Durante dois dias de fim de março, entre Cainheiras e Padressouro, uma mãe de 82 anos e uma filha de 60 conduzem galinhas, coelhos, cabras, ovelhas, sacos de farinha, cajados, roupa e feno — e um modo de vida que ameaça acabar com elas. Em Castro Laboreiro, a transumância ainda existe, mas já é também outra coisa: uma conversa sobre velhice, trabalho, medo, liberdade, fronteira, solidão. E a teimosia de continuar
A serra ainda não largou o inverno.
Vê-se na erva húmida, no granito que parece guardar o frio da noite, nas árvores ainda nuas, no vento que não entra aos gritos mas fica, e vê-se também na prudência com que Leonor Rodrigues, 60 anos, foi adiando a data, ora porque chovia, ora porque nevava acima, ora porque os cabritos eram pequenos de mais para o caminho, ora porque o tempo prometia abrir e, como acontece tantas vezes nestas terras em que o céu parece obedecer à serra, tornava a fechar-se. A viagem a Castro Laboreiro andou assim, em avanços e recuos, quase tanto quanto esta mudança que, por aqui, se faz há gerações entre a inverneira de Cainheiras e a branda de Padressouro, a cerca de vinte minutos uma da outra, serra abaixo, serra acima, mas carregando muito mais do que a distância mede, porque numa e noutra casa cabe o ano inteiro, e às vezes parece caber também uma vida inteira.
Chega-se num dos últimos fins de semana de março, quando a paisagem já começa a verdejar, mas a primeira impressão continua a ser de pedra.
Pedra, pedra, pedra.
A montanha levanta-se sobre os telhados vermelhos e sobre tudo o resto, há eólicas recortadas na crista, muros baixos cobertos de musgo, caminhos que tanto parecem abrir como fechar. Numa curva, uma cruz de pedra coberta de líquenes ergue-se sobre a erva como uma sentinela antiga, um cão escuro dorme-lhe aos pés. Mais adiante, uma ruína com um “vende-se” meio tombado à porta lembra que também aqui a vida foi saindo, casa a casa, gente a gente. Em Castro Laboreiro, até o abandono parece ter de se encostar à pedra para não cair, como se também ele fosse uma coisa física, pesada, mineral.
É deste mundo que elas mudam, duas vezes por ano, desde sempre. “Natal abaixo, Páscoa arriba”, dizem, assim, de maneira simples. As palavras grandes chamam-lhe transumância. Em Castro Laboreiro, durante séculos, o ciclo foi esse: passar o inverno nas inverneiras, mais baixas e abrigadas, e subir às brandas na primavera e no verão, quando os animais precisavam de frescura, água e pasto. A palavra existe, serve para nomear o que durante tanto tempo se fez por aqui, mas diante de Leonor e de Isalina, sua mãe, diante das gaiolas, dos sacos, dos cajados, do atrelado, do barulho dos bichos, da lenha, da roupa, dos cães, do corpo das duas, a palavra encolhe. Fica pequena. Quase académica. Porque o que ali se vê não é uma abstração etnográfica. É uma mecânica doméstica, física, minuciosa. São gaiolas, sacos, cajados, roupa, lenha, cães, bichos. São duas mulheres que continuam a sabê-la melhor do que ninguém.
No primeiro dia seguem os animais mais pequenos. Galinhas, coelhos. Vai também a comida deles, alguma roupa, o que faz falta para os primeiros dias, o que se não quer andar sempre a ir buscar à loja. No segundo sobem o rebanho, as cabras, as ovelhas, os cabritos, os anhos, o resto do vaivém. A mudança já não é feita a pé como foi durante décadas, com a casa inteira às costas e os corpos inteiros à mercê do tempo. Agora há trator, às vezes há pick-up, há atrelado, há estrada. Mas basta olhar um pouco para perceber que isto continua a dar trabalho a sério. “Não é para hoje, mas é para começar”, atira Leonor a um vizinho. “É para começar a levar a bicharada”, emenda logo a mãe. O homem sorri, como quem conhece o calendário moral daquela azáfama: “Há que começar na véspera”.
Há sempre qualquer coisa que vai antes da mudança propriamente dita, e talvez por isso a mudança, quando começa, já venha a meio.
