Num país com mais de 132 mil desaparecidos, o México está a recorrer à inteligência artificial para acelerar buscas e identificar vítimas. De vídeos que dão “voz” aos desaparecidos a sistemas que analisam tatuagens, restauram rostos ou projetam o envelhecimento de crianças, estas ferramentas estão a transformar os esforços de famílias, autoridades e investigadores, embora especialistas sublinhem que a tecnologia não substitui a cooperação humana
Em 2021, Héctor Daniel Flores Hernández foi dado como desaparecido. Dois anos depois, o seu pai, Héctor Flores, viu a imagem do filho voltar a falar. Num vídeo gerado através de tecnologia de inteligência artificial, que animou digitalmente uma imagem estática e lhe deu uma voz sintetizada, a figura de Héctor Daniel Flores Hernández narrou a história do seu desaparecimento — quando tinha 19 anos, a partir da sua casa em Guadalajara — e exigiu que as autoridades o encontrassem com vida. Desde então, o pai fez da busca um modo de vida.
“Não consegui terminar de ver à primeira”, disse Héctor Flores numa entrevista quando o vídeo foi produzido. “Demorei algum tempo a processar. Vê-los com a última fotografia que temos, a dizer o que sabemos das investigações, é devastador.”
O vídeo fazia parte de uma iniciativa lançada em 2023 pelos coletivos Luz de Esperanza e Alas de Libertad — grupos de familiares de pessoas desaparecidas que se organizam para realizar buscas, sensibilizar para os casos e exigir justiça — no estado ocidental de Jalisco, para dar voz aos avisos de pessoas desaparecidas sobre os seus familiares. Flores, cofundador da Luz de Esperanza, disse que a iniciativa continua e que “é uma ferramenta perfeita não só para a busca, mas também para sensibilizar e tentar criar empatia.”
Os desaparecimentos são demasiado comuns no México, um país que registou mais de 132.000 pessoas desaparecidas desde que o Registo Nacional de Pessoas Desaparecidas e Não Localizadas da Secretaria do Interior começou a recolher dados em 1964. A Human Rights Watch refere que o governo não tomou medidas suficientes para prevenir desaparecimentos ou punir os responsáveis.
A presidente Claudia Sheinbaum reconheceu que a maioria dos desaparecimentos está ligada ao crime organizado, e a Amnistia Internacional observa que o problema pode ser atribuído à violência e insegurança generalizadas. Não existem dados oficiais completos sobre as causas específicas de todos os desaparecimentos; o registo nacional inclui dados sobre desaparecimentos passados cometidos pelas autoridades contra grupos de esquerda e guerrilhas, mas os números são sobretudo dos últimos anos, quando o combate às organizações criminosas se intensificou.
Em março de 2025, o governo de Sheinbaum anunciou uma série de novas iniciativas para responder mais rapidamente aos casos de desaparecimento, para tratar esses casos com a mesma seriedade que os sequestros confirmados, para tornar as estatísticas mais acessíveis e para melhorar a assistência às vítimas.
A iniciativa dos vídeos, entretanto, faz parte de uma nova geração de projetos que recorrem à IA ou à aprendizagem automática para ajudar a enfrentar a crise. Universidades, grupos de pesquisa, outras organizações e autoridades governamentais desenvolveram e implementaram IA para investigar pessoas desaparecidas, utilizando técnicas que incluem análise de bases de dados, identificação forense ou projeções de progressão etária.
“O objetivo é que estas ferramentas sejam úteis para as entidades que compõem o sistema nacional de busca, como procuradorias, comissões e o Semefo (Serviços Médicos Forenses), para apoiar e facilitar o trabalho das pessoas”, explicou Andrea Horcasitas, responsável pelo Programa de Direitos Humanos da Universidad Iberoamericana, na Cidade do México. O programa faz parte do Consórcio para o Uso Ético da IA na Busca de Pessoas Desaparecidas, criado em outubro de 2025 com o objetivo de discutir o uso de técnicas para procurar desaparecidos no México e refletir sobre o uso responsável da IA nesta área.
IA para identificar tatuagens
O Laboratório de Soluções Colaborativas de Políticas Públicas (Lab-Co), uma organização não governamental com sede no México, trabalha na procura de novas soluções para problemas de segurança, violência e acesso à justiça na América Latina. O laboratório desenvolveu três projetos que incorporam inteligência artificial na busca por pessoas desaparecidas.
O primeiro é o IdentIA, uma ferramenta que utiliza IA para identificar e classificar fotografias de tatuagens em corpos não identificados, explicou Thomas Favennec, diretor executivo do Lab-Co.
Os utilizadores podem pesquisar os ficheiros com texto, usando palavras presentes numa tatuagem ou uma descrição verbal, ou através de pesquisas baseadas em imagem que comparam diretamente fotografias com uma base de dados histórica de tatuagens pertencentes a pessoas não identificadas.

