Em Portugal, uma pessoa solteira e sem filhos com salário médio vê 21,8% do rendimento bruto anual ser absorvido por impostos e outras deduções obrigatórias. Segundo a Euronews Business, com base em dados do Eurostat relativos a 2025 e divulgados em meados de 2026, o rendimento bruto anual considerado para Portugal é de 25.187 euros, enquanto o rendimento líquido fica nos 19.709 euros.
Na prática, isto significa que cerca de 5.478 euros ficam pelo caminho ao longo do ano, entre impostos e contribuições obrigatórias. Ainda assim, Portugal surge abaixo da média da União Europeia, onde 29,1% do salário bruto de uma pessoa solteira e sem filhos é absorvido por impostos e outras deduções.
O estudo da Euronews Business compara quanto do salário bruto os trabalhadores europeus levam efetivamente para casa depois de impostos e contribuições obrigatórias. Para isso, foi calculado o rendimento líquido anual enquanto percentagem do rendimento bruto, permitindo apurar a parcela do salário que fica retida em impostos e outros descontos.
Portugal abaixo da média europeia
No retrato europeu, Portugal aparece no grupo de países onde menos de um quarto do salário bruto é absorvido por impostos e deduções. Com 21,8%, o país fica próximo da Chéquia e da Irlanda, ambas com 21,6%, e de Espanha, com 22,1%.
Também abaixo dos 25% surgem Bulgária, com 22,4%, Malta, com 23,1%, Estónia, com 23,2%, Itália, com 24,1%, Suécia, com 24,5%, e Eslováquia, com 24,6%.
A média da União Europeia é significativamente mais elevada. No conjunto dos Estados-membros, o rendimento bruto anual médio é de 37.958 euros, enquanto o rendimento líquido é de 26.929 euros. Ou seja, em média, 11.029 euros do salário bruto anual são absorvidos por impostos e outras deduções.
Romania lidera carga sobre salários
A percentagem do salário bruto que fica em impostos e deduções varia muito entre países. Para uma pessoa solteira e sem filhos com salário médio, o valor mais baixo é registado em Chipre, onde a parcela retida é de 15,1%. Logo a seguir surge a Grécia, com 17,0%.
No extremo oposto está a Roménia, onde 41,5% do rendimento bruto é absorvido por impostos e outras deduções. É o valor mais elevado entre os países analisados.
Além da Roménia, há seis países onde mais de um terço do salário bruto fica retido em impostos e deduções: Lituânia, com 39,1%, Bélgica, com 37,6%, Eslovénia, com 36,9%, Alemanha, com 34,8%, Dinamarca, com 34,0%, e Hungria, com 33,5%.
Luxemburgo, com 32,6%, e Croácia, com 31,5%, também ficam acima da média da União Europeia.
Ter filhos muda as contas
A composição do agregado familiar altera de forma relevante a percentagem do salário absorvida por impostos e deduções. Em Portugal, no caso de um casal com dois filhos e apenas um rendimento, a parcela do salário bruto destinada a impostos e deduções baixa para 5,7%.
Já num casal com dois rendimentos e dois filhos, o peso das deduções em Portugal sobe para 18,1%. Mesmo assim, continua abaixo dos 21,8% registados para uma pessoa solteira e sem filhos.
Este padrão verifica-se também a nível europeu. No caso de casais com dois filhos e apenas um rendimento, a média da União Europeia desce para 8,0%, muito abaixo dos 29,1% registados para trabalhadores solteiros sem filhos.
Em alguns países, o valor chega mesmo a ser negativo, o que significa que o rendimento líquido supera o rendimento bruto devido a apoios familiares e reembolsos fiscais. É o caso da Grécia, com -3,3%, e da Polónia, com -0,6%.
Alemanha mostra maior diferença entre agregados
Entre os países analisados, a Alemanha destaca-se pela diferença entre trabalhadores solteiros e famílias com filhos. Para uma pessoa solteira e sem filhos, 34,8% do salário bruto é absorvido por impostos e deduções. Para um casal com dois filhos e apenas um rendimento, essa percentagem cai para 0,2%.
Com o mesmo rendimento bruto anual de 47.514 euros, um casal alemão com dois filhos e apenas um salário leva para casa 47.424 euros. Já uma pessoa solteira e sem filhos fica com 31.000 euros líquidos. A diferença é de 16.424 euros.
No caso dos casais com dois rendimentos e dois filhos, a percentagem do salário bruto absorvida por impostos e deduções é inferior à de uma pessoa solteira e sem filhos em todos os países da União Europeia, com exceção da Grécia.
Portugal entre os países do sul com menor peso
Entre as quatro maiores economias da União Europeia, a Alemanha apresenta a maior percentagem de salário bruto absorvida por impostos e deduções, com 34,8%. Espanha regista a mais baixa, com 22,1%.
França apresenta uma percentagem de 26,2%, enquanto Itália fica nos 24,1%. Estes valores mostram diferenças significativas entre as maiores economias europeias.
De forma geral, os países do sul da Europa tendem a apresentar percentagens mais baixas de salário bruto absorvidas por impostos e deduções. Já os valores mais elevados são mais comuns na Europa Central e Oriental. A Europa Ocidental apresenta um cenário mais misto, com Bélgica e Alemanha entre os países onde os trabalhadores ficam com uma menor fatia do salário bruto.
Imposto sobre rendimento não explica tudo
Alex Mengden, economista da Tax Foundation citado pela Euronews Business, sublinha que os países europeus tributam o trabalho de formas diferentes e que a carga global sobre o salário é mais relevante do que olhar apenas para o imposto sobre o rendimento.
O especialista dá como exemplo a comparação entre Dinamarca e Polónia. A carga fiscal sobre o trabalho na Dinamarca fica abaixo da registada na Polónia, mas a Dinamarca surge no topo quando se olha apenas para o imposto sobre o rendimento, porque a tributação laboral assenta quase exclusivamente nesse imposto.
Na Polónia, pelo contrário, as contribuições sociais têm um peso muito superior ao imposto sobre o rendimento pago por um trabalhador com salário médio.
Quanto fica do salário em Portugal?
No caso português, os dados mostram que o peso dos impostos e deduções obrigatórias depende muito do agregado familiar. Para uma pessoa solteira e sem filhos, 21,8% do rendimento bruto anual é absorvido por impostos e descontos obrigatórios.
Com um salário bruto anual de 25.187 euros, o rendimento líquido anual fica nos 19.709 euros. Isto significa que o trabalhador leva para casa cerca de 78,2% do salário bruto.
Para um casal com dois filhos e apenas um rendimento, a parcela absorvida por impostos e deduções é bastante mais baixa, ficando nos 5,7%. Num casal com dois rendimentos e dois filhos, o valor é de 18,1%.
Ainda que Portugal fique abaixo da média europeia, os dados mostram que uma parte significativa do salário bruto continua a desaparecer antes de chegar à conta dos trabalhadores, sobretudo no caso de pessoas solteiras e sem filhos.
executivedigest.sapo.pt