Vê-se isso nas imagens pequenas, menos vistosas, e por isso mais verdadeiras. Leonor curvada a amarrar a gaiola das galinhas com cordas coloridas. Isalina atrás, de negro, de cajado na mão, a vigiar se aquilo fica bem preso. O atrelado vermelho encostado ao portão. Varapaus. Ferramentas compridas. O trator pronto. “Agora atamos os coisos aqui. E pronto”, arrisca a mãe. A filha trava-a logo: “Deixe vir”. A mãe insiste: “Olha que não está bem metida”. A filha volta a atalhar: “Deixe vir”. É assim a mudança, uma sucessão de pequenas discordâncias sem drama, de comandos cruzados, de farpas que não chegam a ser conflito, porque cada uma conhece de cor o lugar da outra, conhece-o como se conhece uma ferramenta antiga, já gasta da mão, já alisada pelo uso.
“É ela que te manda”, ri-se Leonor, sem qualquer vontade de dourar a realidade.
“Sou a comandante”, aceita Isalina, pequena, magra, o lenço preto na cabeça, o rosto duro e vivo ao mesmo tempo.
Comanda mesmo quando parece apenas comentar. Mesmo quando se queixa. Mesmo quando protesta. A mudança continua a girar muito em torno dela, da vontade dela, do corpo dela, do ano dela, porque é ela quem quer vir para baixo no inverno, quem quer tornar a subir quando a estação muda, quem ainda segura a lógica inteira deste vaivém entre casas, e isso nota-se não apenas nas ordens, mas na maneira como tudo à volta parece organizar-se à escala da sua insistência.
Enquanto Leonor sobe a primeira vez com a carga e os bichos, Isalina fica ainda em Cainheiras. Puxa um carrinho de mão até um ermo, vai arrancando galhos, troncos, ramos secos, abrindo-os ora com a mão, ora com o joelho, ora com a serra, fazendo montes de lenha para o inverno seguinte. Trabalha para a estação que ainda há de vir enquanto a filha trabalha para a que está a começar, e nisso talvez haja uma definição inteira daquela vida: mal começa uma mudança e já a mão dela está no inverno seguinte, como se o tempo, para Isalina, não avançasse em linha reta, mas aos círculos, às estações, às tarefas.
Há uma idade em que muita gente começa a ouvir falar em descanso. A dela ainda fala em trabalho.
“Se me canso? Canso, canso. Ai se me não canso.” Ri-se quase da pergunta. “Isto era a vida dos homens antigamente. Mas agora os homens, dára-os Deus. E agora temos que ser nós. E à mão, e com a serra, e com tudo. As mulheres por aí abaixo não fazem isso. Ai, nós somos tão escravinhas. Somos tão escravinhas, meu Deus.”
Quando lhe perguntamos se aquilo é a sua fisioterapia, devolve sem hesitar: “Ora bem, eu faço-a todos os dias. Eu não gasto dinheiro”. E ainda se diverte com a ideia. “Aquelas que comem bem, passam-na bem. É por isso que nós aqui a gente dura mais. Nós fazemos pela saúde.”
Não se pode dar ao luxo de ficar na cama, lembramos. “Pois não. Há que fazer pela vida. Uma pessoa ao cansar, descansa. Portanto, trabalho porque tenho que trabalhar. É a minha vida. Mas eu não precisava. Eu recebo a reforma do meu homem. Eu, mesmo que os portugueses me paguem pouco, pagam-me os franceses. Mas, claro, há que trabalhar a ver se duramos mais.”
Fala como trabalha: depressa, sem desperdício, como quem nunca teve tempo para cerimónias. Há uma altura em que se define melhor do que ninguém poderia defini-la: “Eu escrevo ligeiro. Eu falo ligeiro, eu ando ligeiro. Eu faço tudo ligeiro. Não faço nada devagar.” Não é pose. É descrição. É quase método. É, se se quiser, uma filosofia feita de verbos curtos e corpo em movimento.
Isalina tem 82 anos, uma hérnia, osteoporose, outras maleitas que enumera sem lhes dar muito tempo de palco. O essencial é outro. Não parar. Não se entregar. Não fazer da dor assunto maior do que a vida. “Eu à minha irmã digo-lhe: deixa lá, de manhã já te não dói nada, tranquila.” E quando lhe perguntam por que continua a trabalhar, encolhe os ombros: “Não merece a pena chorar. O que nos vem, vem-nos”. Mais adiante, quase sem mudar de tom: “Ao estarmos a dizer que nos dói não deixa de nos doer, não adianta nada. Quando nos dói algo temos que ir ao médico. Só o médico é que nos pode tirar algo de dor”.
