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A polícia abriu a porta da carrinha e lá dentro estava uma criança em posição fetal e rodeada de excrementos – foi o pai que a prendeu ali há mais de um ano

Aconteceu em França. As autoridades querem saber como ninguém deu nota da ausência da criança – incluindo a escola onde ela estudava

Um menor de 9 anos foi encontrado em condições alarmantes após ter sido mantido em cativeiro durante mais de um ano dentro de uma carrinha, em Hagenbach, no leste de França. O pai, de 43 anos, foi detido e colocado em prisão preventiva, mas o caso levanta várias questões sobre como a situação passou despercebida durante tanto tempo.

De acordo com a imprensa francesa, a descoberta “macabra” ocorreu na semana passada, depois de uma vizinha ter alertado as autoridades após ouvir “ruídos de criança” vindos do veículo, estacionado a poucos metros da casa da família do pai.

À chega ao local, o pai da criança disse que não conseguia “abrir as portas devido a uma avaria no sistema de fecho” e que o filho “se tinha trancado lá dentro enquanto procurava algo”. No entanto, a realidade era outra e, no interior do veículo, as autoridades encontraram a criança nua, deitada em posição fetal, coberta apenas por uma manta, rodeada de lixo e excrementos.

A imprensa adianta que o menor estava “pálido e manifestamente desnutrido” e não conseguia andar por ter passado tanto tempo sentado.

Segundo o procurador de Mulhouse, o pai manteve o filho fechado na carrinha desde o final de 2024, alegadamente para evitar que fosse internado numa instituição psiquiátrica, como pretendia a companheira. “O pai da criança tinha instalado uma câmara de videovigilância na fachada do edifício, orientada na direção da carrinha”, revela ainda o Ministério Público.

O homem, agora detido, confessou os factos às autoridades e revelou ainda que durante o período de cativeiro visitava a criança duas vezes por dia para lhe levar comida e água.

O menor tinha consigo um pequeno saco com roupa, era obrigado a urinar em garrafas de plástico e a fazer as necessidades em sacos. A última vez que tomou banho, contou, foi no final de 2024. Já no verão de 2025, entrou pela última vez na casa de família, numa altura em que esta estava ausente de férias.

Apesar de o menor estar confinado no exterior, o restante agregado familiar — composto pelo pai, pela companheira e duas outras crianças menores — vivia numa casa descrita como “bem cuidada”, a poucos metros do local onde a criança permanecia escondida.

Mau relacionamento com a madrasta

Aos investigadores, o menor contou que tinha “grandes dificuldades de relacionamento com a companheira do pai” e que esta já não o queria na casa deles, tendo mesmo chegado a dizer que queria “que ele fosse internado num hospital psiquiátrico”. Segundo as autoridades, foi para evitar esse internamento que o pai o trancou na carrinha no outono de 2024, quando ele tinha 7 anos.

Na sexta-feira, o pai foi acusado de detenção ilegal, rapto, sequestro e privação de cuidados ou alimentação, enquanto a companheira foi acusada de omissão de socorro a menor em perigo e de não denúncia de maus-tratos, embora tenha contestado os factos. Às autoridades, admitiu ter ouvido ruídos vindos da carrinha, mas disse ter sido convencida de que a criança estava internada.

O caso está a gerar choque na comunidade local, onde vizinhos relatam que a criança “desapareceu do dia para a noite”. Alguns afirmam ter ouvido barulhos ou até visto o menor anteriormente, mas sem nunca suspeitar da gravidade da situação.

As autoridades tentam agora perceber como foi possível que ninguém — nem familiares, nem vizinhos, nem instituições — tenha dado o alerta mais cedo. Nem mesmo a escola do 1.º ano do ensino básico em Mulhouse, que o menor frequentou até 2023/2024, deu o alerta.

Não há, para já, indicação de que a família estivesse sinalizada pelos serviços sociais ou pela justiça. A irmã da vítima, uma menor de 12 anos, explicou “viver com o pai há 4 ou 5 anos, uma vez que a mãe tem dificuldades de natureza psicológica”, segundo o comunicado do procurador do Ministério Público.

O processo judicial segue em curso, com investigações centradas no apuramento de responsabilidades e na eventual existência de outras pessoas que possam ter tido conhecimento da situação sem agir.

O menor foi acolhido pela Unidade de Acolhimento Pediátrico de Menores em Perigo (UAPED) de Mulhouse e permanece hospitalizado, encontrando-se agora “em segurança”. As duas filhas do casal foram colocadas em acolhimento provisório.