“LX90 – a Lisboa em que tudo é possível” conta-nos em livro as pequenas e grandes histórias de uma cidade (e de um país) em plena época da globalização. Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes continuam a sua viagem pelas memórias da capital – as boas e as más
A taxa de analfabetismo em Portugal em 1990 é de cerca de 11% e pouco mais de 625 mil pessoas estudam além do secundário. Há 355 mil famílias que vivem sem água canalizada e em mais 250 mil não há retrete. O salário mínimo é de 28 mil escudos e a inflação chega aos 13,5%. Não há canais privados de televisão e não temos smartphones, não há autoestrada a ligar Lisboa ao Porto nem ao Algarve, é impossível comer um Big Mac. Como era viver assim, lembram-se?
“Parece que foi há tão pouco tempo, mas depois percebemos que já passaram muitos anos e quando vemos as fotografias vemos como tanta coisa mudou”, diz Joana Stichini Vilela, jornalista e coautora da coleção de livros “LX”, nos quais recorda como era viver em Lisboa. Depois dos volumes dedicados às décadas de 60, 70 e 80, chegamos agora aos anos 90.
Nos anos 60, Portugal era “um país ainda em ditadura, em que se sonha a liberdade e chegam alguns ecos do que se passa lá fora, mas ainda é uma sociedade muito reprimida”. Os anos 70 são “uma década partida ao meio”. “Depois de 1974 já conseguimos essa liberdade e agora há que lidar com ela, como é que vamos construir este país?Já não há um inimigo comum e há muitas fações, mas perto do final da década começa a construção da democracia.” Nos anos 80 “já tens esse país mas agora queres fazer parte, Portugal entra na CEE, é a a abertura ao mundo”.
E, finalmente, nos anos 90 “chega o dinheiro da Europa, é uma época de consumismo, dos franchises, do cosmopolitismo, dos subúrbios a crescer”. “Cresce a sensação de ter direito a (entitlement). É uma década de otimismo, em que se acredita que tudo vai ser melhor.” E é por isso que o livro se chama “LX90 – a Lisboa em que tudo é possível”.
Os anos 90 são também, como diz Joana Stichini Vilela, “a época de ouro da comunicação social em Portugal”. “Não é por acaso que o livro abre precisamente com a fundação do Público”, cujo primeiro número devia ter chegado às bancas no dia 2 de janeiro de 1990 mas, devido a um problema numa máquina, só sai a 5 de março. Depois do boom das rádios, das revistas (e o livro recorda a criatividade da revista Kapa), é nesta década que surgem os canais privados de televisão – primeiro a SIC e depois a TVI, trazendo consigo novos pontos de vista e mais informação, mas também a guerra de audiências, as horas infindáveis de diretos, a “televisão em movimento” e os reality shows. Não se pode falar dos anos 90 sem lembrar o “Big Show SIC”, o programa do Lecas, o “Big Brother”, o “Herman Enciclopédia” ou o “Contra-Informação” (e as Produções Fictícias têm destaque merecido).
“Esta foi a última década da cultura única”, aponta Joana Stichini Vilela. “Com os meios de massa todas as pessoas têm todas mais ou menos acesso à mesma informação, há uma cultura que nos molda – temos um chão comum. Isso vai mudar com a internet, que surge nos anos 90 mas ainda de uma forma incipiente. Com a internet tens acesso ao que se passa em todo o mundo, é a globalização, por um lado, mas por outro também o acesso a nichos e à possibilidade de ficarmos fechados na nossa bolha. E depois vem a desconfiança em relação aos média tradicionais. Mas nos anos 90 ainda vivíamos todos no mesmo mundo, existia uma sentimento de união, de pertença.”
É o período dos “grandes eventos”, como os concertos de estádio, que chegam finalmente a Portugal. O estádio de Alvalade recebe Rolling Stones, Tina Turner, Bryan Adams, Dire Straits, Guns N’Roses, Michael Jackson, Bruce Springsteen, U2, Prince e muitos outros.
Essa euforia atinge o seu auge com a Expo’98, provavelmente o evento que representa melhor o espírito da década. Mostrou que, mesmo com contratempos e com derrapagens financeiras, Portugal podia pôr de pé um acontecimento desta dimensão – e orgulhar-se disso. O recinto tinha mais de 70 hectares, as filas para entrar nos pavilhões podiam ser desesperantes e talvez faltassem algumas sombras, mas os cerca de 12 milhões de visitantes que vieram de todos os cantos do país e do mundo saíam maravilhados com os peixes e as lontras do Oceanário, a Pala do Pavilhão de Portugal (concebido por Álvaro Siza), o espetáculo do Pavilhão da Utopia, os olharapos que circulavam por todo o lado, a Peregrinação do Teatro O Bando, os concertos na Praça Sony e o Aquamatrix – espetáculo de luz e fogo que durava 17 minutos e encerrava o dia. Na noite de encerramento, as redes de telemóvel não conseguiram dar resposta às 100 mil pessoas que ali se juntaram, bloqueando os transportes públicos e desesperando por encontrar os amigos.