A casa de baixo, a inverneira, está carregada desse uso contínuo, de fumo, de roupa, de comida, de mãos, de dias. Uma lareira grande escurecida pelo fumo. Presuntos pendurados. Um banco baixo ao centro. Garrafas, copos, panos, loiça, armários escuros, azulejo castanho, cadeirões cobertos por roupa. Não há nenhum arranjo folclórico aqui, nenhuma encenação para turista, nenhuma tentativa de parecer “típico”. A casa existe para ser usada, como a horta, onde as couves crescem entre muros de pedra cobertos de musgo e ferramentas cravadas na terra, como a pilha de lenha seca onde Isalina se dobra para carregar ramos grossos com luvas azuis, como o aprisco escuro onde, mais tarde, Leonor há de soltar ovelhas e cabras.
As casas, de resto, não pesam da mesma maneira em cada uma delas.
A mãe puxa mais para baixo, para a inverneira, para Cainheiras. A filha prefere a branda. “Eu gosto mais da de cima”, avisa Leonor. “Saía à hora que queria, entrava à hora que queria. Ninguém estava a ver.” A casa de cima está mais solta, mais separada, com mais ar à volta. Isalina inclina-se para o outro lado. Não é só por hábito. É também por corpo, por vizinhança, por abrigo, por facilidade. Em baixo sente-se mais amparada. “Aqui eu saio para fora, se calha vejo agora um vizinho, logo vejo outro.” Tem a horta perto, as couves, o que lhe faz falta. Em Padressouro, pelo contrário, sente-se mais exposta, mais sozinha. “Vizinhos não tenho ninguém. Nada, nada, nada.” E depois: “Eu as portas seguro-as. Tenho portas duras, pronto. Mas vem um desgraçado e rebenta com elas. E lá vai para dentro”. É também por isso que a mudança, mesmo sendo tradição, já não é apenas uma tradição: é uma negociação íntima entre duas maneiras de estar no mesmo lugar, duas maneiras de medir o conforto, duas maneiras de chamar casa à mesma serra.
Ainda assim, fazem-na.
E fazem-na porque a lógica antiga continua a fazer sentido, mesmo alterada. “Os antigos eram inteligentes”, resume Leonor, junto ao aprisco das cabras e das ovelhas. Lá em cima, durante o inverno, é mais frio. A neve pára mais tempo. Aqui em baixo é mais quente, mais abrigado, melhor para as pessoas e para os animais. No verão, o movimento inverte-se: acima há mais águas, os bichos aguentam melhor. “No verão estão lá melhor. Estão mais frescos”, abre a mãe. “E no inverno estão-no aqui. Estão-no eles e estamos nós.”
Foi sempre assim. A mãe ouviu-o à mãe, aos avós. A filha ouviu-o à mãe e viu-o desde pequena. “Isso aí é uma coisa que é natural da terra”, condensa Isalina. “Foi sempre toda a vida o natural da terra.” Depois abre a lembrança toda de uma vez: “Eu estou a fazer aquilo que era antigamente. O que era antigamente era isto que se fazia. Agora não, agora não se faz. Mas eu ainda estou a fazer aquela tradição de antes”. Mais atrás ainda, para o tempo da mãe e dos avós: “Tinham casas abaixo, tinham casas arriba. E sempre fizeram esta tradição”.
A tradição vinha com calendário e com pão. “Antes, quando vínhamos no mês de Natal para baixo, cozíamos para aí 30 pães. Para não ir cozer durante o mês de janeiro”. A frase quase traz a cozinha atrás dela. “Era o que se comia. Pão, era o que se comia”. Depois subia-se na Páscoa. “Ir comer lá o bacalhau”. Não é apenas uma cronologia. É uma economia inteira de forno, estação, religião, hábito e sobrevivência.
