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Viver o luto após os 60. Quando a dor é “normalizada, silêncio preocupa”

O GriefDiff, um projeto inédito de um grupo de investigadores do Instituto Superior de Psicologia Aplicada (ISPA), pretende descobrir soluções para ajudar os mais velhos a lidar com a dor de uma perda. O intuito é respeitar a forma como cada pessoa gere o luto e encontrar respostas precoces.

Nunca pensei que a velhice fosse tão triste”. A afirmação é de Maria, mulher que perdeu, no final do ano passado, o irmão, aquele que foi o seu companheiro de toda a vida. Com 70 anos, e solteira, Maria sempre viveu na companhia de Manuel, também ele solteiro. Quando Manuel morreu, vítima de doença prolongada, Maria bateu de frente com a solidão.

Em Portugal, quase um quarto da população tem 65 ou mais anos e continua a viver o sofrimento em silêncio. É a pensar neles que um grupo de investigadores do ISPA – Instituto Universitário, em Lisboa, lançou o “GriefDiff”, um projeto que visa testar um modelo comunitário de apoio ao luto, desenhado especificamente para pessoas com 60 ou mais anos. O projeto é inédito.

O luto depois dos 60

David Neto, mentor do “GriefDiff”, esteve à conversa com o Notícias ao Minuto para explicar melhor em que é que o projeto consiste. Segundo o investigador,  “a esmagadora maioria das pessoas atravessa o luto sem precisar de um apoio específico, dado que o luto é um processo normal, todos passamos por ele”. Contudo, alerta, “cerca de uma em cada dez pessoas que perdem alguém próximo pode desenvolver aquilo a que chamamos luto prolongado”, que acaba por estar associado a casos de depressão e ansiedade.

Esta situação pode agravar-se em pessoas que estão a lidar com o luto depois dos 60 anos. “Como a morte é mais comum nestas idades, assumimos que a pessoa ‘já está preparada’, que lida melhor. E é precisamente por causa dessa falta de atenção que as consequências acabam, muitas vezes, por ser mais sérias.

“Nas pessoas mais velhas, à dor da perda juntam-se muitas vezes a solidão, a redução da rede social, problemas de saúde e maior dependência no dia a dia. Quando se perde um cônjuge ou um irmão, perde-se às vezes a principal fonte de apoio emocional e prático — e isso agrava tudo o resto”, refere o professor, que diz que este projeto nasce precisamente para responder a esse vazio.

Solidão e a perceção da morte ali tão perto

A solidão é, assim, um dos fatores centrais do luto. “As pessoas mais velhas vivem muitas vezes uma redução das suas redes sociais — pela saída do contexto profissional, pela perda de pessoas da mesma geração, pela menor participação em atividades. E o luto agrava esse afastamento”, faz sobressair o especialista, lembrando que muitas vezes, nestas idades, “perde-se alguém que era, muitas vezes, o principal elo de ligação ao mundo”.

“Por isso é que uma resposta comunitária, que vá ao encontro das pessoas nos seus bairros e nas suas rotinas, faz tanto sentido”, explica David Neto, acrescentando que “não é a idade em si que torna o luto pior; é o contexto que rodeia essa perda nesta fase da vida”.

Outra questão poderá estar relacionada com a perceção de que a morte, para quem vive o luto, também pode estar perto. “Essa dimensão existe, sem dúvida, e cada perda traz consigo essa espécie de ensaio da nossa própria finitude”, porém, salienta, o objetivo deste projeto é perceber a resposta da comunidade ao luto e não tanto o foco no confronto interior.

Há quem viva décadas em luto

Paula Brito Monteiro e Teresa Lima Matos são duas das participantes do projeto que partilharam um pouco do seu processo de luto. A primeira perdeu o marido e a segunda a mãe. Ambas sentiram a necessidade de seguir em frente, cuidar de quem estava à volta até ao dia em que o corpo as obrigou a parar.

Paula recorda a falta de choro nos primeiros meses após a morte do companheiro. De repente, ficou com dois filhos menores a cargo, e a sua prioridade foi seguir em frente. Em pouco tempo, o corpo ressentiu-se, e um estado de depressão levou-a a uma anorexia grave. Hoje, reconhece, “devíamos ter parado, devíamos ter chorado” e defende: “É tão legitimo sermos infelizes como estamos alegres” e é preciso parar “para vivermos aquilo”.

Já Teresa perdeu a mãe aos 18 anos. Depois disso, “esteve 40 anos de luto” por uma situação com a qual não consegue lidar. No dia em que a mãe morreu, Teresa não a foi visitar. Foi o primeiro dia, de todo o internamento, em que faltara a uma visita. Durante anos Teresa preferiu focar-se neste pormenor, ao invés de lembrar todos os outros dias em que nunca falhara à sua progenitora.

É a pensar em casos destes que o GrieffDiff se quer focar. “A fronteira entre o luto normal e o luto prolongado não é uma linha nítida — é uma diferença contínua, de grau. Isso torna o desafio mais exigente”, comenta David Neto, referindo que a “a ideia de partida [do projeto] é simples: nem todas as pessoas precisam do mesmo tipo de apoio, na mesma intensidade, no mesmo momento”.

Sofrimento não deve ser encarado como algo natural

Embora a experiência emocional do luto, seja transversal a todas as idades, o projeto GrieffDiff pretende entender “a forma como esse sofrimento se entrelaça com outras dimensões da vida”.

“Nestas idades, o luto manifesta-se com frequência também no corpo e na saúde, no aumento do isolamento, numa certa retração da vida social. E há um risco acrescido: o de o sofrimento ser interpretado, pela própria pessoa e por quem a rodeia, como uma parte ‘natural’ de envelhecer. Quando isso acontece, a dor é normalizada, não é falada, e a pessoa não procura ajuda. É esse silêncio que nos preocupa”, concretiza.

David Neto e a sua equipa querem, assim, “caminhar para respostas menos hospitalocêntricas, mais centradas na prevenção, na intervenção precoce e na proximidade” e , “acima de tudo, afirmar uma ideia simples: o direito ao luto também existe depois dos 60, e esse luto merece a mesma atenção que merece em qualquer idade”. O projeto quer dar uma resposta feita à medida de cada pessoa.

“Há quem precise apenas de informação e de orientação; há quem beneficie de um espaço de partilha com outros que passam pelo mesmo; e há quem necessite de um acompanhamento mais próximo e individualizado. Reconhecer essa diferença é, provavelmente, a forma mais respeitosa — e mais eficaz — de apoiar quem está a viver uma perda”, atira.

Como fazer parte do projeto

Qualquer pessoa com 60 ou mais anos, que tenha perdido alguém importante entre um mês e um ano atrás, e que viva em Lisboa, nas áreas limítrofes ou que prefira participar online, pode fazer parte do projeto. Para isso, basta ligar para o 931 920 251 ou escrever para griefdiff@gmail.com.

Ao ligar, vai ser atendido por uma equipa especializada na área do luto, que explicará com calma como tudo funciona, esclarece todas as dúvidas e ajuda a perceber qual a melhor forma de apoio.

A participação é gratuita e voluntária. “Se sente que está a passar por isto, ou se conhece alguém da sua vida que esteja, dê esse primeiro passo — às vezes, é o telefonema mais importante”, insta o mentor do projeto.

Redação com noticiasaominuto