Search
Close this search box.

É lindo ser careca. Porque sabe tão bem a decisão de rapar a cabeça toda

Aos 65 anos, cerca de 53% dos homens apresentam calvície, devido a várias causas, segundo o National Council on Aging – Conselho Nacional para o Envelhecimento, em português.

Daniel Halas assustou-se quando viu, pela primeira vez, o seu reflexo depois de ter rapado a cabeça.

Estava a ir à casa de banho a altas horas da noite, na sua casa na Baviera, Alemanha. Foi então que o espelho refletiu uma imagem desconhecida: um couro cabeludo liso, sem falhas para disfarçar, sem um penteado elaborado. Por um instante, não se reconheceu.

Foi então que Halas – na fotografia principal deste artigo – sentiu algo que não experienciava há anos.

Alívio.

Ver a acontecer

Durante a fase final dos seus vinte anos, Halas observava o cabelo a definhar todos os dias. Cresceu a notar a queda de cabelo entre familiares e amigos. Por isso, sempre soube que era uma possibilidade. Ainda assim, quando começou a acontecer com ele – numa altura em que fazia exercício físico com frequência e prestava muita atenção à sua aparência – não deixou de ser frustrante.

“Quem tem um crescimento capilar normal, tem muitas opções de penteado”, diz. “Com o cabelo a ficar mais fino, quase não há opções. São muito poucas as que ficam bem”.

O facto de ter menos opções tornou-se um lembrete diário de que algo estava a mudar. E de que ele tinha pouco controlo nessa matéria.

Alejandro Morales Gonzalez, a viver no Porto, Portugal, lembra-se exatamente quando começou a sua ansiedade em relação ao cabelo. Tinha 21 anos, era um guitarrista dedicado, o cabelo chegava-lhe vários centímetros abaixo dos ombros. Como alguém que tinha outrora imaginado um futuro como estrela de rock, o cabelo comprido parecia fazer parte da imagem.

 

Alejandro Morales Gonzalez na sua casa no Porto, Portugal, a 11 de março de 2026 (Michele Abercrombie/CNN)

“Ter cabelo comprido é quase um requisito”, diz Gonzalez, acrescentando que tinha um ritual de champô e condicionador para cuidar do seu cabelo. Imaginava que ia tê-lo para a vida.

Quando notou que o cabelo estava a ficar mais fraco, tanto no topo como nas laterais, entrou em pânico. “Viver sem cabelo, pura e simplesmente, não era uma opção”, conta. Começou a monitorizar cada fio, a tomar suplementos, a preocupar-se com detalhes que antes não tinham importância.

Em Virginia Beach, no estado da Virgínia, Estados Unidos da América, a experiência de Kendrick Lee assumiu uma forma diferente. O que inicialmente pensava ser caspa severa, acabou por revelar ser psoríase no couro cabeludo – trata-se de uma doença autoimune crónica que faz com que as células se reproduzam muito rapidamente.

“Estava sempre lá, mais como uma crosta”, descreve,

Não era algo doloroso. Ainda assim, era persistente e visível. Deixava-o constrangido. Foi então que Lee começou a cobrir a cabeça com chapéus e bandanas.

Gonzalez, por sua vez, passou a usar chapéus à medida que as falhas no cabelo se tornavam mais percetíveis. Em especial, porque estava a construir a sua carreira como fotógrafo numa indústria focada na aparência. Começou a ser intangível a imagem que acreditava que devia projetar.

Embora as causas sejam diferentes, os três homens descrevem a mesma tensão subjacente: a constante perda de controlo.

Porque é que está a perder cabelo

Aos 65 anos, cerca de 53% dos homens apresentam calvície, devido a várias causas, segundo o National Council on Aging – Conselho Nacional para o Envelhecimento, em português.

À medida que envelhecemos, as probabilidades de desenvolvermos doenças crónicas aumentam. Por sua vez, com o passar do tempo, os folículos capilares diminuem, naturalmente, a produção de cabelo – e podem, eventualmente, deixar de produzir fios. Há outras causas relacionadas com a genética, o stress e até mesmo com os medicamentos que tomamos.