Hoje já não é preciso assim. O feno fica preparado. As casas têm quase tudo o que precisam. Mudam-se sobretudo os animais. “Agora não dá tanto trabalho”, nota Leonor. “Antigamente mudavam tudo, tudo, tudo. Agora não. Agora é praticamente os animais e a comida que faz falta para os animais.” E, mais adiante, afina ainda melhor: “É a roupa de vestir. E do resto, mais nada”. Isalina completa a logística à escala da cabeça dela: “É tudo o que seja comida de fora que a gente tenha também. Em casa eu não trago não para o dia. Eu trago a se calha para 15 dias, um mês. Não ando sempre a ir à loja”.
A transumância existe, mas já não vive inteira da necessidade. Vive também da continuidade, do gosto, da fidelidade a um costume, e de uma forma de dar ordem ao ano. Leonor não romantiza. “Hoje não há necessidade nenhuma.” Podia passar o inverno lá em cima. Tem palheiros cheios, tem o feno pronto, os animais aguentavam. “É porque eu gosto de o fazer.” Gosta de passar ali os três meses de inverno. Gosta daquele ir e vir. Gosta, apesar de tudo, de continuar.
A diferença está também no modo como a mudança hoje se cumpre. “Eu não faço a mudança a pé, como faziam antigamente.” Vai de trator. Abre a porta da corte, avança, e os animais seguem atrás. Mas seguem, claro, com diferenças. Os cabritos são outra conversa. Mais delicados do que os anhos, mais frágeis ao calor, à chuva, ao frio. Leonor esperou por dias bons e chamou-nos precisamente por causa deles. “Se eu soubesse que chovia ou outra coisa parecida, eu não os podia botar ao caminho.” Depois repete como quem explica a uma criança uma coisa séria: “Os cabritos são mais delicados”. E insiste, porque sabe do que fala: “Nem água, nem muito calor. Porque se apanham muito…”. Suspende a frase e continua a trabalhar. Não é frase para efeito. É ofício.
Vê-se nisso a serenidade dos gestos e a precisão das ordens. No galinheiro, entra sozinha e pede que esperemos fora. “Agora tendes que esperar fora, que eu tenho que entrar dentro.” Logo a seguir vêm os berros: “QUIETAS”. A mãe fica à porta, comenta, ri-se, alarma-se, volta a rir-se. “Está a matar uma. Ai, ai.” Depois compadece-se das galinhas amontoadas na gaiola: “Pobrinhas. Está é a má. Portei-vos aí bem”. Mais tarde, no curral, Leonor pede à mãe que lhe “revolva” as ovelhas lá adiante. Isalina antecipa a confusão: “Ó, meu Deus… Agora é que vai ser uma sarilhada”. Noutro momento, olhando para um coelho, sai-lhe um espanto meio terno meio bruto: “Ai, esta puta, o que está grande”.
Há ainda mais bichos nesta vida do que os que entram na mudança. Já não há vacas. Isalina não quis voltar a tê-las depois do azar de uma que caiu à porta de casa, partiu uma pata e teve de ser abatida. Ficou-lhe isso atravessado. Há, sim, um burro, mas nesta altura do ano anda sempre no campo e não entra nesta travessia entre casas.
Os dois cães parecem completar a gramática da mudança. Um Castro Laboreiro grande, pachorrento. Um rafeiro mais pequeno, mais nervoso, com ambição de chefe. Vão à frente, vão ao lado, voltam atrás, abrem e fecham o movimento. Aparecem às vezes deitados, às vezes a correr, às vezes apenas a olhar, como se fossem parte da mobília moral do lugar. Há por aqui poucas casas sem cães, pouca mudança sem cães, pouca conversa sem um latido a interrompê-la.
Pelo meio, ainda há missa. Um familiar morreu e elas interrompem a mudança para a memória dele. É um detalhe que diz muito, não porque solenize a reportagem, mas porque lembra que a vida aqui não corre numa linha narrativa limpa, disponível para ser filmada ou escrita. Há mortos, há ofícios, há idas à vila, há vizinhos que perguntam, há portas para abrir, há cães para afastar do trator, há ovelhas que se tresmalham, há um sábado que não se limita a cumprir a ideia que se trazia dele.
