrado no início da década de 1960, tornando-se oficial aos 22 anos e ascendendo ao comando das forças sérvias da Bósnia durante a guerra. Embora fosse venerado pelos seus homens, o antigo porta-voz do Exército jugoslavo, Ljubodrag Stojadinovic, descreveu-o, em tempos, como “narcisista, vaidoso, presunçoso e arrogante”.
Durante a guerra, deixou os negociadores internacionais perplexos com os seus discursos desconexos sobre a história da Sérvia. Nos últimos dias da guerra, aliados próximos questionaram as suas faculdades mentais. “Eu respeitava o General Mladić como soldado e como homem”, contou o falecido ex-presidente montenegrino Momir Bulatovic num documentário da BBC na década de 1990. “Mas, após três anos de guerra, perdera o contacto com a realidade”, acrescentou.
Vida de luxo até a captura

Foto do jornal sérvio “Politika” mostra Mladic no dia em que a Sérvia anunciou, a 26 de maio de 2011, a sua detenção (Foto: Jornal “Politika” / AFP)
Mladić foi destituído do cargo depois de ter sido acusado em 1995, mas conseguiu escapar à captura por mais 16 anos. A princípio, levava uma vida de luxo, mimado pelos militares sérvios, mas a pressão sobre ele aumentou após a queda de Milošević do poder em 2000.
Foi finalmente detido em maio de 2011 na casa de campo do seu primo, no norte da Sérvia. O seu último pedido antes de ser transferido para o tribunal foi visitar o túmulo da filha, Ana.
A filha suicidou-se em 1994, aos 23 anos. Alguns relatos afirmam que ela não suportou a vergonha dos crimes cometidos pelo pai, embora a família de Mladić conteste esta versão.
Durante todo este tempo, a sua reputação cresceu, e a sua liderança em tempo de guerra foi imortalizada em murais por toda a República Sérvia (Republika Srpska) – a entidade sérvia dentro da Bósnia.

Mural que retrata Mladić em Belgrado, Sérvia (Foto: Andrej Cukic / EPA)
“Penso que este veredicto catapultou o general Mladić diretamente para o estatuto de lenda”, disse o líder da República Sérvia, Milorad Dodik, após a confirmação da sua sentença de prisão perpétua. “Os sérvios sabem que, sem ele, o nosso povo teria sofrido muito mais”, completou.
Outros discordam. “Onde quer que o seu Exército chegasse, onde quer que as suas botas pisassem, cometiam genocídio”, disse Munira Subasic, presidente de uma das associações Mães de Srebrenica.






