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Um ano após tumultos em Luanda, empresário virou mendigo

De empresário a mendigo: é esta a condição atual de António Bumba, após os tumultos ocorridos no final de julho de 2025 em Luanda que não pouparam a sua hospedaria, ainda hoje em destroços.

Um ano após distúrbios, que resultaram em mortes, detenções, feridos e destruição, a Lusa regressou ao Calemba 2 – zona periférica de intenso comércio informal e uma das mais afetadas pela violência – onde moradores, lojistas e trabalhadores recordam com dor e tristeza o cenário de guerra” a que assistiram.

Uma greve convocada por taxistas para protestar contra o aumento dos combustíveis originou três dias de arruaça, pilhagens e atos de vandalismo, deixando pelo menos 30 mortos e centenas de estabelecimentos saqueados.

Entre estes está o de António Bumba, que lamentou a ausência de apoios que o arrastaram para a miséria e apela à intervenção do presidente angolano.

O empresário de 66 anos dedicou metade da sua vida à construção do seu empreendimento, com bares, albergaria, restaurante, salão de festas e uma pequena loja, que passados 12 meses continua sob escombros.

Sem qualquer horizonte para reabilitar o espaço, completamente destruído pela fúria de manifestantes de 28 de julho de 2025, expressou amargura pelo abandono a que disse estar votado, apesar das cartas que remeteu às autoridades e que esperam respostas há um ano.

“Conforme vê, a estrutura está desde o primeiro dia [vandalizada] até hoje. As coisas permanecem na mesma. Ficámos satisfeitos com o anúncio do apoio do Governo aos empresários, feito pelo presidente da República, mas infelizmente, a partir daquele momento algumas pessoas, como eu, já ficaram na primeira esquina”, disse à Lusa.

No seu estabelecimento “Henda Ya Mama Comercial”, na rua direita do Camama, município do Talatona, construído em 30 anos de “sacrifício”, continua visível a fúria da destruição, com janelas, portas, armários, teto, sistemas elétricos completamente devastados.

Tumultos não pouparam a hospedaria de António Bumba (Foto: Ampe Rogério)

António Bumba, visivelmente agastado, “de mãos atadas” e sem bases para o recomeço do espaço que edificou para garantir a sua reforma, contou à Lusa que formalizou toda a documentação junto das autoridades locais, Procuradoria-Geral da República, instituições bancárias, sem resposta.

“Completamos a documentação em tempo recorde, como estava previsto num período de 30 dias, e de lá para cá [um ano depois] não temos nenhuma resposta [sobre o financiamento do Governo]”, lamentou.

O pedido de audiência com o governador da província de Luanda – para relatar as suas inquietações em função do drama vivido – também teve como retorno apenas o silêncio.

“Conforme vê, sentimo-nos abandonados (…) não temos ninguém nem para trocar uma impressão [sobre este problema]”, admitiu.

De empresário a mendigo

Bumba recordou que a pilhagem ao seu estabelecimento atirou 12 funcionários para o desemprego – até hoje – realçando que a situação também deu origem a problemas de saúde, como hipertensão.

A tragédia de há um ano colocou o empreendedor angolano em estado de mendicidade: “Saí de empresário a mendigo. É um projeto que estava a fazer há 30 anos e no ano da sua destruição, estava a completar o projeto e começava já a funcionar em pleno”, lamentou.

Apelou ainda às “pessoas de boa-fé”, sobretudo ao presidente angolano, João Lourenço, para o cumprimento das promessas feitas sobre o apoio aos empresários afetados pelos episódios de vandalismo, porque, insistiu, “até agora continuamos na mesma”.

Nesta zona do Calemba 2, palco de intensos protestos e pilhagens, a Lusa visitou um dos supermercados da rede Arreiou, que também foi alvo de destruição. A unidade foi reabilitada e já funciona em pleno.

Quem por ali vive, como é o caso de Maria Paulo, 27 anos, também dona de uma mercearia ao lado, contou à Lusa que o seu estabelecimento também não foi poupado ao roubo e destruição.

“Roubaram coisas na nossa cantina, aqui no Arreiou também levaram muita coisa e foi um dia muito horrível mesmo (…), fechamos as portas e tivemos de fugir porque alguns estavam a vir com catanas”, relatou.

Calemba 2 foi uma das zonas mais afetadas pela violência dos tumultos (Foto: Ampe Rogério)

José Laurindo Cazengue e Gomes Bumba, moto taxistas no Calemba 2, também viram o referido supermercado e outras lojas nos arredores a serem destruídas, num dia de “guerra” que abalou muita gente e destruiu centenas de empregos.

“Cheguei à minha paragem para poder exercer o meu serviço [de táxi] e começou logo a confusão, tivemos de nos meter em fuga, aqui foi uma guerra”, recordou Laurindo ao lado da sua “kupapata”, como são conhecidos os tuk-tuk em Angola.

Gomes Bumba também lamentou pelos empregos perdidos e queixou-se da insegurança no bairro: “Sinceramente, nós aqui não conseguimos trabalhar em condições, tem muita perturbação, os delinquentes chegam aqui nas paragens e fazem cobranças ilegais de dinheiro”.

Por aquelas paragens, a farmácia de António, 57 anos, saiu ilesa, porque, no dia dos tumultos, funcionários e familiares saíram em segurança, após interromperem a jornada de trabalho.

“Na farmácia não conseguimos trabalhar porque tinha muito problema, tumultos, eram agressões (…), foi um dia marcante que as pessoas ficaram dispersas e muita coisa se perdeu”, contou.

O Governo angolano anunciou, em agosto de 2025, uma linha de financiamento de 50 mil milhões de kwanzas (47,6 milhões de euros) para apoiar empresas vandalizadas na sequência dos tumultos dos dias 28, 29 e 30 de julho do mesmo ano.

Os distúrbios, condenados pelo presidente angolano, resultaram em 30 mortos, 277 feridos, 1.515 detenções e na destruição de 118 estabelecimentos comerciais, com maior incidência nas províncias de Luanda, Benguela, Huíla, Huambo, Malanje, Bengo e Lunda Norte.

Redação com JN.PT