No domingo sobem também o rebanho e as crias. A imagem condensa quase tudo. Leonor vai à frente, ora a pé, ora ao volante do Yanmar vermelho. Na mão leva um cajado. Isalina segue no atrelado, sentada entre varapaus, roupas, o rosto quieto de quem comanda sem precisar de se levantar. À volta espalham-se cabras e ovelhas. Os dois cães ocupam as bermas. Um castanho, mais pequeno, corre e corta a dianteira. Outro, o maior, tigrado, avança com a calma antiga de quem já sabe o que fazer. Noutra passagem, o trator torna-se minúsculo visto de cima, perdido numa curva da estrada entre árvores nuas. A paisagem engole-os e, ao mesmo tempo, parece ter sido desenhada à escala exata deste movimento, como se o caminho existisse desde sempre para esta lenta procissão de pessoas, bichos, sacos e memória.
É aí que se percebe melhor a medida do que está a acabar.
Não porque a mudança seja já impossível, mas porque está prestes a deixar de ter continuidade. “Ao acabarmos nós, acaba a tradição”, abre Isalina. “A minha filha depois não a faz. Ela sozinha não a faz. Também não precisa.” Leonor não a contradiz a sério. Há ali uma ternura que toma a forma de troça leve. Quando a mãe se pinta como alguém que vai “para onde me levam”, a filha ri-se: “Já conheceis a peça”. Mas também não mente. Sabe que isto vive hoje sobretudo porque a mãe ainda vive, manda, insiste, aciona.
A consciência do fim não a amolece. Às vezes até a afia. Há uma altura em que lhe perguntamos até quando fará aquilo. Primeiro responde à letra, como se a pergunta fosse outra: “Até dezembro”. Só depois percebe o que lhe pedimos. “Ah, para acabar? Ai, quando eu acabar. Quando eu acabar, é que acaba.” E fica ali uma coisa muito mais funda do que a frase parece. Não é apenas a noção de que a tradição depende dela. É também a noção de que, para já, ainda depende.
Se a tradição sobrevive nelas, o lugar sobrevive em menos gente. Cainheiras terá 15 habitantes efetivos. Em Padressouro contam-se quatro no lugar, mais outra aldeia adiante. Na infância de Isalina, era uma “ninhada de ratos”, só crianças por todo o lado. Havia bailes, Entrudo, frangalheiros, partidas. “Nós aqui fazíamos tudo e mais algo.” Descalçavam um homem já velho, vestiam outros com saias, atravessavam os dias de sábado à terça-feira como se a aldeia inteira fosse um palco de máscara e licença. “No Entrudo passa tudo”, abre. Leonor lembra outra versão da mesma abundância: “Aqui andava tudo a brincar por fora, tudo por aí à solta. Era uma maravilha”.
Agora há pouca ou nenhuma criança, a “canalha”. A escola fica longe, o transporte vem buscá-la, a emigração levou quase todos, as cidades puxaram o resto. Aos poucos, vão regressando alguns. Gente de França, sobretudo. Mas regressam já de outro modo, muitas vezes com casa pequena, animais, temporadas partidas entre cá e lá. Leonor olha para isso sem lamento solene nem ilusão fácil. “Agora começam a vir alguns de volta. E se calhar, se isto continuar muito para a frente, ainda virão muitos mais.” Talvez. Mas por agora é ela, a mais nova, tanto em baixo como em cima.
O despovoamento, nas duas, nunca aparece como tese. Aparece como cenário vivido, como diferença concreta entre o antes e o agora. Há menos gente. Há mais silêncio. Há mais casas vazias. Mas o lugar ainda resiste por outras vias, e uma delas é esta insistência quase moral na autossuficiência. “Nós aqui temos sempre comida”, atira Leonor. E desdobra a frase: batatas, couves, milho, abóboras, pepinos, centeio, animais. “Aqui ninguém passa fome.” O resto compra-se na loja: iogurtes, arroz, massa, o indispensável do mundo que entretanto se juntou a este. A metáfora é dela e serve inteira: “Nós aqui fazemos como a formiga. Durante o verão não temos? Guardamos do verão para o inverno”.
