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Todos os produtos agrícolas testados neste estudo deram positivo para pesticidas. Há inclusive químicos que “duram para sempre”

Lembre-se: todos os produtos, mesmo os biológicos, devem ser lavados antes de serem descascados, de modo a evitar a transferência de sujidade e bactérias da faca para a fruta ou o vegetal

Foram os vegetais de folha verde, como os espinafres, e as frutas favoritas das crianças, como os morangos e as uvas, aqueles que apresentaram níveis mais elevados de resíduos de pesticidas potencialmente nocivos. São conclusões para a realidade dos Estados Unidos e assentes em testes governamentais, plasmadas no Guia do Consumidor para Pesticidas em Produtos Frescos de 2026.

Nectarinas, pêssegos, cerejas, maçãs, amoras, peras, batatas e mirtilos completam a lista dos “Doze Sujos” deste ano, como as frutas e legumes mais carregados de pesticidas, segundo o relatório divulgado pelo Environmental Working Group (EWG), que é uma organização de defesa da saúde.

Os espinafres, que ocupam o primeiro lugar, apresentaram mais resíduos de pesticidas por peso do que qualquer outro tipo de produto agrícola. Continham, em média, quatro ou mais tipos de pesticidas, segundo o EWG, que publica este relatório anual desde 2004.

As amostras dos vários tipos de produtos agrícolas apresentaram, em média, quatro ou mais pesticidas. Exceção feita às batatas, que apresentaram uma média de dois. O consumo de produtos com vários pesticidas é, segundo os especialistas, preocupante, uma vez que exposição a misturas de pesticidas pode acumular-se, aumentando o risco.

Para elaborar o relatório, o EWG analisou os mais recentes testes de resíduos de pesticidas realizados pelo Departamento de Agricultura dos EUA a 54.344 amostras de 47 frutas e legumes.

Antes de esta entidade examinar cada amostra, a fruta ou o vegetal são descascados, esfregados e lavados cuidadosamente, para simular o comportamento dos consumidores em casa. Mesmo após estas etapas, os testes encontraram vestígios de 264 pesticidas — destes, 203 estavam presentes nos produtos da lista “Doze Sujos”.

Impactos dos pesticidas na saúde

Estudos anteriores demonstraram uma possível ligação entre os pesticidas e partos prematuros, malformações congénitas como defeitos do tubo neural, abortos espontâneos ou aumentos de danos genéticos em humanos. A exposição a pesticidas tem também sido associada a concentrações reduzidas de espermatozoides, doenças cardíacas, cancro e outros distúrbios.

Segundo a Academia Americana de Pediatria, as crianças são particularmente suscetíveis a contaminantes como os pesticidas, inclusive quando ainda estão no útero. A exposição a pesticidas durante a gravidez pode levar a um risco aumentado de defeitos congénitos, de baixo peso à nascença e de morte fetal. Já a exposição na infância tem sido associada a problemas de atenção e aprendizagem, bem como ao cancro.

Procure diversificar os tipos de frutas e vegetais que consome (Alexandr Kolesnikov/Moment RF/Getty Images)

Por sua vez, a Aliança para a Alimentação e a Agricultura, que representa os agricultores de produtos biológicos e convencionais, vem há muito criticando este relatório anual.

Relatórios anteriores do USDA (Departamento de Agricultura dos Estados Unidos) e da FDA (Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA) mostraram que, quando “os agricultores utilizam pesticidas, seguem as leis e regulamentos rigorosos que regem a utilização de pesticidas para fornecer frutas e legumes seguros e saudáveis ​​às famílias americanas, incluindo as deles próprios”, diz um porta-voz da AFF  – Federação Americana de Agricultores – em comunicado.

“A simples presença de resíduos não significa, de uma forma automática, que algo seja inseguro. A EPA – Agência de Proteção Ambiental dos EUA estabelece limites para os resíduos de pesticidas que já incluem amplas margens de segurança para proteger bebés e crianças”.

Químicos que duram para sempre presentes na nossa comida

Pela primeira vez, o relatório constatou que mais de 60% de todas as amostras da lista “Dirty Dozen” continham pesticidas que são também “químicos eternos”, de seu nome PFAS. Os três pesticidas detetados com mais frequência nos produtos agrícolas foram as substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas.

Os PFAS são conhecidos como “químicos eternos” porque as suas ligações moleculares podem levar anos, décadas ou até mesmo séculos a decompor-se completamente no ambiente.