Esse sentimento de pertença revela-se também em iniciativas da sociedade civil, como a campanha de apoio a Timor-Leste e o Lusitânia Expresso, a fundação da Abraço, os vários protestos dos estudantes ou dos utilizadores da Ponte 25 de Abril contra o aumento das portagens. “As pessoas acreditavam que podiam de facto mudar a sociedade, havia uma mobilização independentemente das cores políticas”, recorda a autora.
Entre a recuperação económica de Cavaco Silva, os muitos quilómetros de autoestrada construídos, a inauguração do Colombo e o programa para acabar com os bairros de barracas na capital, o desenvolvimento foi deixando as suas mazelas e também há histórias menos felizes. A segregação nos novos bairros sociais, a toxicodependência, a sida – que continuava a ser uma sentença de morte -, os crimes sem castigo. A incrível história do estripador de Lisboa ou do decapitador de Sacavém. Um very light fatal na Taça de Portugal. Duas crianças mortas num parque aquático. Outra que morreu eletrocutada num semáforo.
E muito mais – folheando o livro descobrimos (ou recordamos) os restaurantes, os bares e as discotecas, os filmes que fizeram sucesso, as lojas da moda e tantas histórias grandes e pequenas desta cidade (e deste país).
“Não se trata de nostalgia”, diz Joana Stichini Vilela, “não queremos que seja um livro saudosista”. “É mostrar como se vivia nesta altura. Na escola aprendemos que a História é uma coisa muito distante. Mas a História é feita de pessoas como nós, muitas vezes com aventuras extraordinárias, outra vezes com coisas do dia a dia.” A História é muito mais do que factos políticos e económicos. O que é que as pessoas faziam para se divertir? Como é que se vestiam? O que é que compravam? O que motivava os seus protestos? Que música ouviam? Tudo isso conta aquilo que éramos – e que somos. “Nós fazemos parte da História e a História faz parte de nós. E o que nós queremos é contar um pouco disso. Esta é uma cápsula dos anos 90, mas podia fazer outras cápsulas.”
“Cada pessoa tem a sua memória. Quando voltas atrás e vês as imagens, as citações, os números, os factos, podes dizer ‘isto não é nada como me lembrava’ ou ‘isto foi exatamente assim’. A ideia é as pessoas completarem o livro com as suas experiencias e o livro ser um gatilho para conversar com os pais, com os filhos, com os avós, com os amigos. Ter acesso a outras realidades, que é algo que faz muita falta”, diz.
Em termos de processo, a criação de LX90 foi semelhante aos volumes anteriores. A jornalista começa por fazer muita pesquisa em jornais, revistas, livros e vai “escolhendo temas, indo atrás de pistas, decantando até ter um índice provisório, tentando ter uma narrativa equilibrada, quer em termos de temas como de anos”, Este processo durou mais de um ano. Depois, já com designer Pedro Fernandes, coautor da coleção, e com a ajuda de Ágata Xavier, que fez a pesquisa de imagens, começa-se a pensar como cada tema pode ser tratado. “Às vezes encontramos uma imagem muito boa e fazemos a história à volta daquela imagem, se não tivermos imagens temos de encontrar soluções que podem passar pela ilustração ou por uma infografia.”
“Queremos sempre ter muita variedade nos formatos e diferentes tons. Partimos dos factos e a linguagem é jornalística, mas cruza muitas formas, temos entrevistas, crónicas, textos mais noticiosos, infografias, cronologias, até temos uma fotonovela sobre a feijoada na Ponte Vasco da Gama”, conta Joana Stichini Vilela. Assim como os temas são muito diversificados, também há uns que são abordados de uma forma mais séria e outras que permitem formas mais ligeiras ou algum humor. Para a diversifidade de tons contribuem os colaboradores que escrevem alguns textos, como Rui Miguel Tovar (que escreve sobre desporto), Tânia Pereirinha (os crimes) e outros.
Quanto à recolha de informação, Joana Stichini Vilela constatou que ainda não há muitos livros sobre esta época mas há muitos artigos de jornais e revistas e outra documentação, além da possibilidade de entrevistar muitos dos protagonistas das histórias. Por outro lado, estava à espera de ser mais fácil encontrar mais imagens. “Há arquivos que não se sabe onde estão, outros que se perderam em ataques informáticos”, explica a autora, deixando uma nota de preocupação em relação a obras futuros sobre o novo milénio: “O digital é muito mais frágil a nível de conservação da informação. Os formatos dos ficheiros tornam-se obsoletos. Ou basta perder-se um computador e perdemos tudo. Ainda temos livros com 500 anos, mas há ficheiros com 10 ou 15 anos que já desapareceram.”
O lançamento de “LX90 – a Lisboa em que tudo é possível” acontece este sábado, às 18:30, no MUDE – Museu do Design, em Lisboa, com a participação de Joana Stichini Vilela, Pedro Fernandes, Bárbara Coutinho, diretora do MUDE, Nuno Artur Silva, fundador das Produções Fictícias, e a comunicadora Inês Lopes Gonçalves. A playlist do anos 90 será da responsabilidade de Maria Amor e Schcuro.
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