Há nesta economia um orgulho sereno, quase sem ornamento. Como há na ideia de liberdade, repetida por ambas com palavras diferentes. Leonor gostou sempre de viver ali. “Nunca gostei de sair daqui.” Castro Laboreiro, para ela, é como andar “muito à vontade, muito livre”. A casa de cima agrada-lhe mais porque está separada, sem olhares alheios, sem vizinhos a vigiar a hora a que se sai ou entra. Isalina, mesmo mais presa à inverneira, descreve o lugar inteiro como um espaço onde ainda pode berrar, falar, mandar, ser ela mesma. “Eu aqui faço o que quero”, abre, quase ofendida com a hipótese de trocar. “Falo, faço o que quero aqui dentro”. E logo alarga: “Às vezes berro com os cães, berro com isto, berro com aquilo. Até berro com ela. Porque eu sou berrelas. Eu não me calo”. Depois pousa a frase que não se esquece: “Aqui tenho a liberdade para tudo”.
Isalina foi pouco mais longe do que isto. Esteve em França oito dias, uma semana, o suficiente para ver Paris de passagem e guardá-la na memória com nomes trocados e espanto intacto. “Vi o Arco do Trunfo, vi a Torre Fiel, vi lá… Como é que se chama? Lá o que cai no centro de Paris…”. Os Campos Elísios, ajudamos. “Ora bem, aquilo, também vi”. Lisboa, essa, quase não conta. “Eu Lisboa não vi nada”. E quando lhe perguntamos se trocava Castro Laboreiro por Paris, a resposta sai com a mesma secura com que racha lenha: “Não, não trocava nada”. Porquê. “Eu, em Castro Laboreiro, estou aqui muito habituada”.
“Castro Laboreiro é sozinho”, acrescenta. E depois corrige o cliché com a frase mais certeira destes dois dias: “Mas aqui não é o fim do mundo, aqui é o princípio do mundo”.
A frase não vem sozinha. Chega depois de lhe perguntarmos se aquilo é o fim do mundo, como tanta gente de fora gosta de repetir. A resposta sai sem esforço, como se sempre tivesse estado pronta. “O fim do mundo? O fim do mundo é para quem morre.” E logo amplia: o fim do mundo são as guerras, a Ucrânia, os “milhes e milhes de pessoas” que morrem. Aqui, não. “Aqui é uma maravilha.” Aqui há pouca gente, sim. Aqui as pessoas vão acabando, sim. Houve tempo em que a neve dava pelo alto das paredes e o isolamento era quase absoluto. “Saía uma pessoa para fora e enterrava-se até ao joelho no meio da neve”. Agora há Proteção Civil, há tratores para limpar as estradas, já se sai bem. O mundo mudou. A vida daqui também. Mas não ao ponto de apagar a diferença.
Talvez por isso a fala de Isalina soe como soa, com o português enredado no galego, o galego enredado no português, uma sintaxe de raia que ela não explica nem sente necessidade de explicar. “Eu falo uma língua portuguesa ou uma espanhola, eu não sei. Eu falo o que eu sei.” Noutro momento corrige melhor: “Nós já sabemos bem que somos mais galegos do que portugueses”. É uma frase de geografia e de sangue. Estão mais perto da Galiza. O gasóleo, se for mais barato, vai buscar-se a Espanha. O gás também. “Assim é porque estamos mais perto da Espanha do que de Melgaço.” E ainda brinca com o que permanece por baixo de tudo: “Qualquer dia volta o contrabando na raia. Tem de se pôr lá os carabineiros novamente”. Ri-se, mas não inteiramente.
Quando a conversa se encosta à raia, Isalina não teoriza. Lembra-se. “Íamos todos ali à Espanha. O que é, é que íamos tudo a monte.” Para fugir da guarda, perguntamos. “É, quantas vezes tínhamos que fugir. Às vezes até iam pessoas que, se calha, queriam fazer mal. E a gente escondíamo-nos. Quando víamos ao longe, que se viam, se calha, pessoas que a gente não conhecia, olha, metíamo-nos numa corga, ou atrás de umas urzeiras. Enquanto eles não passassem, a gente estava ali arrematada.” Da Espanha traziam carnes, bacalhau, o que fosse mais barato; para lá levavam sabão, café, o que desse para trocar ou vender. E pelo meio ficaram também as mortes que o lugar ainda não largou. “Ainda temos as alminhas [cruzes] aí à frente. Duas mulheres morreram aí à frente. No meio de uma nevada. Elas vinham da Espanha. E morreram ali, estacadas na neve. Não houve quem lhe fosse valer.” A memória abre mais um pouco e aparece o resto: o vizinho contrabandista, os galegos a passar pelo monte, o café a circular como outra moeda. “Aqui houve muito estraperlo do café. Muito. Nós tínhamos ali um vizinho, lá no lugar de cima, que era um contrabandista de café. Chegavam ali a vir 50 galegos ao café. Cinquenta galegos. Vinham de lá da Espanha, aos sacos de café, passavam-nos pelo monte”. Para Isalina, a raia nunca foi uma linha. Foi um caminho de necessidade.