Aos 35 anos, dois terços dos homens americanos apresentam algum grau de queda de cabelo percetível. Aos 50 anos, aproximadamente 85% dos homens têm cabelo mais fino, segundo a American Hair Loss Association – Associação Americana de Queda de Cabelo, em português.

“Os tipos mais comuns de queda de cabelo a que assisto são a calvície padrão e o eflúvio telógeno”, aponta Carolyn Goh, professora de dermatologia na UCLA Health.

A calvície padrão, também conhecida como alopécia androgenética, costuma ser hereditária e é influenciada pela idade e pelas hormonas. Já o eflúvio telógeno costuma ser desencadeado pelo stress — seja ele motivado por doenças, cirurgias, medicamentos ou grandes acontecimentos da vida — e pode causar queda de cabelo percetível durante alguns meses após o fator causador desse stress.

Podemos referir ainda a alopécia areata, que é uma doença autoimune na qual o cabelo pode voltar a crescer, uma vez que os folículos não são destruídos, e a alopécia cicatricial, em que a raiz do folículo é permanentemente danificada.

“Podemos compreender muita coisa ouvindo apenas a história da queda de cabelo”, diz Goh, referindo que os dermatologistas podem examinar o couro cabeludo de perto, solicitar exames laboratoriais ou realizar uma biópsia para determinar a causa.

Embora estes procedimentos possam encontrar a causa para a queda de cabelo, os sentimentos à volta deste caminho também podem ser bastante impactantes. “Pode ser muito traumático, chocante até, ver o cabelo a cair e a aparência a mudar”, diz Goh. “Muitas vezes, é esta perda de controlo aquilo que mais incomoda as pessoas”.

Para os homens, os efeitos psicológicos variam muito, explica Roberto Olivardia, psicólogo clínico. Há homens que podem sentir raiva, frustração, tristeza ou ansiedade à medida que a sua aparência muda, diz por email o coautor de “The Adonis Complex: How to Identify, Treat and Prevent Body Obsession in Men and Boys” [“O Complexo de Adónis: Como Identificar, Tratar e Prevenir a Obsessão Corporal em Homens e Rapazes”, numa tradução livre].

Experimentar métodos diferentes para tratar a queda de cabelo

Cada um destes três homens tentou, à sua maneira, lidar com a mudança sem ter de recorrer à decisão final de rapar tudo e ficar careca.

Gonzalez cortou o cabelo muito curto, o que lhe trouxe uma paz temporária. Há quatro anos, submeteu-se a um transplante capilar por extração de unidades foliculares em Portugal e começou a usar minoxidil, um medicamento que aumenta o crescimento de novos fios em casos de queda de cabelo hereditária, segundo a Cleveland Clinic. Os resultados foram impressionantes – pelo menos numa fase inicial.

“Sentia-me no topo do mundo”, diz. Contudo, com o passar do tempo, e apesar do procedimento e da medicação, o cabelo voltou a ficar fraco.

 

Alejandro Gonzalez antes de ter tomado a decisão de rapar a cabeça (Alejandro Gonzalez)

Halas chegou a considerar a medicação, mas desistiu da finasterida, que é um medicamento utilizado para tratar os sintomas da calvície de padrão masculino, segundo a Clínica Mayo. A justificar a decisão estavam os potenciais efeitos secundários.

Depois, havia outros tratamentos que pareciam ser um compromisso a longo prazo.

“Ou se aplica durante toda a vida ou se adia o problema”, diz. Enquanto enfermeiro na área da geriatria, também estava relutante em utilizar medicamentos para aquilo que considerava ser um problema estético.

Lee consultou um dermatologista e recebeu um diagnóstico claro. Embora a psoríase não fosse dolorosa, era “super inconveniente”, diz. Os chapéus continuaram na cabeça.

Por fim, os três chegaram a uma conclusão semelhante: estavam cansados ​​de lidar com a queda de cabelo.

