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Um desgosto de amor pode afetar uma pessoa de cinco formas diferentes. Saiba o que sugere um especialista para se começar a sentir melhor

“Uma das coisas que mais ajuda é voltar a ligar-se a outras pessoas de quem gostamos”, afirma Yoram Yovell, psiquiatra e neurocientista.

O desgosto amoroso é algo por que a maioria das pessoas passará em algum momento da vida. De facto, mais de 80% das pessoas terão o coração partido na sequência do fim de uma relação amorosa, sugerem os estudos. Mas esse sofrimento também pode resultar de amizades que se vão perdendo ou da morte de alguém próximo.

Para muitas pessoas, essa dor não é apenas emocional; pode manifestar-se fisicamente. É frequentemente descrita como falta de ar, um aperto no estômago ou até dificuldade em dormir.

“Pergunte a alguém que conheça qual foi a coisa mais dolorosa que alguma vez lhe aconteceu na vida”, disse recentemente à CNN Yoram Yovell, psiquiatra e neurocientista, numa conversa com Sanjay Gupta no podcast Chasing Life. “Não lhe vão falar de um acidente de viação ou de uma cirurgia, mas sim de alguém que amaram e perderam.”

Yovell é professor associado de neurociência clínica no Centro Médico Hadassah Ein Kerem, da Universidade Hebraica de Jerusalém. O seu interesse em compreender e tratar a dor emocional é também pessoal.

Quando o pai morreu de cancro, Yovell tinha apenas 14 anos.

“Continuo a lembrar-me de quanto doeu”, disse. “Era como uma pressão esmagadora, como se tivesse algo pesado em cima do peito. Ficou comigo durante muito tempo. Ainda hoje, quando penso nele, sinto uma pequena pontada.”

No entanto, o desgosto amoroso não tem de durar para sempre. Mas o impulso que muitas pessoas têm de se afastar, isolar e fechar-se, disse Yovell, é muitas vezes o contrário daquilo que ajuda à recuperação.

“Uma das coisas que mais ajuda é voltar a ligar-se a outras pessoas de quem gostamos”, afirmou.

O inverso também é verdadeiro: se alguém de quem gosta estiver a passar por isso, não desista dessa pessoa.

“Tem o poder de consolar pessoas próximas que estejam em sofrimento físico ou emocional profundo”, disse. A presença de um amigo ou familiar carinhoso desencadeia a libertação de endorfinas, neurotransmissores no cérebro que funcionam como analgésicos naturais e melhoram o humor.

Por isso, recomenda que se entre em contacto com o amigo de coração partido, que se convide essa pessoa a sair e que se lhe mostrem outras possibilidades. “Não desanime se ela o afastar”, acrescentou. “O nosso papel é estar lá para ela.”

E, quando sente que é a altura certa, Yovell diz que muitas vezes incentiva os seus doentes a abrirem-se novamente ao amor. “O coração é forte”, afirmou. “Dói, é verdade. Mas o coração consegue sarar, e continuam a existir pessoas que gostam de si.”

Pode ouvir aqui o episódio completo.

Então, o que acontece no corpo quando se vive um desgosto amoroso? Eis cinco formas pelas quais, segundo Yovell, a ciência o tem vindo a explicar.

O amor magoa porque é suposto magoar

É a velha questão: amar dói sempre?

“Sim, claro!”, disse Yovell. “O amor é normalmente belo, certo? Mas, a certa altura, vai magoar. E, se não magoar, então talvez não seja amor.”

Ele descreve a dor mental como uma espécie de “supercola”, o mecanismo que cria a angústia que sentimos quando alguém de quem gostamos se afasta. Essa dor evoluiu por uma razão: leva-nos a agarrar-nos aos laços importantes com parceiros, filhos, família e comunidade.

“A dor mental é simplesmente o preço elevado que pagamos pela nossa capacidade de amar”, disse. “E, pessoalmente, acho que vale a pena.”

O seu cérebro trata o desgosto amoroso como se fosse uma lesão física

Aquela sensação esmagadora no peito não é imaginária.