A pobreza de que fala nunca aparece decorada. “Uma sardinha dava mesmo para seis?”, perguntamos. “Dava, dava. Que remédio.” A mãe dela criou seis filhos sozinha, depois de ter perdido uma filha. “Não é brincadeira.” Isalina olha para trás e não transforma a infância num rosário de desgraças, embora a dureza esteja toda lá. “A minha infância foi boa, a minha infância foi o melhor da minha vida. Até que me casei.” A pobreza andava por ali. O trabalho nunca saía de perto. “É tudo a poder da terra.” Mas havia também outra coisa: “Não tivemos pai para nos bater”. “Só tivemos a mãe. Para nos criar”. Talvez por isso a pobreza, na memória dela, apareça menos como humilhação do que como matéria de sobrevivência.
A violência, quando entra na conversa, entra pelo presente. Sem aviso, sem rede, sem delicadeza. Isalina passa dos galhos e da lenha para os homens que matam mulheres e quase nem parece haver descontinuidade. “Eu vejo-os na televisão: que desgraça, que desgraça. Mulher a morrer, mulher a morrer.” É uma indignação sem escola, e por isso mais funda. “Uma mulher não sei para que quer um homem para a matar.” Depois, mais à frente, endurece ainda mais: “Mas vós, as mulheres, não tendes cargo de consciência de quereres um homem para vos matar.” E logo a seguir volta à imagem que lhe fica presa: “Vejo tantos, tantos, tantos, tantos a matarem aquelas pessoinhas.” Não é formulação polida, nem quer ser. É uma revolta moldada na fala dela, na frontalidade dela, na idade dela, e talvez na liberdade dura que foi construindo.
Essa liberdade vem de muitos lados. Do trabalho. Da viuvez. Do facto de já não precisar de ninguém para governar a sua vida. “Não, graças a Deus. Chegou-me bem aquele.” Vem também de uma ideia muito clara de autonomia. O marido, lembra ela, costumava gracejar com a reforma e a hipótese de, depois da morte dele, ela arranjar outro homem. A resposta ficou-lhe afiada: “Depois, ao tu morreres, quem manda sou eu, não és tu. Tu não me vens determinar. Sou eu que me vou determinar. Se arranjo outro homem, ou deixo de arranjar, sou eu que tenho que ver isso”. Há nisto humor e há desafio. Há também um retrato inteiro.
À tarde, já em Padressouro, a casa de cima recebe de novo os bichos, os sacos, os instrumentos, os passos. Há presuntos pendurados, carne salgada, chouriços, lenha para o fumeiro, pão castrejo guardado. “É aqui que preparamos tudo”, explica Leonor, mostrando o lugar onde se salga a carne, se fuma o fumeiro, se vai compondo o verão. A mudança, percebe-se então ainda melhor, não é apenas transporte. É preparação de meses.
Há também uma pausa. Isalina senta-se num pátio de lajes, encostada a uma parede velha rachada, junto a um forno rústico. Os dois cães deitam-se perto dela. Descansam os três, ou fingem descansar. O corpo dela, que durante dois dias foi nervo, ordem e comentário, abranda sem chegar a parar.
Mais tarde, quando as duas se sentam num muro para a conversa conjunta, acontece um gesto que vale por uma pequena biografia. Isalina sobe para lá quase de um salto, com uma ligeireza breve, inesperada, como se o corpo ainda guardasse uma memória antiga da mocidade, quase da idade de canalha de que ela própria fala quando recorda as ruas cheias, os bailes, o Entrudo, os frangalheiros. Senta-se. A filha senta-se ao lado. E durante um momento, antes de voltarem as frases, percebe-se nelas qualquer coisa de muito antigo e muito atual ao mesmo tempo: mãe e filha, as duas duras, as duas vivas, as duas sabendo exatamente o lugar que ocupam na vida da outra.
É aí, talvez, que se ouve melhor também a felicidade segundo Isalina.