Escolher rapar tudo

Estes três casos, tal como outros que enfrentavam as mesmas condições, viam muitos outros homens a seguir as suas vidas com normalidade sendo carecas.

Halas cansou-se de ver o seu cabelo naquele estado, diz.

Na Baviera, existe um ditado: “Nada pela metade, nada por inteiro”, que significa que quando algo é tão incompleto, na verdade, não funciona. Decidiu que não queria existir algures no meio.

Antes de ir de férias, em agosto de 2024, Halas rapou a cabeça. A mulher e as duas filhas ficaram surpreendidas com a mudança drástica. Ele próprio também se assustou nos primeiros dias. Contudo, pareceu-lhe acertada a sensação de um aspeto limpo e definitivo. Já não havia uma transição gradual para gerir, nem um planeamento estratégico de estilo.

“A minha autoconfiança aumentou muito com isso”, garante. “Não só porque fica bem, mas porque fui eu próprio a decidir e a implementar a mudança”.

 

Daniel Halas antes de ter tomado a decisão de rapar a cabeça (Daniel Halas)

A viragem na vida de Gonzalez aconteceu no primeiro dia de 2026. Depois de assistir a tutoriais online, acabou a usar uma máquina de cortar cabelo e uma lâmina em casa. Estava demasiado nervoso para ir a uma barbearia. Nessa noite, usou um gorro. Ninguém pareceu reperar. Alguns dias depois, no seu dia de aniversário, revelou a cabeça rapada aos amigos.

“A minha confiança foi à lua e veio”, compara. A constante ansiedade— sobre se o vento levava ou não o chapéu, ou sobre como ia ficar o seu cabelo debaixo de certas luzes — desapareceu. “Estou feliz, em sintonia comigo mesmo, apaixonado pela forma como me apresento ao mundo”.

A decisão de Lee foi impulsiva. Como não conseguiu marcar uma sessão com o barbeiro, em janeiro passado, rapou a cabeça em casa para celebrar mais um ano de vida. Se não tivesse gostado, reconhece, teria voltado a esconder a careca.

Mas aquilo que encontrou foi uma versão de si próprio de que gostava mais. “Com o cabelo mais comprido e volumoso, nunca tive tanta confiança como agora que o rapei”, traça.

Apesar de haver brincadeiras ocasionais de amigos e colegas de trabalho, já não sente necessidade de se esconder.

“De certa forma, sinto-me livre”, diz Lee, acrescentando que esta foi uma das melhores decisões que tomou na vida.

Voltar a assumir o controlo

Goh faz questão de lembrar os pacientes que rapar a cabeça não faz com que o cabelo cresça melhor — é um mito comum. Além disso, alerta que, dependendo da condição subjacente, o crescimento pode não ocorrer da forma esperada. Reconhece, contudo, que esta decisão pode restaurar um sentimento de controlo. “Pode mesmo devolver aquela sensação de controlo”, reforça.

Olivardia concorda. “É um alívio, uma vez que a pessoa não tem de ser lembrada diariamente de que não tem o controlo sobre um processo com o qual está insatisfeita”, argumenta. A aceitação, junta, pode desempenhar um papel fundamental na proteção da saúde mental quando o corpo está a fazer algo fora do nosso controlo.

Hoje, Halas mantém a cabeça rapada com o mesmo cuidado que antes dedicava ao seu penteado. A rotina é simples e intencional. O que realmente importa é a decisão que está por trás dela.

“Não importa o que se decide depois. A verdade é que demos um passo”, diz,

Para Gonzalez, há uma lição a tirar que vai além do cabelo. “O nosso cabelo é uma extensão de quem somos. Não nos define, de forma alguma”, justifica.

Para estes três homens, a viver em três locais diferentes, rapar a cabeça não apagou anos de ansiedade. Ainda assim, mudou a narrativa. Em vez de se preocuparem com a queda e com o enfraquecimento do cabelo, decidiram assumir a careca.