As falhas policiais permitiram que Anna Podedworna escapasse à justiça desde 2010. Foi a persistência da filha da vítima e de um jornalista polaco que revelou o crime hediondo em Derby.
O número 113 da Princes Street é uma casa geminada comum em Derby. O bairro de Pear Tree é uma zona de diversidade e transição, onde os moradores raramente criam raízes. Ninguém na rua se recorda do jovem casal polaco que ali se instalou em 2010: Anna Podedworna e Izabela Zablocka. Procuravam trabalho e uma vida melhor, mas apenas uma delas sairia dali viva.
Hoje, os novos inquilinos conhecem o passado macabro da habitação. “O senhorio avisou-nos que alguém tinha sido assassinado aqui”, conta um residente. Contudo, nem todos os crimes deixam um corpo enterrado sob o betão do quintal durante 15 anos.

O desaparecimento silencioso
A 28 de agosto de 2010, Izabela, de 30 anos, fez a última chamada para a família na Polónia. Estava infeliz; a relação com Anna deteriorava-se devido a ciúmes e problemas financeiros. Izabela ponderava regressar ao seu país para junto da mãe e da filha, Katarzyna, então com nove anos. Após essa chamada, o silêncio instalou-se.
O que se seguiu foi um ato de barbárie. Segundo a confissão tardia de Anna Podedworna, uma discussão violenta terminou com Anna a atingir Izabela na cabeça com uma estátua de um cavalo. Talhante de profissão, Anna utilizou as suas competências técnicas para desmembrar o corpo da companheira, ocultando os restos mortais em sacos de lixo que enterrou no jardim, cobrindo a cova com cimento.

As falhas críticas das autoridades
A 4 de setembro de 2010, dia do seu 10.º aniversário, Katarzyna esperou em vão pelo telefonema da mãe. Perante o desaparecimento, a família contactou Anna, que mentiu prontamente, afirmando que Izabela se tinha ido embora para Londres.
Apesar de um primo ter tentado registar o desaparecimento numa esquadra em Londres, as falhas de comunicação foram fatais para a investigação. A polícia de Derby realizou uma visita de rotina à residência, mas aceitou a explicação de Anna sem questionar. Não foi aberto qualquer inquérito formal por desaparecimento. Para as autoridades britânicas, Izabela tinha simplesmente “evaporado”.
Uma vida dupla e a “redenção” religiosa
Durante 15 anos, Anna continuou a sua vida a poucos quilómetros do local do crime. Trabalhou numa fábrica de perus, constituiu uma nova família e teve dois filhos. Os vizinhos recordam-na como uma mulher “estranha e reservada”, que evitava contactos sociais.
Em 2022, os seus diários revelavam uma viragem para o fanatismo religioso. “Aceito que pequei contra um Deus perfeito”, escreveu, referindo-se ao “caso de IKZ” (Izabela) como algo “encerrado por motivos familiares” perante a vontade divina.

A persistência de uma filha e o cerco final
A justiça não chegou pela mão da polícia, mas sim pela tenacidade de Katarzyna Zablocka. Já adulta, a filha da vítima utilizou as redes sociais e organizações de apoio a pessoas desaparecidas na Polónia para manter o caso vivo.
O jornalista de investigação Rafal Zalewski, da estação polaca Polsat, decidiu confrontar Anna em Derby. A pressão mediática e o medo de que o crime prescrevesse na Polónia (onde a lei é diferente da britânica) levaram Anna ao colapso. Em maio de 2025, enviou uma mensagem enigmática à polícia de Derbyshire solicitando um intérprete e um advogado.

O desfecho
Após a escavação do jardim na Princes Street, as autoridades confirmaram a descoberta de restos humanos. Embora a decomposição de 15 anos tenha impossibilitado a determinação exata da causa da morte, as provas de obstrução à justiça e a confissão foram suficientes.
A 11 de fevereiro de 2026, Anna Podedworna foi condenada a prisão perpétua, com uma pena mínima de 21 anos. No tribunal, manteve-se fria, revelando emoção apenas quando falava de si mesma. Para Katarzyna, o desfecho traz um encerramento amargo: “Tinha a certeza de que a minha mãe nunca me deixaria por vontade própria. Tenho orgulho em ter lutado por ela.”
Redação com telegraph.co.uk






