França e Espanha enfrentam esta sexta-feira uma das situações mais graves da atual época de fogos, agravada pelas temperaturas elevadas, pela vegetação extremamente seca e por rajadas de vento que deverão continuar a alimentar as chamas durante várias horas
Dezenas de milhares de pessoas retiradas, casas destruídas, milhares de hectares consumidos e incêndios que avançam mais depressa do que a capacidade das equipas para os travar. França e Espanha enfrentam esta sexta-feira uma das situações mais graves da atual época de fogos, agravada pelas temperaturas elevadas, pela vegetação extremamente seca e por rajadas de vento que deverão continuar a alimentar as chamas durante várias horas.
A situação é particularmente dramática no sudoeste da Comunidade de Madrid, onde vários incêndios acabaram por convergir numa única frente. O Governo espanhol declarou a emergência de interesse nacional em Madrid e na província de Ávila, colocando a resposta sob coordenação do Ministério do Interior e da Unidade Militar de Emergências.
“Hoje será um dia crítico”, avisou o ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska, perante as condições meteorológicas adversas e o risco de os grandes incêndios ativos em Madrid, Toledo e Ávila se aproximarem ainda mais. A prioridade, afirmou, é impedir que o fogo de Burgohondo, em Ávila, se una à frente que já devasta o território madrileno.
“O pior incêndio da história da Comunidade de Madrid”
Os incêndios que começaram em Almorox, Villa del Prado e San Martín de Valdeiglesias avançaram através de áreas florestais e urbanizações, impulsionados por ventos que poderão ultrapassar os 50 ou 60 quilómetros por hora. Duas das principais frentes madrilenas acabaram por se unir, reduzindo a margem de manobra dos bombeiros e obrigando as autoridades a preparar novas retiradas.
A presidente da Comunidade de Madrid, Isabel Díaz Ayuso, classificou a situação como “incomum e catastrófica” e afirmou que a região enfrenta “o pior incêndio da história” do território.
“É uma tempestade perfeita de temperaturas extremamente altas e ventos fortes. Um incêndio levou a outro e temos algumas horas muito difíceis pela frente”, declarou Ayuso a partir do centro de comando instalado em Cenicientos.
Segundo o balanço avançado pela responsável regional, cerca de 6.000 hectares já tinham sido atingidos e aproximadamente 19 mil pessoas tinham sido retiradas das suas casas. Outros balanços divulgados ao longo da manhã apontavam para mais de 10 mil retirados apenas nas zonas diretamente abrangidas pelas primeiras operações, números que continuavam a aumentar à medida que novas localidades eram incluídas nos planos de emergência.
Fogo avança entre casas a cinco quilómetros por hora
As chamas avançaram pelas áreas florestais e entre habitações a uma velocidade estimada entre cinco e seis quilómetros por hora. Em El Encinar del Alberche, 43 casas foram destruídas e outras 286 sofreram danos, de acordo com o balanço das autoridades regionais.
Moradores de Aldea del Fresno, Pelayos de la Presa, Navas del Rey, Colmenar del Arroyo e Chapinería foram retirados ou incluídos em operações preventivas. Só estas três últimas localidades têm uma população conjunta próxima das nove mil pessoas.
Autocarros foram mobilizados para transportar os residentes para municípios considerados seguros, incluindo Leganés, Las Rozas, Villaviciosa de Odón, Navalcarnero, Móstoles, Alcorcón, Villanueva de la Cañada e Brunete.
Também foram retirados residentes de lares de idosos e de instituições destinadas a pessoas com deficiência. Noutros locais, as autoridades pediram à população que permanecesse dentro de casa, com portas e janelas fechadas, devido ao fumo e à proximidade das chamas.
“O incêndio está para lá da nossa capacidade de extinção”
Apesar do trabalho realizado durante a noite, os fogos continuavam sem estar dominados ou controlados durante a manhã desta sexta-feira.
Bombeiros, agentes florestais, elementos da Proteção Civil e militares da Unidade Militar de Emergências realizaram ataques diretos às frentes de fogo e tentaram proteger localidades como Pelayos de la Presa. As condições, porém, não permitiam antecipar uma contenção rápida.
“O incêndio está para lá da nossa capacidade de extinção. Não conseguiremos travar o avanço das chamas até que as condições mudem”, admitiu um porta-voz dos serviços de emergência citado pela imprensa espanhola.
A esperança está agora depositada na descida acentuada das temperaturas prevista para o fim de semana. A Agência Estatal de Meteorologia espanhola antecipa uma melhoria das condições, sobretudo no sábado, com reduções significativas das temperaturas em grande parte do país. Até ao final desta sexta-feira, contudo, o vento continuará a representar um risco elevado.
