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Alguma vez sentiu que pretendia usar o telemóvel apenas por instantes e, por vezes sem dar conta, passou muito tempo a “deslizar” o ecrã por notícias negativas? Já teve a sensação de que periodicamente deve ir ao telemóvel, PC ou tablet verificar se há notícias novas sobre as atuais guerras ou desastres naturais? Comportamentos repetitivos como estes, quando frequentes, persistentes e/ou intensos, podem sugerir doomscrolling. Um fenómeno para o qual ainda não há sinónimo em português e que remete para o consumo sistemático, prolongado, reiterado e predominantemente negativo de conteúdos informativos nas plataformas digitais, particularmente nas redes sociais e sites informativos.
A popularização do doomscrolling ocorreu durante a pandemia de COVID-19, num contexto de elevada incerteza global e procura intensa por informação atualizada. Contudo, este fenómeno insere-se num quadro sociocultural mais amplo impulsionado pela atual digitalização massiva, pelo imediatismo informacional e pelo acesso contínuo a conteúdos em tempo real, possibilitado por smartphones e por plataformas digitais. Neste ecossistema mediático, os algoritmos tendem a privilegiar conteúdos emocionalmente intensos, frequentemente negativos, favorecendo ciclos de exposição prolongada a informação ameaçadora.
A ansiedade, por sua vez, é uma resposta psicofisiológica que tem por base a emoção do medo, caracterizada por sentimentos de apreensão, tensão e ativação fisiológica. Quando vivenciada de forma adaptativa, a ansiedade funciona como um catalisador, permite-nos reagir a eventos inesperados, permite-nos agir, preparar respostas perante potenciais ameaças, garantindo a nossa sobrevivência e autopreservação. Quando vivenciada de forma menos adaptativa, a ansiedade pode gerar preocupação excessiva, persistente e desproporcional face à ameaça real, dificuldade em controlar essa preocupação e sintomas como irritabilidade, inquietação, tensão muscular, tonturas, sensação de falta de ar e um aumento significativo do batimento cardíaco, prejudicando o funcionamento diário das pessoas no âmbito social, laboral ou familiar, aumentando o sofrimento e podendo ser considerada patológica.
A literatura recente indica, ainda, que o contexto atual, dominado por ameaças difusas e constantes, derivadas de conflitos armados, crises económicas e outros fenómenos temíveis, disseminados de forma abrangente e repetitiva, pode favorecer a ativação continuada de preocupação, incentivando estados de vigilância permanente e desgaste emocional nas pessoas, ajudando a perceber a possível relação entre o doomscrolling e sintomas de ansiedade.
Estudos recentes indicam que a procura constante de informação pode representar uma tentativa de reduzir incerteza e recuperar a sensação de controlo. Assim, o doomscrolling pode funcionar como um comportamento de segurança: ao manter-se permanentemente atualizado, a pessoa sente-se, ainda que de forma ilusória, mais preparada para lidar com o potencial perigo. Daí o “medo de perder algo” e a tendência para se manter por mais tempo online. Esta dinâmica está associada à hipervigilância, mecanismo frequentemente observado nas perturbações de ansiedade. Contudo, a exposição repetida a conteúdos negativos tende a aumentar a ativação ansiosa, reforçando o ciclo comportamental: a ansiedade leva à procura de informação, a informação aumenta a ansiedade, e esta, por sua vez, intensifica a necessidade de continuar a procurar atualizações.
Estudos desenvolvidos nos Estados Unidos, na Turquia e na Alemanha têm verificado uma associação clara entre o maior consumo de notícias relacionadas com ameaças globais e níveis mais elevados de ansiedade, stress e depressão. Os comportamentos de doomscrolling revelam associação com níveis mais altos de intolerância à incerteza e mais baixos de resiliência. Os estudos destacam também que a privação temporária dos meios digitais em pessoas com hábitos de doomscrolling pode gerar irritabilidade, inquietação e aumento dos sintomas de ansiedade, sugerindo que, em alguns casos, o comportamento assume características próximas de dependência comportamental.
Considerando o comportamento de doomscrolling um fenómeno potencialmente crescente, e estando diretamente associado a sintomas de ansiedade disfuncional quando posto em prática de forma frequente, persistente e/ou com grande intensidade, importa prevenir o seu início e saber reduzir o seu impacto. O doomscrolling é um comportamento que pode diminuir bastante o seu bem-estar geral. Se sentir falta de controlo sobre o seu consumo de notícias/conteúdos informativos negativos peça ajuda a um psicólogo.
Sugestões
- Defina horários específicos para o consumo de notícias. Reduzir gradualmente a exposição continuada ao consumo de notícias negativas até conseguir ter horários bem definidos (por exemplo, apenas dois momentos de 15 minutos por dia) ajuda a ganhar controlo sobre o comportamento. Para atingir este objetivo, pode ser útil utilizar aplicações de monitorização de tempo de ecrã para aumentar a consciência comportamental.
- Desative notificações não essenciais do telemóvel. Os alertas automáticos do telemóvel são opcionais e, muitas vezes, ativados por defeito. Trata-se de restabelecer limites. Não se esqueça que o objetivo é que use o seu dispositivo e que não seja o dispositivo que o use a si.
- Estabeleça zonas livres de ecrãs. Tente não usar o telemóvel ou outros dispositivos eletrónicos em lugares como a mesa de refeições ou a mesa de cabeceira. Coloque os dispositivos a uma distância mínima de três metros e mantenha-os fora do seu alcance fácil.
- Evite o consumo de notícias antes de dormir. A ativação emocional noturna interfere na qualidade do sono.
- Selecione fontes credíveis e limite a diversidade excessiva de canais de informação. Reduzir a sobrecarga informativa é essencial para o seu bem-estar. Seguir fontes de informação fiáveis e evitar sites sensacionalistas reduz o viés de negatividade.
- Substitua o doomscrolling por atividades reguladoras, como exercício físico, leitura ou contacto social presencial. As pausas de exposição aos meios digitais ajudam a restaurar o controlo da sua atenção.
- Invista em resiliência emocional. A investigação mostra que a meditação e exercícios de mindfulness fortalecem a tolerância à incerteza.
- Foque a sua atenção também em conteúdos positivos e educativos. Equilibrar a qualidade da informação no seu feed ou perfil de visualização ajuda a recalibrar a sua perceção do mundo.
- Mude o seu telemóvel para escala de cinzentos ou redução de brilho. Estudos preliminares mostram que este tipo de visualização torna o ato de deslizar pelo ecrã menos apelativo. Reduzir a intensidade das cores tende a diminuir o tempo de ecrã.
- Procure apoio psicológico quando o comportamento gere sofrimento significativo ou sintomas ansiosos persistentes. Procurar ajuda precocemente e antes que os sintomas de ansiedade se agravem é importante para o tratamento.
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