O resgate de Hernán Gil, nesta quinta-feira ao início da tarde, foi um dos momentos mais emotivos da presença portuguesa nas operações de resgate após o duplo sismo na Venezuela. O homem, segurança num centro comercial, esteve oito dias preso sob os escombros de um parque de estacionamento em la Guaira, estado no centro-norte do país, declarado zona de catástrofe.
Num trabalho minucioso, com extremo cuidado para evitar deslocamento de materiais, equipas de sete países, incluindo de Portugal, trabalharam vários dias sem descanso para resgatar Hernán, numa missão coroada de sucesso nesta quinta-feira.
Dezenas de pessoas envolvidas no salvamento juntaram-se para assistir à retirada do vigilante que ficou preso na cabine de segurança do terceiro piso do parque de estacionamento do Centro Comercial Playa Grande, em Catia La Mar, onde trabalhava como segurança. A estrutura tinha sete andares.
Palmas, abraços e sorrisos pontuaram o fim de uma missão de resgate que apaixonou o Mundo horas a fio, com diretos permanentes de um grande contingente de jornalistas. No salvamento de Hernán Gil estavam elementos da proteção civil de EUA, Chile, Cruz Vermelha venezuelana e elementos da Força Operacional Conjunta (FOCON).
Com oito anos de experiência e parte ativa nesta operação de salvamento, estava o major Filipe Costa, coordenador da Unidade de Emergência de Proteção e Socorro (UEPS), da GNR, da Força Operacional Conjunta Portuguesa (FOCON), composta por 62 pessoas que se deslocaram para a Venezuela na sequência dos sismos.
Sobre o trabalho das equipas de resgate portuguesas, Costa revelou ao JN que o local onde Hernán se encontrava era “muito complicado”, por apresentar “perigos de diferentes naturezas”. Tratava-se da “estrutura de um edifício muito instável”. Por isso, em termos de segurança para os socorristas e para a vítima, era uma situação “muito delicada” e que obrigou as equipas a trabalhar de forma cautelosa.
Ainda antes do resgate, foi possível falar com Hernán. Uma das tentativas de comunicação foi registada num vídeo publicado pela Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil. Através de duas aberturas, era possível ver a distância que separava os operacionais do piso seguinte, onde se encontrava o homem soterrado.
No vídeo divulgado antes do resgate, um dos operacionais diz-lhe em “portuñol”: “Hernán, fala comigo. Boas tarde” e ouve-se uma resposta. “Boas tardes”. Em seguida, perguntam-lhe se vê a luz de uma lanterna e a vítima responde: “Agora não consigo vê-la porque estou deitado, mas posso deslocar-me para lá”. Rapidamente, o socorrista diz-lhe: “ainda não, fica onde estás, está bem?”
Para o manter vivo e com um mínimo de saúde, as equipas de resgate conseguiram dar-lhe água, alimentação e medicamentos através de uma sonda. “Encontra-se num estado delicado, mas não apresenta ferimentos graves», revelou o major da GNR.
Para abrir caminho até Hernán, utilizavam principalmente martelos, pás e ferramentas manuais, já que “outro tipo de ferramentas hidráulicas ou elétricas provoca muita vibração na estrutura, que pode cair ou desmoronar-se”, acrescenta. A delegação portuguesa não contactou diretamente a família de Hernán, mas os meios de comunicação social relatam que a sua esposa, Gusbimar González, agradeceu publicamente as ações para o resgate do companheiro.
“Embora já tenhamos participado noutras operações em 2023, como no terramoto na Turquia, sem dúvida que este teatro de operações tem sido muito complicado”, salientou Filipe Costa.
Pela primeira vez em La Guaira
Esta é a primeira visita de Costa à Venezuela. À sua volta, tem visto muitas pessoas preocupadas e curiosas com o que está a acontecer. Na zona, muitas perceberam que havia alguém vivo lá dentro e o resgate aconteceu esta quinta-feira, ao início da tarde (em Portugal continental).
Embora a equipa portuguesa seja autónoma, várias entidades e portugueses têm ajudado os operacionais na medida das suas possibilidades. Este contingente dispõe de comida, água e uma base de operações em Catia La Mar. “Temos tido um forte apoio da comunidade venezuelana”, salienta o militar.
“Foi uma situação muito trágica; toda a sociedade venezuelana tem um longo caminho a percorrer, como seria de esperar, para se recompor. Penso que, com o trabalho de todos e com a ajuda de outras entidades nacionais e internacionais, é possível que consigam regressar à normalidade o mais rapidamente possível”.
O contingente português é composto por elementos da UEPS, da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC) e do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM).
De acordo com dados oficiais recentes, nas zonas afetadas encontram-se mobilizadas 43 832 pessoas, entre efetivos e voluntários. A este número acrescentam-se os 4099 operacionais internacionais que chegaram ao país.
Redação com JN.PT