“Não importa a qualidade da tatuagem ou o ângulo. Este sistema funciona com uma pesquisa vetorial e não requer internet; nenhum conteúdo sensível é carregado online, o que garante que nenhuma informação é comprometida”, explicou Ángel Serrano, coordenador de dados e tecnologia do Lab-Co.
Serrano demonstrou como o IdentIA realiza uma pesquisa de tatuagens em poucos segundos e permite cruzar dados com registos de pessoas desaparecidas.
Este sistema foi incorporado nos sistemas de bases de dados de pessoas desaparecidas no estado de Jalisco e está em processo de implementação nos serviços forenses de Quintana Roo e Zacatecas.
Pesquisar em ficheiros separados
Outra das ferramentas do laboratório, explicou Favennec, é o ContextIA, que permite processar múltiplos documentos não estruturados de processos de investigação e extrair dados claros. O ContextIA é capaz de responder a consultas específicas com citações diretas e referências de páginas; extrair dados concretos como números de telefone, matrículas e coordenadas; e, como o nome indica, cruzar casos no contexto de diferentes bases de dados.
A terceira ferramenta permite a análise de nomes de forma estruturada e mais poderosa, permitindo encontrar correspondências em diferentes bases de dados onde os nomes podem estar escritos de formas distintas. Favennec disse que, até agora, tem sido aplicada a pessoas que já morreram identificadas que não foram reclamadas.
“As famílias não sabem que isto acontece, e é complicado porque há um problema com bases de dados que não se cruzam”, afirmou. “Há um desafio em encontrar a família. Por isso, desenvolvemos algo que permite estas análises comparativas entre a situação de pessoas desaparecidas e os registos dos serviços forenses em diferentes estados do país.”
As iniciativas fazem parte de um projeto denominado “Construir Alianças para a Busca de Pessoas Desaparecidas e Identificação Humana”, financiado pela União Europeia e pela Embaixada Britânica através da iniciativa Frontier Tech Hub.
Restaurar rostos dos desaparecidos
Horcasitas, da Universidad Iberoamericana, refere que algumas procuradorias já utilizam uma ferramenta chamada ImageBox, que melhora as imagens dos rostos de pessoas encontradas na morgue ou no Serviço Médico Forense e no Instituto de Ciências Periciais e Forenses da Cidade do México, para ajudar na identificação de indivíduos.
“Isto evita que as pessoas tenham de ver fotografias devastadoras, que obviamente têm impactos psicossociais em qualquer pessoa que tenha de percorrer catálogos de morgues”, referiu.
A Procuradoria da Cidade do México tem utilizado a técnica de “inpainting”, que usa inteligência artificial para preencher, restaurar ou remover partes selecionadas de uma imagem, permitindo adicionar ou reparar áreas danificadas com resultados realistas. Com isto, as autoridades realizam pesquisas inversas, emitindo um boletim para encontrar a família da pessoa.

Rostos de crianças crescem
O Projeto Regresa, desenvolvido por investigadores da Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM), procura gerar uma imagem de como uma criança desaparecida há anos se pareceria atualmente, para ajudar as famílias a encontrá-la.
Quando uma pessoa desaparece, o protocolo de busca padrão baseia-se na fotografia mais recente disponível. Crianças e adolescentes que não são rapidamente localizados podem não ser reconhecidos a médio e longo prazo, devido à rapidez com que os seus rostos e corpos mudam e amadurecem.
Liderada por Ana Itzel Juárez Martín, doutorada em antropologia pela Universidade Nacional Autónoma do México (UNAM), a iniciativa, ainda em fase piloto, combina ferramentas de IA com conhecimentos e técnicas da antropologia física e social.
O algoritmo do programa foi concebido para realizar progressão etária utilizando fotografias de crianças desaparecidas, determinando como seriam aos 5, 15 ou 30 anos. Também pode ser utilizado para mostrar como um adulto atual era em criança.
Dados oficiais contabilizam mais de 118.000 menores com 17 anos ou menos dados como desaparecidos entre 1964 e setembro de 2025. Um relatório de 2022 da Rede pelos Direitos das Crianças no México aponta que, no caso de menores desaparecidos, redes de recrutamento podem integrá-los no crime organizado ou conduzi-los à exploração sexual e ao tráfico.

Juárez Martín explicou que o objetivo do Projeto Regresa é treinar o algoritmo para aprender o crescimento biológico natural do rosto, orientado especificamente por formas faciais e padrões de crescimento comuns entre pessoas no México.
“Embora já existam alguns bancos de imagens para investigação, não há nenhum exclusivamente da população mexicana”, afirmou. “Assim, este algoritmo seria o primeiro do seu tipo e seria treinado para identificar a variabilidade que existe entre mexicanos, por exemplo, o tipo de nariz, espessura dos lábios, forma dos olhos e das sobrancelhas.”
Cooperar e trabalhar mais depressa
Num país onde, segundo a organização Causa en Común, 41 pessoas desaparecem todos os dias, é importante dispor de ferramentas que ajudem e facilitem a busca por pessoas desaparecidas em todo o território.
O próximo passo é continuar a identificar lacunas onde certos processos precisam de ser mais eficientes. “Estamos à espera de ver como estas ferramentas de inteligência artificial funcionam, para perceber se resultam, que melhorias são necessárias e também para compreender qual é o fluxo de trabalho dentro das organizações que compõem o Sistema Nacional de Busca”, referiu Horcasitas.
Favennec destacou que a implementação da IA nos processos de busca e localização tem sido bem recebida por grupos e autoridades, mas acrescentou que é necessário perceber que a tecnologia “não é mágica, ajuda a processar informação mais rapidamente e melhor… Numa crise onde tantas coisas se misturam de formas tão diferentes, o que é necessário é colaboração.”
Redação com cnnportugal






