No mundo hipermasculino dos cartéis de droga latino-americanos, por vezes é às mulheres que se deve prestar atenção. Griselda Blanco, Antonella Marchant e Rosalinda González Valencia são exemplos disso mesmo: recusaram a vida de “buchona” — gíria de Sinaloa para as mulheres dos barões da droga — e assumiram as rédeas dos cartéis. Em contraste, há o caso de Emma Coronel Aispuro, mulher do conhecido traficante mexicano “El Chapo” e uma das “buchonas” mais famosas do mundo.
Foi, aliás, através das ligações femininas que os militares mexicanos caçaram um dos traficantes mais procurados do mundo — Nemesio “El Mencho” Oseguera Cervantes — numa operação audaz no início deste ano, que incluiu forças especiais que invadiram o seu esconderijo no estado de Jalisco.
Entre os detalhes que saltam à vista nessa incursão — que desencadeou uma onda de violência de retaliação em todo o país — está a forma como as autoridades localizaram um homem que andava fugido há anos, com a cabeça a prémio por 15 milhões de dólares. Limitaram-se a seguir uma das suas amantes, que os levou inadvertidamente até uma cabana nas montanhas de Tapalpa, no oeste do México.
Logística e Estratégia
Especialistas explicam que, embora os assassinos e os soldados rasos continuem a ser maioritariamente homens, as mulheres adaptam-se frequentemente melhor aos aspetos logísticos e financeiros das operações. “Se for a mulher de um chefe de cartel sénior, é provável que esteja a par da sua logística e das suas estratégias”, explica Henry Ziemer, especialista em crime organizado. “Assim, quando o marido é capturado ou morto, ela pode assumir grande parte do negócio.”
A “Rainha da Cocaína”
Uma das figuras mais mediáticas foi a colombiana Griselda Blanco, a “Rainha da Cocaína”. Responsável pelo envio de toneladas de droga para Miami nos anos 70 e 80, Blanco tinha a reputação de ser tão cruel quanto os seus homólogos masculinos. Contudo, a sua verdadeira proeza residia na organização logística de um império avaliado em centenas de milhões de dólares. Especialista no branqueamento de capitais, geriu um império imobiliário e até uma fábrica de roupa interior com bolsos ocultos para o contrabando.
Blanco foi detida na Califórnia em 1985. Após cumprir pena nos EUA, foi deportada para a Colômbia em 2004, onde viveu até ser assassinada em 2012. O seu filho, Michael Corleone Blanco, recorda que, embora o pai fosse um homem respeitado no crime, era a mãe quem “gritava e dizia o que fazer”.
Tal pai, tal filha: Antonella Marchant
No Chile, Antonella Marchant dirigia o temido clã Los Marchant ao lado do pai. Especializou-se em finanças e logística, coordenando a importação de cocaína da Bolívia. Embora o pai tenha tentado assumir toda a responsabilidade para proteger a família, a justiça chilena concluiu que a liderança do grupo cabia principalmente a Antonella, condenando-a a 15 anos de prisão.
“La Jefa” e o império financeiro
Rosalinda González Valencia, conhecida como “La Jefa” (A Chefe), é descrita como “realeza do tráfico”. Irmã dos líderes do cartel Los Cuinis, o seu casamento com “El Mencho” consolidou a estrutura financeira do Cartel de Jalisco Nova Geração. As autoridades acreditam que Rosalinda é uma das mentoras financeiras do grupo. Foi condenada em 2023 por operações com recursos de origem ilícita, sublinhando que o seu papel sempre esteve ligado à gestão do dinheiro e não apenas ao estatuto de esposa.

“Buchonas” vs. Chefes
Nem todas as mulheres optam pelo comando. Emma Coronel Aispuro, mulher de “El Chapo”, representa o estereótipo da “buchona”: ligada à moda, estética e redes sociais. Embora tenha sido condenada por auxílio no império do marido, a sua imagem pública foca-se na carreira de modelo e influenciadora. Desfilou recentemente na Semana da Moda de Milão, contrastando com as mulheres que lideram as organizações e que afirmam: “Eu sou uma chefe, não sou uma buchona”. Como referiu uma traficante de Sinaloa à historiadora Elaine Carey: “Não vou pôr implantes mamários, porque personalizar um colete à prova de bala é muito caro”.
Redação






