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Menino japonês de 10 anos surpreende cientistas com estudo sobre a memória das borboletas

Jo Nagai investigou se as borboletas conseguem conservar memórias adquiridas antes da metamorfose

A curiosidade de Jo Nagai, um menino japonês de apenas 10 anos, sobre as borboletas-cauda-de-andorinha asiáticas deu origem a uma investigação que despertou o interesse da comunidade científica e ganhou ampla repercussão nas redes sociais.

Ao longo de vários anos de observação e através de uma série de experiências, o jovem procurou perceber se estes insectos são capazes de conservar memórias adquiridas antes de completarem a metamorfose.

Jo Nagai é aluno da Escola Primária Ibuki East, em Kobe, no Japão, e integra a Fundação Filantrópica Son Masayoshi, uma organização que apoia jovens com capacidades excepcionais.

Desde muito cedo, o menino demonstrou interesse pelo mundo dos insectos e passou anos a registar as suas observações sobre o comportamento de diferentes espécies.

Uma observação do dia a dia deu origem à investigação

O projecto começou quando Jo criava borboletas-cauda-de-andorinha asiáticas em casa. O jovem reparou que alguns dos exemplares criados por si pareciam regressar à sua mão depois de serem libertados, enquanto as borboletas selvagens normalmente voavam para longe.

A diferença despertou uma pergunta: será que os insectos conseguem conservar memórias adquiridas durante a fase de lagarta?

A partir dessa hipótese, Jo passou vários anos a observar e a documentar o comportamento das borboletas, além de desenvolver experiências para tentar perceber se determinadas memórias poderiam sobreviver ao processo de metamorfose.

Experiências para testar a memória das borboletas

Durante os testes, Jo expôs algumas lagartas ao aroma de lavanda enquanto aplicava um estímulo vibratório suave através de um dispositivo utilizado em terapia muscular.

Depois de concluída a metamorfose, as borboletas adultas foram colocadas num labirinto tubular em forma de Y, onde o jovem avaliou a reacção dos insectos ao mesmo aroma.

Segundo os resultados apresentados por Jo, cerca de 70% das borboletas adultas evitaram o cheiro de lavanda. Para o jovem investigador, o comportamento pode indicar que os insectos conservaram algum tipo de memória adquirida antes da metamorfose.

A confirmar-se, a descoberta poderá levantar novas questões sobre o que acontece ao sistema nervoso dos insectos durante a fase de pupa e sobre a possibilidade de determinadas informações comportamentais sobreviverem à profunda transformação do organismo.

O estudo analisou ainda o comportamento das gerações seguintes. De acordo com Jo, os descendentes e até os netos das borboletas submetidas ao condicionamento apresentaram maior tendência para evitar o aroma de lavanda, apesar de não terem sido expostos ao mesmo treino.

O jovem levantou a hipótese de que este fenómeno possa estar relacionado com a chamada herança epigenética transgeracional, mecanismo através do qual determinadas condições ambientais podem influenciar características ou comportamentos de gerações posteriores sem alterar a sequência do ADN.

No entanto, esta explicação continua a ser apenas uma hipótese e terá de ser submetida a novas experiências e investigações independentes antes de poder ser considerada cientificamente comprovada.

Estudo desperta interesse entre especialistas

A investigação de Jo foi apresentada em encontros científicos, incluindo o Congresso Internacional de Entomologia de Kobe, permitindo que profissionais da área conhecessem os resultados obtidos pelo jovem.

Apesar do interesse suscitado pelo trabalho, o estudo ainda não foi publicado numa revista científica com revisão por pares.

Especialistas consideram notável o facto de uma criança tão jovem ter desenvolvido uma investigação desta dimensão. No entanto, salientam que a reprodução das experiências por outras equipas será fundamental para verificar os resultados e determinar se as conclusões apresentadas se confirmam.

Da curiosidade de uma criança para o debate científico

A história de Jo Nagai ganhou grande repercussão por reunir a curiosidade de uma criança, anos de observação e uma tentativa estruturada de testar uma hipótese científica.

O seu trabalho, com 33 páginas, e as apresentações realizadas perante cientistas foram amplamente divulgados nas redes sociais.

A investigação também gerou discussão sobre os métodos utilizados durante as experiências. Alguns utilizadores questionaram a utilização de estímulos aversivos nas lagartas, enquanto outros defenderam que os procedimentos tinham como objectivo provocar respostas defensivas naturais, sem causar deliberadamente danos aos insectos.

Se futuras investigações confirmarem os resultados apresentados por Jo Nagai, o trabalho poderá contribuir para uma melhor compreensão da memória nos insectos, dos efeitos da metamorfose sobre o sistema nervoso e do possível papel da epigenética na transmissão de determinados comportamentos entre gerações.

Mais do que uma conclusão definitiva, o estudo representa, para já, uma pergunta científica invulgar levantada por um investigador muito jovem — e que poderá inspirar novas pesquisas sobre a extraordinária capacidade de adaptação dos insectos.

Redação