“O pesticida PFAS é o ingrediente ativo nestes produtos porque é eficaz a matar organismos. É precisamente por isso que é tão preocupante para a saúde pública e para o ambiente em geral”, dizia Bernadette Del Chiaro, vice-presidente sénior de operações da EWG na Califórnia, à CNN, numa entrevista recente.

Diversos compostos químicos PFAS têm sido associados a cancro, obesidade, doenças da tiroide, colesterol elevado, diminuição da fertilidade, danos no fígado, disfunções hormonais e danos no sistema imunitário, segundo a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA). Alguns destes compostos podem causar danos em concentrações na ordem de um bilionésimo de grama.

“Infelizmente, não há forma de conter os danos”, lamentou Del Chiaro. “Não podemos pura e simplesmente prejudicar os esporos de bolor ou os que existem num insetos num pêssego sem, hipoteticamente, prejudicar a criança que o come. O facto de estarmos a pulverizar, de forma intencional, os produtos que compramos no supermercado com químicos permanentes é algo que nos devia mesmo fazer-nos abrir os olhos”.

Um porta-voz da CropLife America, que representa a indústria dos pesticidas, diz à CNN, por e-mail, que a “campanha anual de disseminação do medo promove a desconfiança no nosso sistema alimentar e nas ferramentas que os agricultores utilizam para proteger as suas culturas contra as ervas daninhas, as pragas e as doenças”.

“O facto é que mais de 99% dos produtos testados estão muito abaixo dos limites de segurança estabelecidos pela Agência de Proteção Ambiental (EPA), que consideram o padrão de ouro”, junta.

Reduzir a exposição a pesticidas vindos dos produtos agrícolas

No seu relatório anual, o EWG cria também anualmente a lista “Quinze Limpos”, que é uma lista de produtos não biológicos com a menor quantidade de resíduos de pesticidas.

Este ano, quase 60% das amostras do programa “Quinze Limpos” não apresentaram resíduos detetáveis ​​de pesticidas. O ananás, o milho doce e o abacate lideraram a lista como os produtos menos contaminados entre todos aqueles que foram testados. De seguida, vêm a papaia, a cebola, as ervilhas congeladas, os espargos, a couve, a couve-flor, a melancia, a manga, a banana, a cenoura, o cogumelo e o kiwi.

A solução não passa por deixar de comer produtos frescos, sublinham os especialistas. As frutas e os legumes são a base de uma alimentação saudável. Por isso, o segredo está em consumir o máximo possível de diferentes tipos de frutas e legumes.

Outra excelente forma de reduzir a exposição a pesticidas passa por escolher mais produtos da lista “Quinze Limpos” e menos da lista “Doze Sujos”, bem como comprar versões biológicas das 12 frutas e legumes mais contaminados, afirma Varun Subramaniam, analista científico do EWG.

Os estudos demonstraram que consumir mais alimentos biológicos do que alimentos cultivados de uma forma convencional pode contribuir para reduzir os níveis de pesticidas presentes nos seres humanos, acrescenta.

“Há também, muitas vezes, opções orgânicas na secção de congelados”, diz Subramaniam. “Contudo, se não encontrar versões orgânicas de amoras, por exemplo, sabemos que toda e qualquer lavagem é sempre melhor do que não fazer nenhuma”.

Segundo a Administração de Alimentos e Medicamentos dos EUA (FDA), todos os produtos, mesmo os biológicos, devem ser lavados antes de serem descascados, de modo a evitar a transferência de sujidade e bactérias da faca para a fruta ou o vegetal. Após a lavagem, seque com um pano limpo ou com papel de cozinha.

Produtos firmes, como cenouras, pepinos, melões e batatas, podem ser esfregados com uma escova de legumes limpa em água corrente, segundo a FDA. Todos os outros produtos podem ser esfregados de uma forma suave enquanto são enxaguados. Não há necessidade de utilizar lixívia, sabão ou produtos de limpeza específicos para frutas e legumes — são porosos e podem absorver estes químicos.

Retire as folhas mais de fora da couve, da alface e de outras verduras de folha e lave cada uma delas cuidadosamente — mas não deite água em excesso, ou vai acabar por dar cabo delas.

Os especialistas afirmam que o ideal é utilizar água a baixa pressão e que esteja mais quente do que os legumes, bem como um escorredor para os secar. Não se esqueça é de lavar o escorredor depois. A exceção são as folhas verdes embaladas que já foram submetidas a tripla lavagem, que, segundo a FDA, não necessitam de mais uma passagem por água.

Redação com Cnn Portugal