“Uma das conclusões mais importantes da investigação sobre a neurobiologia do amor é que os mecanismos cerebrais da dor física e da dor emocional se sobrepõem de forma significativa”, explicou Yovell.

As mesmas regiões cerebrais envolvidas na dor física ativam-se durante sofrimento emocional, como a exclusão social e a solidão, segundo um estudo com ressonância magnética funcional. Quando alguém de quem gostamos nos deixa ou não corresponde aos nossos sentimentos, o cérebro reage de forma surpreendentemente semelhante à de uma lesão física, disse.

Em casos raros, o desgosto amoroso pode até desencadear uma miocardiopatia de takotsubo, muitas vezes chamada “síndrome do coração partido”, uma condição cardíaca temporária que imita um ataque cardíaco.

O cérebro tem um alarme interno para a separação

O seu cérebro está programado para fazer soar o alarme perante uma rutura ou separação.

O sistema cerebral da “perda” provoca sentimentos como tristeza, ansiedade e até depressão quando perdemos alguém de quem gostamos, disse Yovell. “Governa o vínculo corajoso entre um bebé e a mãe e é intensamente ativado quando há separação de uma pessoa amada.”

Numa perspetiva evolutiva, esse sistema ajuda a manter as pessoas ligadas entre si, disse Yovell, acrescentando que o sofrimento que podemos sentir quando os vínculos estão ameaçados nos empurra para tentar repará-los.

Os vínculos formados no início da vida podem até moldar a forma como se vive o amor e a ligação aos outros em adulto, influenciando a maneira como se reage à perda e ao desgosto mais tarde, acrescentou.

“Aquilo a que chamamos um estilo de vinculação ansioso-dependente na infância predispõe a este tipo de vinculações desajustadas na idade adulta”, disse a Gupta.

As endorfinas são o medicamento natural do cérebro para o desgosto amoroso

O cérebro tem uma forma de aliviar a dor emocional: as endorfinas.

Estas substâncias naturais funcionam como defesa do cérebro tanto contra o sofrimento físico como emocional, atuando sobre determinados recetores opióides envolvidos na dor, na euforia e na sedação, explicou Yovell por e-mail.

Descreveu-as a Gupta como “os opióides da própria natureza, que são tremendamente melhores do que os narcóticos”.

É por isso que voltar a ligar-se a amigos e familiares não é apenas uma distração, mas algo que pode ajudar verdadeiramente a recuperar, porque essas interações produzem endorfinas.

O exercício físico funciona de forma semelhante. O movimento pode estimular a libertação de endorfinas, dando ao cérebro um impulso natural e ajudando-o a lidar com a dor emocional do desgosto amoroso.

Medicamentos usados para a dor física estão a ser estudados para o desgosto amoroso

Uma vez que a dor emocional e a dor física se sobrepõem no cérebro, Yovell disse que algumas opções de tratamento também se sobrepõem. Nos casos de desgosto mais ligeiro, analgésicos sem receita médica, como o paracetamol, podem atenuar ligeiramente a dor emocional, sugerem os estudos.

Para dores emocionais mais intensas ou persistentes, medicamentos dirigidos às vias opióides do cérebro podem ajudar. “É possível tratar a dor mental com narcóticos”, disse Yovell a Gupta — mas sublinha que não são uma solução segura a longo prazo.

Num estudo de 2016 liderado por Yovell, foram administradas doses extremamente baixas do opióide sintético buprenorfina a pessoas com dor emocional intensa. As pessoas que receberam o medicamento relataram menos dor mental e menos pensamentos suicidas do que os participantes que receberam placebo, concluiu o estudo. “Isso funciona quando a dor é intensa”, disse.

Yovell, ainda assim, também sublinhou que a angústia mental tem uma função.

“Acho que a dor mental aguda é uma grande coisa”, afirmou. “Permite perceber de quem realmente gostamos. Pode impedir-nos de fazer coisas impulsivas.”

Mas, quando essa dor se torna crónica, quando deprime as pessoas ou as torna suicidas, diz ele, a psiquiatria tem de a tratar da mesma forma que a medicina trata a dor física crónica: com cuidado e acompanhamento próximo.