Não é uma palavra que lhe venha à boca com ligeireza. Quando lhe perguntamos se é feliz, não responde de forma grandiosa. Responde à escala da casa. “A paz da casa faz a gente feliz.” Não ter males ruins. Não ter problemas graves. Não ter faltas de dinheiro. “Eu para já sou feliz.” O “para já” importa. Não há proclamação, há balanço. “Eu para já tenho com que viver desabafadamente.” Não era assim quando se criou. “Comíamos bem atabaladinhos.” Hoje não lhe falta nada do essencial. “Como do que quero, visto o que posso, mas faço a minha vida tranquila.”
A longevidade aqui, em todo o caso, parece assunto antigo. A mãe de Isalina chegou aos 92 anos. Há vizinhas com noventa e muitos. Leonor tem a sensação de que as mulheres daqui duram. Porquê, ninguém fecha uma resposta. Água limpa das fontes, talvez. O facto de andarem muito, talvez. “Durante o dia não param na casa”, observa a filha. “Se calhar, durante o dia fazem quilómetros.” Isalina encolhe os ombros. “Não o sei. Eu não sou bruxa. Nem adivinho”. Mas o corpo dela, mesmo cansado, continua a fazer prova.
Quando tudo parece encaminhado, reaparece outra faceta, que Leonor conhece bem e anuncia com orgulho manso: “Se escreve? Escreve, escreve”. A mãe faz versos às pessoas. Quadras. Cantigas. Não por excentricidade, não para agradar, mas porque a fala nela às vezes pede para passar à mão. Houve um galego que não queria ser chamado espanhol; ela escreveu-lhe umas quadras em que o tratava por galego e outras em que o tratava por espanhol. O homem ofendeu-se com as segundas, divertiu-se com as primeiras. “Você é malcriada, você é malandra”, lembra Isalina, rindo-se ainda do episódio.
Pedimos-lhe uma. Ela logo avisa que assim, de repente, não sai. Precisa de estar sozinha. “Eu para a fazer, tenho que estar eu sozinha.” E logo se corrige por baixo: “Porque agora a minha cabeça já não regula muito bem”. “Regula, regula”, responde-lhe Leonor, como tantas vezes responde.
A mudança está feita. Ou quase. Porque nunca está inteiramente feita. É esse talvez o último ensinamento destes dois dias. A transumância não é uma imagem limpa de deslocação, uma coreografia de postal entre ovelhas e montanhas. É também o depois. As portas por fechar. Os utensílios por arrumar. As rações por meter. As camas por fazer. A sujidade acumulada no inverno. A poeira, os restos, os gestos repetidos que nenhuma fotografia apanha toda. “Isto é o que mata”, resmunga Isalina, já na casa de cima, depois de pousar enxadas e ancinhos. “Ao mudar de casa, depois as limpezas é que dão trabalho.”
Mas antes de irmos embora há ainda a escrita.
Primeiro, sozinha à mesa da cozinha, um rascunho num envelope velho. Não é ainda a quadra, é o caminho para ela. Experimenta uma palavra, puxa outra, ouve por dentro o que quer deixar. Depois passa a limpo numa folha pautada azul. A letra vem arredondada, limpa, “ligeira”. Escreve como fala: depressa, mas sem perder a curva. Numa língua sua, de português e galego, como se a fronteira ali também passasse pela caligrafia.
A quadra fica assim:
“Eu estive com
o Tiago da CNN
a conversar espero
que va contente
pra que torne voltar
El veio a Castro
uma reportagem
fazer espero que a
fizesse bem que
se poisa ler”
Há qualquer coisa de inteiro nisto. Não é apenas uma quadra oferecida ao visitante. É a fala dela a encontrar outra forma de durar. A mesma mulher que passou dois dias a mover bicharada, lenha, memórias e ordens, senta-se no fim à mesa da cozinha e ainda põe tudo por escrito, com a mão de quem não aprendeu a separar vida, trabalho e linguagem.
Lá fora, a casa de cima espera as limpezas, os arrumos, o resto do trabalho que nunca acaba numa mudança destas. Dentro, na mesa, fica a folha com a letra arredondada de Isalina. E talvez o fim tenha de ficar aqui, não num gesto grande, mas nessa mão que ainda passa a limpo o que viveu, como quem sobe mais uma vez, devagar, no princípio do mundo.
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