França pede ajuda à União Europeia
Do outro lado dos Pirenéus, França enfrenta simultaneamente vários grandes incêndios, dois na região da Nova Aquitânia e outro no departamento mediterrânico de Var.
A dimensão da emergência levou o Presidente Emmanuel Macron a ativar o Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia. França deverá receber dois aviões anfíbios Canadair enviados pela Croácia, dois Air Tractor disponibilizados por Portugal e dois helicópteros pesados Black Hawk fornecidos pela Chéquia e pela Eslováquia.
“A situação continua extremamente tensa devido aos incêndios florestais que assolam o país, particularmente na Gironda”, declarou Macron.
O chefe de Estado francês agradeceu a “solidariedade concreta, rápida e operacional” dos parceiros europeus e pediu à população a máxima vigilância.
Evacuação total na península de Cap-Ferret
Na Gironda, a norte da bacia de Arcachon, as autoridades ordenaram a retirada total da península de Cap-Ferret, uma das principais zonas turísticas da costa atlântica francesa.
Foram mobilizadas embarcações para transportar moradores e turistas a partir de vários cais, mantendo-se também corredores rodoviários de saída. O fogo já tinha atingido milhares de hectares e ameaçava localidades, parques de campismo, casas de férias e propriedades situadas numa região densamente ocupada durante o verão.
Centenas de bombeiros permanecem no terreno. Desde o início do incêndio, várias habitações foram destruídas e um bombeiro ficou ferido numa explosão que terá sido provocada por uma garrafa de gás.
As retiradas efetuadas nos incêndios da Gironda e de Landes já abrangem mais de 40 mil pessoas, entre residentes e turistas.
Mais de 23 mil retirados em Biscarrosse
Um segundo grande incêndio começou perto de Biscarrosse, no departamento de Landes, depois de um veículo se ter incendiado.
As chamas propagaram-se rapidamente devido ao vento e consumiram cerca de 2.500 hectares, obrigando à retirada de mais de 23 mil pessoas. Aproximadamente 600 bombeiros foram mobilizados, mas o fogo permanecia fora de controlo.
As autoridades chegaram a pedir ajuda aos agricultores da região, nomeadamente através da disponibilização de reservas de água e outros recursos que pudessem apoiar as operações.
Mais a sudeste, cerca de 800 bombeiros continuavam a combater o incêndio no departamento de Var. Apesar de terem surgido novos focos, uma melhoria temporária das condições permitiu o regresso de parte da população anteriormente retirada.
Na Córsega, o incêndio no vale de Restonica continuava ativo há quase duas semanas. O terreno íngreme e o fumo denso dificultavam o trabalho de mais de 200 bombeiros, apoiados por helicópteros e aviões.
França pode caminhar para um ano recorde
A vegetação extremamente seca e as temperaturas elevadas estão a dificultar as operações em várias regiões francesas. Segundo dados divulgados pelo Governo, tinham sido registados mais de 12.500 incêndios desde o início do ano.
A área ardida em 2026 já ultrapassa a registada durante todo o ano de 2022, quando o sudoeste de França foi atingido por incêndios particularmente graves. As estimativas oficiais apontam para cerca de 44 mil hectares consumidos pelas chamas desde janeiro.
As autoridades francesas detiveram 128 pessoas por suspeitas relacionadas com a origem de incêndios, incluindo casos resultantes de negligência e outros alegadamente provocados de forma intencional.
Três bombeiros morreram desde o início da atual época de incêndios. Dois perderam a vida esta semana durante o combate às chamas nas proximidades do aeroporto de Bordéus-Mérignac, enquanto um terceiro morreu no início de julho num incêndio numa localidade alpina.
Alívio poderá chegar no fim de semana
Em Espanha, a descida das temperaturas prevista para sábado poderá oferecer uma primeira oportunidade para estabilizar algumas das frentes. As autoridades alertam, porém, que a melhoria meteorológica não significa que os fogos fiquem imediatamente controlados.
Durante esta sexta-feira, as rajadas de vento, a baixa humidade e a acumulação de vegetação seca mantêm as equipas perante um cenário extremamente perigoso. O objetivo imediato continua a ser proteger as localidades ameaçadas e impedir que o incêndio de Burgohondo atravesse a fronteira regional e se una às chamas de Madrid.
Em França, a chegada dos meios europeus deverá reforçar as operações aéreas, mas os incêndios de Cap-Ferret e Biscarrosse continuam a exigir retiradas em grande escala.
França e Espanha entram, assim, nas próximas horas com a mesma esperança: resistir ao pior período meteorológico até que a descida das temperaturas permita aos bombeiros recuperar alguma vantagem sobre as chamas.






