Pesquisa do Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra, analisou a forma como homens e mulheres percecionam e sentem a traição conjugal, a qualidade das relações e o uso das redes sociais. Condenar a infidelidade nem sempre significa uma rutura ou o fim de um casamento.
Não há um padrão único de traição conjugal e há uma diferença notória na perceção da infidelidade emocional entre homens e mulheres. Quem já traiu numa relação anterior é mais tolerante à infidelidade no relacionamento atual. E condenar uma traição nem sempre se traduz numa rutura. Admite-se que o comportamento é inaceitável, mas há quem permaneça na relação, mesmo quando entra em conflito com os próprios valores, o que demonstra uma dissonância entre princípios e comportamento.
Há mais dados a destacar no estudo “Redes sociais e tolerância à infidelidade no Mundo contemporâneo: Relação com a perceção da qualidade relacional e adição às redes sociais”, do Instituto Superior Miguel Torga, em Coimbra, que analisou como homens e mulheres reagem à infidelidade, distinguindo entre traição emocional e sexual. Os resultados destapam sentimentos, realidades e algumas ideias feitas.
Muitos casais perdoam a infidelidade ao parceiro, mas, a partir desse momento, muitas relações tornam-se tóxicas. Os homens são mais tolerantes com a infidelidade quando não há sexo, relativizando comportamentos como a proximidade emocional ou a troca de mensagens. As mulheres apresentam uma menor permissividade e uma perceção mais lata da quebra de confiança e atribuem à componente emocional do adultério uma importância maior.
Para muitos dos inquiridos, comportamentos como a troca de mensagens podem ou não ser considerados traição, consoante a forma como são interpretados. Quando não há acordo e sintonia sobre o que é traição, também não há o mesmo entendimento sobre a gravidade do que aconteceu. Esta indefinição ajuda a explicar por que razão a quebra de confiança nem sempre conduz à rutura da relação. O estudo mostra, aliás, que não existe consenso sobre o que define a infidelidade, valorizando-se tanto interações digitais em diversas redes sociais como o envolvimento físico propriamente dito. E sugere que sem uma ideia clara e comum no casal sobre o que é ou não traição, o caminho para o conflito e para relações tóxicas fica muito mais curto.
Nem mesmo uma perceção negativa sobre a qualidade da relação conduz necessariamente à rutura. Os elementos reunidos indicam que casais que classificam a sua relação como não sendo boa não terminam obrigatoriamente após uma traição, o que demonstra que a continuidade do casal segue uma lógica não linear entre a insatisfação e a rutura.
“Na prática, a rejeição da infidelidade não impede a continuidade da relação, mesmo após uma quebra de confiança”, adianta a psicóloga Maria Teresa Ribeiro, autora da tese e investigadora do Instituto Superior Miguel Torga. “A mesma situação pode levar a decisões completamente diferentes, mesmo quando os valores são semelhantes”, acrescenta.
A psicóloga Joana Carvalho, docente e investigadora do Instituto Superior Miguel Torga, orientou o estudo, e fala de vários aspetos. “Mais do que uma diferença de opinião, os resultados mostram que homens e mulheres não avaliam necessariamente o mesmo comportamento de forma igual: enquanto uns tendem a separar envolvimento emocional e físico, outros encaram qualquer quebra de exclusividade como uma ameaça direta à relação.”
“A ausência de regras claras entre os casais sobre o que é traição cria uma zona cinzenta nas relações”, observa Joana Carvalho. Embora o estudo identifique algumas tendências, a permanência na relação após a infidelidade não é explicada de forma determinante pelo comportamento de infidelidade em si mesmo, mas mais pela forma como esta é interpretada por quem a vive. “Não há variáveis que ditem por si só o destino de um casal; o impacto de cada um dos fatores na decisão de permanecer é, na verdade, muito limitado”, refere Maria Teresa Ribeiro.
Para Joana Carvalho, “manter a relação após a quebra de confiança pode prolongar dinâmicas disfuncionais, com impacto direto no bem-estar emocional”. O estudo sugere que continuar numa relação depois da infidelidade não significa necessariamente superação, muitas vezes, a relação mantém-se, mas a confiança não é reconstruída, podendo tornar-se tóxica precisamente por esse motivo.
E o que acontece com o uso frequente das redes sociais? O estudo não encontrou evidência de que uma maior utilização dessas plataformas esteja associada a maior tolerância à infidelidade. Os resultados sugerem que o papel das redes sociais está mais associado à exposição e à oportunidade do que à decisão de perdoar ou de terminar uma relação. Ou seja, usar muito as redes não torna as pessoas mais permissivas ou tolerantes à traição, apenas aumenta a exposição a situações de risco.
Redação com JN.PT






